sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Amazônia debaterá plano de prevenção a secas e cheias de rios

A Comissão da Amazônia, Integração Nacional e Desenvolvimento Regional vai realizar audiência pública para debater um plano de prevenção permanente contra os efeitos das secas e das cheias nos rios da região.

A iniciativa do debate é da deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB). Segundo a parlamentar, a prioridade agora é mobilizar os representantes dos setores governamentais e científicos para realizar a audiência ainda no mês de novembro.

Participantes
Devem ser convidados para participar do debate representantes de órgãos como Superintendência do Serviço Geológico do Brasil (CPRM); Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (Inpa); Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe); Associação Amazonense dos Municípios (AAM); do governo do Amazonas; e do Ministério da Integração Nacional.

A audiência não tem data definida.

Fonte: Agência Câmara

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Mudança e evolução

Por Alex Sander Alcântara, Agência FAPESP

Como e por que algumas espécies se adaptam de maneira notável a um meio ambiente em constante mudança? E por que algumas respondem de modo diferente às alterações ambientais?

Apesar de a ciência ainda não ter respostas precisas a essas questões, a filogeografia – associada a áreas como biogeografia, biologia e geociência – tem fornecido ferramentas importantes que têm ajudado a elucidar aspectos relacionados à biologia da evolução.

Além dos desafios da filogeografia, essas questões marcaram o Simpósio Internacional sobre Filogeografia, organizado pelo Programa Biota-FAPESP.

Lacey Knowles, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, destacou o interesse crescente no mundo acadêmico com relação ao uso de dados genéticos para distinguir espécies.

“Os dados genéticos podem oferecer um instrumento valioso para identificar espécies. Contudo, o caminho pelo qual esses dados são interpretados pode levar a conclusões enganosas e, especificamente, a um fracasso em reconhecê-las”, afirmou.

A pesquisadora falou sobre consequências genéticas de mudanças induzidas pela alterações no clima. Os estudos conduzidos por seu grupo pretendem analisar macropadrões genéticos e a adaptação potencial das espécies em determinadas condições.

Para Nuno Ferrand, do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (Cibio) da Universidade do Porto, em Portugal, o desenvolvimento e a diversificação da biologia, da genética molecular e da genômica, além do advento dos métodos de análise associado à crescente capacidade dos computadores, tornam possível o aumento do conhecimento a respeito de como as espécies se adaptam.

Segundo ele, uma das dificuldades atuais da filogeografia é tentar explicar por que algumas espécies se adaptam e reagem de formas diferentes em relação às mudanças e alterações ambientais.

“Já temos hipóteses consistentes para algumas espécies – como anfíbios, répteis e mamíferos como coelhos –, mas precisamos ampliar de forma substancial a amostragem do número de espécies”, disse à Agência FAPESP.

Em sua palestra no simpósio, Ferrand falou sobre padrões filogeográficos em anfíbios, répteis e em espécies europeias de coelhos como modelo em biologia evolutiva.

“Estudamos esses organismos por serem especialmente adequados para a reconstrução da biogeografia histórica de uma região. A Península Ibérica é um refúgio biológico importante. É um lugar único na Europa para se estudar a dinâmica da diversidade biológica”, afirmou.

Ferrand apresentou um panorama das pesquisas desenvolvidas no Cibio, ligadas à biologia da evolução, em particular à documentação dos padrões de diversidade genética das populações naturais e à compreensão dos processos evolutivos que lhes deram origem.

O biólogo explicou que múltiplos processos evolutivos recentes – como fragmentação, expansão, hibridização, invasões e especiação – desenharam a arquitetura genética de anfíbios e répteis na Península Ibérica, resultando em uma diversidade “complexa e fascinante”.

Um exemplo dessa diversificação são os coelhos da ilha de Porto Santo, próximo à ilha da Madeira, em Portugal, espécie-modelo para estudos evolucionários e utilizados pelo grupo do Cibio há mais de 20 anos.

