segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Agricultura polui mais com excesso de fertilizante

Carlos Rangel

A agricultura é atualmente uma das mais importantes fontes de emissão de gases do efeito estufa do mundo, de acordo com o mais recente relatório do Greenpeace, Mudanças do Clima, Mudanças no Campo. A entidade propõe também as mudanças necessárias para tornar a atividade ambientalmente sustentável. A contribuição total da agricultura para as mudanças climáticas, incluindo desmatamento para plantações e outros usos, é estimado entre 8,5 bilhões e 16,5 bilhões de toneladas de dióxido de carbono (de 17% a 32% de todas as emissões de gases do efeito estufa provocadas pelo ser humano).

O uso excessivo de fertilizantes é responsável pela maior parte das emissões ou 2,1 bilhões de toneladas de CO2 anuais. O excesso de fertilizantes provoca a emissão de óxido nitroso (N2O), que é 300 vezes mais potente que o CO2 na mudança do clima. O relatório foi escrito para o Greenpeace pelo professor Pete Smith, da Universidade de Aberdeen (um dos autores do mais recente relatório do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas). O relatório traz detalhes de como a agricultura baseada no uso intensivo de energia e produtos químicos provocou um aumento nos níveis de emissões de gases do efeito estufa, principalmente devido ao excessivo uso de fertilizantes, desmatamento, degradação do solo e criação intensiva de animais.

As principais alternativas de mitigação das emissões agrícolas são:

1. Manejo de culturas (potencial de mitigação de até 1,45 bilhão de toneladas de CO2 eq. /ano) como por exemplo:
- Evitar deixar a terra nua: o solo nu é propenso à erosão e à lixiviação5 de nutrientes e contém menos carbono que uma área de mesmo tipo com vegetação. Uma importante solução podem ser as culturas consorciadas, que ocupam o solo entre os períodos de crescimento da cultura principal, ou a rotação de culturas, aproveitando as fases de repouso de cada espécie.
- Usar a quantidade adequada de fertilizante nitrogenado, evitando exceder as necessidades imediatas da planta, aplicando o fertilizante no momento certo e de forma mais precisa no solo. A redução da dependência de fertilizantes, através da adoção de sistemas de cultivo rotativo com leguminosas tem grande potencial de mitigação.
- Evitar a prática de queimadas.
- Reduzir o manuseio do solo: a técnica de plantio direto pode aumentar o teor de carbono no solo, porém, no contexto da agricultura industrial, o benefício pode se perder em razão da maior dependência de herbicidas e da mecanização. Entretanto, estudos preliminares com sistemas orgânicos mostraram que o menor manuseio do solo, sem uso de herbicidas, tem efeitos positivos em termos de retenção do carbono no solo.

2. Manejo das áreas de pasto (potencial de mitigação de até 1,35 bilhão de CO2 eq./ano), por exemplo, reduzindo-se o manejo intensivo ou a freqüência e intensidade das queimadas (por controle ativo das queimadas). Essas medidas geralmente levam ao aumento da cobertura de árvores e arbustos, resultando na formação de um sumidouro de CO2 tanto no solo quanto na biomassa.

3. Restauração dos solos orgânicos drenados para lavoura e das terras degradadas para aumento dos sumidouros de carbono (potencial de mitigação combinado de 2,0 bilhões de CO2 eq. /ano): evitar drenagem de terras úmidas, fazer controle de erosão, corrigir o solo com nutrientes e matéria orgânica.

4. Melhor manejo do arroz e da água (0,3 bilhão de CO2 eq. /ano); no período de pousio, sem cultivo de arroz, as emissões de metano podem ser reduzidas com um melhor controle da água, especialmente mantendo-se o solo o mais seco possível e evitando encharcamento.

5. Menor mitigação, mas ainda significativa, pode ser alcançada com medidas colaterais, como mudanças no uso da terra (ex. conversão de lavouras em prados) e atividade agro-florestal (0,05 bilhão de CO2 eq./ano), além de um melhor manejo da criação e dos adubos (0,25 bilhão de CO2 eq./ano).

6. Maior eficiência na fabricação de fertilizantes pode contribuir significativamente para redução de até 0,2 bilhão de CO2 eq./ ano. A melhoria seria relacionada à maior eficiência energética nas plantas de produção de amônia (29%), introdução de novas tecnologias de redução de óxido nitroso (32%) e outras medidas gerais de economia de energia na fabricação (39%).

7. Os consumidores podem ter um importante papel na redução das emissões agrícolas de GEE. Uma redução na demanda por carne poderia diminuir consideravelmente as emissões de GEE associadas a esse fator. A adoção de uma dieta vegetariana ou, pelo menos, um menor consumo de carne e derivados teriam impacto benéfico sobre a emissão de gases do efeito estufa. Na dieta de um americano médio, por exemplo, seria possível poupar 385 kcal por dia (ou 95 - 126 g de CO2) de combustíveis fósseis substituindo-se 5% da carne por produtos vegetais.

Fonte: DiárioNet

Nenhum comentário:

Postar um comentário