Tamanho de local fragmentado influencia biodiversidade mais que isolamento. Estudo é o maior e mais longo do tipo já feito sobre o assunto.
Marília Juste
Em áreas isoladas pelo desmatamento na Amazônia, o tamanho do local influencia mais a sobrevivência das espécies de aves do que a distância que ele está da área de mata contínua. Foi o que concluiu o maior e mais longo estudo sobre área e isolamento de fragmentos florestais na região, feito pelo Instituto de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e parceiros internacionais, publicado na revista americana “Science” da última. O trabalho estudou 55 espécies de aves em 23 trechos de floresta isolados e intactos, de 1, 10 e 100 hectares, durante 13 anos. “Metade das espécies que estudamos não são significativamente afetadas pelo isolamento. Mas a maioria é consideravelmente afetada pela área reduzida”, afirmou ao G1 o pesquisador português Gonçalo Ferraz, do Inpa.
Quando uma área é isolada pelo desmatamento ela fica literalmente “ilhada”. Com isso, muitas espécies que existiam naquela região não podem mais ser encontradas. E embora algumas delas realmente acabem porque não conseguem sobreviver naquele ambiente restrito, boa parte simplesmente fica de fora da área isolada porque nunca existiu ali. “É como se tivéssemos uma massa de biscoito com pedacinhos de vários tipos de chocolate espalhados. Se nosso cortador for pequeno, podemos não pegar algum tipo específico de chocolate. Precisamos cortar um pedaço grande para termos certeza que teremos os sabores mais raros”, explica Ferraz. Segundo ele, na Amazônia é a mesma coisa. Se a área não for suficientemente grande, muitas espécies raras não são incluídas. O isolamento, ali, é um fato importante, mas menos impactante a curto prazo, graças ao enorme tamanho da área contínua de floresta. “Nosso objetivo neste estudo é chamar a atenção para o fato de que, mesmo que solucionemos todos os problemas do isolamento, há um problema original de área que precisa ser resolvido”, afirma o pesquisador. “Isso no contexto da Amazônia, porque, ali, o isolamento nunca é tão isolado assim”.
O trabalho de Ferraz é único no mundo por acompanhar aves em áreas fragmentadas de diversos tamanhos ao longo dos anos, mesmo desde antes de elas terem sido isoladas. Isso foi possível graças a um acordo feito entre o Inpa e fazendeiros do Amazonas, durante os anos 70, que permitiu que eles deixassem pedaços intactos de floresta no meio de suas fazendas para estudos. Com isso, os pesquisadores conseguiram comparar não apenas áreas isoladas de diversos tamanhos e condições de isolamento, mas também a região fragmentada com ela mesma antes do desmatamento.
Para conseguir fazer isso, no entanto, eles precisaram vencer uma batalha metodológica, comum a todas as pesquisas que estudam animais: definir quando uma espécie realmente não está presente e quando ela simplesmente fugiu à vista dos cientistas. “Imagine que você está procurando um uirapuru, um bicho marrom que vive perto do chão e que canta de uma forma muito distinta. Quando ele canta, você detecta. Mas ele não canta o tempo inteiro. É muito fácil você ter ido em um lugar que tem uirapuru, ele não cantou e você não viu”, conta Ferraz. O problema era especialmente importante porque o estudo do Inpa pretendia comparar um grande número de áreas com características bastante diferentes. Como eles resolveram isso? Visitando, muitas e muitas vezes, as mesmas áreas ao longo dos anos. “Imagine que você visitou dez vezes um lugar em um determinado ano e, nessas dez vezes, detectou uma espécie em nove delas. No ano seguinte você volta e em outras dez vezes não vê a espécie. O que você vai dizer? Que o bicho sumiu”, exemplifica o pesquisador. “Nesse caso você tem bastante certeza. Mas digamos que você visita um lugar dez vezes em um ano e vê uma espécie em duas delas. No ano seguinte você volta e não vê. E aí? A espécie sumiu ou você que não viu? Há muito menos certeza”, afirma. Por isso, o grande número de visitas às áreas, para “quantificar a certeza”, explica Gonçalo Ferraz. “Esse é um dos motivos porque o estudo tomou tanto tempo”, afirma.
Nenhum comentário:
Postar um comentário