A multiplicação de coelhos na ilha dificultou a agricultura na região, uma vez que os animais devoraram as plantações. “Depois de se fazer uma análise das variantes genéticas da população de coelhos na ilha, verificamos que toda ela descende de um só casal”, disse.

Segundo ele, os estudos indicam que a coelha-mãe era uma coelha não domesticada. No século 19, já se defendia que esses animais teriam evoluído para uma espécie própria, denominada Lepus huxley. “Mas os estudos genéticos que conduzimos apontaram que não são uma espécie diferente, mas sim a mesma espécie adaptada às condições insulares”, disse.

Consea e Fórum Brasileiro reúnem pesquisadores em encontro sobre mudanças climáticas

O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e o Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas (FBMC) realizam nesta quinta e sexta-feira (11 e 12 ), em Brasília, o seminário Mudanças Climáticas: Adaptação e Vulnerabilidade . O evento acontece no Auditório do Anexo I do Palácio do Planalto, partir das 9 horas.

O encontro busca discutir as diversas questões relacionadas às mudanças climáticas, como as fragilidades, a adaptação e especialmente os impactos sobre a segurança alimentar e nutricional. O seminário também visa reforçar o tema nas agendas públicas dos governos, nas suas três esferas, e da própria sociedade civil.

O seminário terá a participação de Integrantes dos Grupos de Trabalho (GT) Mudanças Climáticas, Pobreza e Desigualdade do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, além de representantes do Consea, da Rede de Mobilizadores Sociais (Coep), e de universidades envolvidas em pesquisas sobre o tema.

Nesta quinta-feira (11), o painel com o tema O necessário enfrentamento da questão climática terá entre os debatedores o presidente do Consea, Renato S. Maluf, a partir das 10h30. Já o professor Luís Pinguelli Rosa, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, será um dos debatedores do painel intitulado Desafio do diálogo do governo com a sociedade no âmbito das mudanças climáticas , a partir das 14h30 desta quinta-feira.

Ainda na tarde de quinta-feira serão abordadas Iniciativas para o fortalecimento da justiça ambiental e climática , com a participação de cinco expositores. São eles: Renato Maluf e Teresa da Silva Rosa, que integram a coordenação do subprojeto Populações Vulneráveis , do Centro de Referência em Segurança Alimentar e Nutricional (Ceresan) da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro; Marcelo Firpo, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz); André Spitz e Celso Marcatto, do Coep.

Serviço
Seminário Mudanças Climáticas: Adaptação e Vulnerabilidade
Dias: 11 e 12 de novembro (quinta e sexta-feira)
Horário: a partir das 9 horas
Local: Auditório do Anexo I do Palácio do Planalto, Brasília DF
Informações para imprensa: (61) 3411 2576

Fonte: Consea

Governo vai propor novas regras para uso da biodiversidade

Por Ana Raquel Macedo, da Rádio Câmara
O governo deve encaminhar à Câmara, até o fim do ano, um projeto de lei para adequar a legislação brasileira aos resultados da 10ª Conferência das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica, encerrada no fim de outubro, no Japão. A principal conquista do Protocolo de Nagoya, aprovado pelos 193 países participantes, é a criação de regras para a repartição dos lucros obtidos com produtos que utilizam biodiversidade de outros países.
O texto determina regras básicas para o acesso ao material genético. De acordo com o documento, o uso de substâncias ou genes de qualquer espécie nativa de determinado país (planta, animal ou micróbio, por exemplo) depende do consentimento do governo desse país, que deverá ser recompensado com lucros da venda do produto ou com benefícios não financeiros, como transferência de tecnologia.
Caso a substância - como o princípio ativo de um novo remédio - também seja utilizada tradicionalmente por uma comunidade ou povo indígena, esse grupo também terá de autorizar seu uso e receber as compensações.
O secretário de Biodiversidade e Florestas do Ministério do Meio Ambiente, Bráulio Dias, afirma que a Casa Civil já possui uma minuta de projeto de lei sobre o assunto. Mas, com a aprovação do Protocolo de Nagoya, o texto passará por ajustes.
"O protocolo obriga todos os países a designar instituições nacionais que vão servir comocheckpoints: pontos para conferir se o recurso genético recebido de outros países foi obtido legalmente, se existe um documento autorizando aquele acesso e se foi assinado um contrato de repartição de benefício. Isso não estava previsto na minuta de projeto de lei que a gente vem discutindo", explica Dias.
Propostas em tramitação
Quando chegar à Câmara, o projeto do governo deve se juntar a outras nove propostas. O projeto de lei mais antigo, apresentado no Senado em 1995, pela ex-senadora Marina Silva, chegou à Câmara em 1998. O texto, que prevê sanções penais para os crimes contra o patrimônio genético, tramita em conjunto com outras oito propostas. Todas aguardam a criação de uma comissão especial para analisar o tema.


