quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Falta de definição jurídica atrapalha biotecnologia, diz empresa

Daniel Merli e Monique Maia

A produção de alimentos transgênicos no país e a pesquisa tecnológica poderiam ter avançado muito mais se não fosse a falta de definição jurídica sobre o tema, avalia um relatório da consultoria de empresas do agronegócio Céleres. O estudo, encomendado pelo Conselho de Informações Sobre Biotecnologia (CIB), foi divulgado na última segunda (5) durante uma feira de agronegócios em Cascavel, oeste paranaense.

A empresa compara dados dos três maiores produtores mundiais de transgênico: pela ordem, Estados Unidos, Argentina e Brasil. A produção, segundo a empresa, segue mais ou menos igual nos três países até 1997. A partir deste ano, a produção dos outros dois países dispara na frente do Brasil. Na avaliação da Céleres, a produção brasileira cresceu menos por falta de definição legal. "Em conseqüência do vazio jurídico, a pesquisa ficou parada no Brasil. Enquanto que em outros países a pesquisa avançou, aqui ela ficou praticamente travada por dez anos”, disse o autor da pesquisa e conselheiro da CIB, Anderson Galvão. Segundo ele, a fase de pesquisa dura o mesmo tempo praticamente em vários países do mundo. Mas é no período de aprovação e regulamentação que o processo fica mais lento no Brasil."No caso da soja, foram quase oito anos de discussão jurídica e institucional. Praticamente, o mesmo tempo que se gasta para fazer uma mesma tecnologia, que é de dez anos. O normal seria dois anos para fazer essa aprovação", defendeu o autor da pesquisa.

A empresa de consultoria Céleres, com base no crescimento dos outros países, faz uma estimativa de quanto poderia crescer a produção de transgênicos no país. De acordo com o estudo, os produtores rurais acumularam na última década US$ 1,5 bilhão com o plantio e comercialização da soja geneticamente modificada. No entanto, os benefícios poderiam contabilizar os US$ 4,6 bilhões, se não fosse a demora na aprovação de projetos.

Relatório pró-transgênico é contestado por associação de agricultura alternativa

O estudo da consultoria de empresas do agronegócio Céleres afirmando que o agricultor brasileiro deixou de ganhar com a produção de alimentos transgênicos no país é contestado pelo coordenador do programa de políticas públicas da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA), Jean Marc Von der Weid.

Segundo ele, para se ter perda é preciso primeiramente admitir que o produto usado representa mais economia do que o convencional. "Isso não é comprovado. Do ponto de vista de produtividade e custo de produção, os melhores resultados estão nos sistemas convencionais do Mato Grosso, em seguida a soja orgânica de agricultores do Paraná e, em terceiro lugar, a soja transgênica. Além disso, a soja convencional está com prêmio de qualidade e não sofre com restrições do mercado internacional". O governo brasileiro passou a adotar o plantio e a comercialização de soja geneticamente modificada após a publicação de uma medida provisória em 2003. Inicialmente, as sementes eram contrabandeadas da Argentina. Com a ampliação do uso da soja transgênica, a pesquisa aponta que o Brasil se tornou o terceiro maior usuário de biotecnologia agrícola em 2006. “Entre a safra de 2004/05 e a de 2006/07, verificou-se um crescimento absoluto de 6 milhões de hectares, com o total de 11,7 milhões de hectares cultivados com soja GM na última campanha”.

Anderson Galvão, engenheiro responsável pela pesquisa da Céleres, também analisa a situação atual do milho e algodão transgênico. E alerta que se os estudos de biotecnologia, envolvendo os dois produtos, receberem o mesmo tratamento que os da soja, o produtor brasileiro deixará de ganhar na próxima década. Com relação ao milho geneticamente modificado, o brasileiro pode deixar de ganhar US$ 6,9 bilhões. Já o produtor de algodão deixar US$ 2,1 bilhões.Para o representante da AS-PTA, a estimativa foi feita com base em suposições que não se sustentam. “O estudo está sempre supondo que tem um grande ganho de custo e de produtividade que não se manifestaram em lugar nenhum do mundo. Comparando com outros lugares em que foram feitos estudos de forma sistemática, os indicativos são diferentes. No caso do algodão GM, por exemplo, existem estudos da Índia que apontam uma série de problemas do ponto de vista de produção, produtividade e custo".

Fonte: Agência Brasil

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