Além de examinar os projetos de lei, o Congresso também terá que ratificar o Protocolo de Nagoya, quando o Brasil assinar o documento. O texto ficará disponível para assinatura dos países entre fevereiro de 2011 e fevereiro de 2012.
Para o deputado Antônio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP), não deve haver problema para complementar a legislação brasileira e confirmar o protocolo. "Isso nos interessa, interessa ao País", afirma, sobre as compensações pelo uso de material genético.
Legislação atual
No Brasil, o acesso aos recursos da biodiversidade e a repartição dos benefícios advindos desse uso são regulados atualmente pela Medida Provisória 2.186, de 2001, até hoje não votada pelo Congresso.


"Vários países estabeleceram legislação nacional, como o Brasil. Mas a falta de um protocolo internacional, que definisse as regras para relação entre países, tem dificultado muito”, afirma Bráulio Dias. “Uma vez que esses recursos genéticos ou conhecimentos saem do País, a nossa legislação não alcança mais."


O acordo, alcançado no Protocolo de Nagoya, era negociado há quase 20 anos, desde a Eco-92, realizada no Rio de Janeiro.

Batalha entre floresta e gado na Amazônia

A criação das Resex foi a vitória daqueles que se opunham ao desmatamento

Por Mario Osava, da IPS
“Agarre na mão de Deus”, disse sua mãe ao falecer. Só mais tarde compreendeu que ela, enquanto agonizava com falência dos rins, o exortava a continuar seu trabalho de evangelização católica.
Era 1980, e viviam isolados no seringal de Iracema, como uma grande família formada por dezenas de adultos, meninos e meninas, sobrevivendo do que a selva amazônica oferecia e da venda de látex natural extraído da seringueira.
Aldeci Cerqueira Maia, o “Nenzinho”, tinha 18 anos e havia se casado há pouco quando sua mãe morreu. Extrator de borracha desde os nove anos, guarda até hoje, “como um talismã”, uma das primeiras pelotas que fez com esse produto. Seus avós foram “soldados da borracha”, levados do Nordeste para a Amazônia durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) para abastecer de borracha os exércitos aliados.
Mais tarde, o Estado do Acre começou a receber novos visitantes interessados, não nos frutos da floresta, mas em derrubá-la e implantar a pecuária e alguma plantação. Os assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) restringiam o seringal. Quando, em 1986, o Incra se preparava para ocupar parte dos seringais para assentar os agricultores, os cultivadores de borracha ameaçados de expulsão uniram-se no “empate”, uma forma de resistência pacífica que levou multidões a se opor ao desmatamento.
“Conseguimos parar a expropriação do Incra”, disse Nenzinho, mas foi preciso uma longa luta até que o triunfo se formalizasse na criação da Reserva Extrativista (Resex) Cazumbá-Iracema, em 2002. Resex é uma área de proteção ambiental onde seus moradores tradicionais têm direito ao uso sustentável dos recursos naturais e benefícios como subsídios ao preço da borracha. Esta foi a vitória do “empate”, um invento de Chico Mendes, herói dos povos da floresta amazônica, no qual os seringueiros formavam barreiras humanas para impedir o corte da floresta.
Mas a criação dessas reservas custou sangue e conflitos. Chico Mendes foi assassinado em 1988 por pecuaristas em Xapuri, cidade do leste do Acre. Oito anos antes, já haviam matado Wilson Pinheiro, outro líder de seringueiros e trabalhadores rurais. O primeiro legado de ambos foi a criação, em 1990, da Resex Chico Mendes, com 970.570 hectares, onde vivem hoje cerca de 1.800 famílias.
Nenzinho sobreviveu a duas ameaças de morte, uma delas por ter denunciado um delegado por caça ilegal. Mas sempre contou com a proteção e o apoio do padre Paolino Baldassari, cura italiano já octogenário mas ativo, que formou gerações de ativistas católicos e animou todas as lutas dos pobres em Sena Madureira, município sede da Resex Cazumbá-Iracema.
O sucesso da resistência do seringal Iracema e de sua própria liderança, Nenzinho atribui à pregação religiosa iniciada por sua mãe e seguida por ele, sempre sob orientação de padre Paolino. “O ser humano não vive apenas de pão, e tampouco só de oração”, disse ter aprendido Nenzinho, que decidiu também cuidar da saúde de seus vizinhos, capacitando-se como agente sanitário e depois enfermeiro.
As visitas frequentes a todas as famílias locais o fizeram padrinho de meninos e meninas de 56 famílias. “Era compadre de todos”, contou. Porém, uma brutal queda no preço da borracha na década de 1990 ameaçou desfazer sua comunidade. Muitos abandonavam o seringal. Os persistentes criaram uma cooperativa e Nenzinho, com as facilidades de agente de saúde da prefeitura, transportava a produção de todos para vender na cidade, fazendo com que economizassem custos e tempo.
O transporte por animais demorava quase um dia inteiro, já que não havia estradas, apenas caminhos escorregadios quando chovia. Em 1992, o preço caiu mais ainda e “não havia compradores”. Nenzinho decidiu salvar um mínimo da comunidade convidando dez famílias a se somarem à extração de castanha com o que ele e seus parentes conseguiam alguma renda, graças à sorte de viver junto a um grande castanhal. Como a colheita de castanha se limita ao primeiro trimestre, também recorreu ao cultivo de arroz, feijão, banana e outros alimentos no restante do ano.
“Foi difícil” mudar os hábitos de extratores acostumados à carne de caça. “Tivemos que aprender a comer outras coisas. Eu mesmo precisei me domesticar”, admitiu Nenzinho. Outro triunfo foi a abertura de um ramal viário até a Resex, “uma missão impossível, mas realizada”. Em 1997, chegou o primeiro automóvel, entre choros “de emoção”, contou. “O transporte é tudo”, afirmou, embora a terra escorregadia impeça o tráfego de veículos a maior parte do ano.
Cazumbá-Iracema também foi a “primeira comunidade extrativista a ter ensino médio no Acre”, destacou orgulhoso. São 15 alunos no secundário e 96 no ensino primário, informou a professora Algecida Cerqueira, em sua casa de madeira, no povoado principal da Resex. “Nasci aqui e fundei a escola em 1993”, contou, dizendo que a juventude “quer ficar aqui”, ao contrário dos filhos de camponeses assentados nos arredores. Um exemplo é Ronaldo Santos, de 18 anos, que pensa em estudar biologia em alguma cidade e depois voltar para pesquisar “a floresta cheia de mistérios”.
Finalmente, em 2002, o governo federal decretou a criação da desejada Resex Cazumbá-Iracema, com 750.975 hectares. Isso lhes dá subsídios que elevam para R$ 3,20 a renda obtida por um quilo de borracha, 2,7 vezes o preço do mercado, mas equivalente a apenas um terço do poder de venda de 1980, segundo Nenzinho. O seringueiro hoje cuida de sua Resex como funcionário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão do Ministério do Meio ambiente encarregado das unidades de conservação, como Resex, Parques e Florestas Nacionais.
A população local aumentou para 320 famílias que, para melhorar sua renda, tentam diversificar a produção. Além da castanha e da pequena agricultura, desenvolvem o artesanato, especialmente com o emborrachado, de látex com o qual fazem grandes pinturas e mouse pads em forma de árvores amazônicas. Na Resex Chico Mendes já se usa o látex para fabricar camisinha e a “folha defumada”, espécie de couro vegetal usado para fazer calçados.
Contudo, parece insuficiente. Há dois anos foram descobertas milhares de cabeças de gado e uma grande área desmatada na reserva, violando os objetivos da área protegida. O Incra executou no Acre projetos de “colonização” e criou assentamentos causando um amplo desmatamento ao longo das estradas nas décadas de 1970 e 1980, mas depois mudou sua forma de atuar, incorporando a dimensão ambiental e aproximando-se do espírito das Resex, explicou João Ricardo de Oliveira, chefe de Planejamento do Instituto no Estado.
O objetivo do regime militar da época era ocupar a Amazônia, com a filosofia de “integrar para não entregar” a soberania da região, e também assentou milhares de deslocados por projetos hidrelétricos no sul, sem nenhuma preocupação ambiental, explicou. No Acre chegaram menos deslocados do que no vizinho Estado de Rondônia, que foi um exemplo negativo do amplo desmatamento e disseminação da malária.
Agora, procura-se criar uma Zona Econômica Ecológica no Acre, e os assentamentos evitam áreas de floresta nativa ou são feitos de forma sustentável, assegurou. O novo modelo será testado logo no assentamento dos “basivianos”, camponeses brasileiros expulsos da faixa fronteiriça com a Bolívia. “Temos uma lista de 417 famílias”, disse João Ricardo.

Livro fotográfico registra luta em defesa do Velho Chico

Por Michelle Amaral, da Brasil de Fato
O fotógrafo João Zinclar lançará em Campinas (SP), na próxima sexta-feira (12), o livro “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”. O trabalho é resultado de um ensaio fotográfico realizado entre 2005 e 2010.
 Durante os cinco anos, o fotógrafo percorreu as margens do São Francisco em oito estados e registrou a cultura do povo ribeirinho e sua luta em defesa do rio.
 Em entrevista ao Brasil de Fato, Zinclar contou que a ideia de realizar o ensaio fotográfico surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações contrárias à decisão do governo federal de realizar a transposição das águas do rio. “Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do Velho Chico”, conta.
 O fotógrafo afirma que, apesar do início das obras, o conflito em torno do projeto da transposição continua. “É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros”, explica. Nesse sentido, ele acredita que o livro possa contribuir no debate e luta em defesa do rio. “Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região”, resume.
 O lançamento da obra será acompanhado do debate “Água: Direito ou Mercadoria?”, que contará com a presença do diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, e assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da Articulação Popular São Francisco Vivo, Terra, Água, Rio e Povo, Roberto Malvezzi, o Gogó.
Confira entrevista a seguir.
Como nasceu a idéia de produção do livro fotográfico?
João Zinclar: Esse livro é a conclusão de um ensaio fotográfico que vem sendo realizado desde 2005 até hoje no rio São Francisco e no sertão nordestino. É uma obra coletiva, pois contou com a valiosa contribuição de várias pessoas amigas, que escreveram textos que enriqueceram a publicação. A ideia de fotografar essa pauta surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações do povo ribeirinho e dos movimentos sociais contrários à polêmica e equivocada decisão do governo federal de fazer a transposição das águas do São Francisco. Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do velho Chico. Antes de virar livro, essas fotos já foram expostas em vários lugares, serviram para estimular debates e ilustrar varias reportagens sobre a transposição, principalmente as realizadas pelo Brasil de Fato ao longo desses cinco anos. Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região.
Você poderia falar da experiência vivida no período em que percorreu o Rio São Francisco?
Conhecer melhor aquele povo, suas aspirações, sua cultura e suas lutas foi uma experiência rica em fundamentos. O contato e a interação nas beiradas do rio São Francisco com os povos tradicionais, indígenas, quilombolas, pescadores ribeirinhos, trabalhadores camponeses sem terra, pequenos agricultores, vazanteiros, em sua lutas por terra e água, fizeram ampliar meu entendimento sobre a luta de classes no Brasil. À sua maneira, esse povo contribui na linha de frente no conflito com o capital, resistindo e procurando construir alternativas à nova fase do avanço do agronegocio no campo e do capitalismo no Brasil.
Quais dificuldades você enfrentou no período de produção da obra?
Fui assaltado na estrada em Cabrobó (PE), juntamente com o jornalista e amigo Flaldemir Sant’ana. Sofri ameaças de morte fotografando carvoarias em Buritirama (BA). Tirando esses fatos indesejáveis, na verdade, não encontrei muita dificuldade, pois contei com apoios logísticos importantes de sindicatos de trabalhadores e pessoas amigas de Campinas (SP), cidade onde moro, e principalmente com a receptividade política, o desprendimento e a solidariedade ativa do povo lutador da bacia hidrográfica do Rio São Francisco e do sertão nordestino. Veio desse povo e de suas organizações políticas, sociais e pastorais, todo apoio necessário com transporte, alimentação e hospedagem, contatos e informações valiosas que ajudaram a compreender realidades pelos caminhos do velho Chico. Sem essa solidariedade seria impossível percorrer diversas vezes, os mais de 10 mil quilômetros rodados em 8 estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) desde 2005.
O lançamento do livro será feito juntamente com um debate sobre a questão das águas no Brasil. Nesse contexto, qual a importância do livro?
Penso que os conflitos em torno da defesa, do uso e do controle sobre as águas têm importância estratégica nas lutas dos trabalhadores e dos povos no mundo. Isso não é diferente no Brasil. Esta questão expõe as contradições do sistema, baseado na exploração do trabalho e na transformação de tudo e todos em mercadorias que só têm valor se apropriadas privadamente. As riquezas naturais só são riquezas no capitalismo se pertencerem a alguém. Portanto, a água, a terra, a floresta, os vários biomas e seus recursos só têm valor se transformados em bens e serviços para venda. Assim, a luta necessária para garantir acesso de bens comuns a todos assume caráter de confronto anti-imperialista e anti-capitalista, extrapolando o caráter meramente ambientalista. “A guerra pela água em Cochabamba” na Bolívia, onde o povo boliviano rebelou-se contra a privatização da água naquela cidade por uma empresa estrangeira, e a luta contra a transposição do rio São Francisco no Brasil são provas cabais disso. Apesar da concretização do inicio das obras, entendo que o conflito e a controvérsia em torno do projeto de transposição continuam. É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros. Creio que esse livro se insere nesse contexto.
SERVIÇO:
Lançamento do livro fotográfico “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”, de João Zinclar, e debate “Água: Direito ou Mercadoria?
Participação: Vicente Andreu Guillo, diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), e Roberto Malvezzi (Gogó), assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da Articulação Popular São Francisco Vivo, Terra, Água, Rio e Povo.
Data: 12 de novembro de 2010
Horário: 19 horas
Local: Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas (Rua Doutor Quirino, 560 – Centro – Campinas – SP)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pesquisa para reduzir a pobreza

Da Agência FAPESP

Induzir pesquisas que melhorem a compreensão sobre como funcionam os ecossistemas, os serviços que eles fornecem, seu valor e o papel potencial desses serviços na contribuição da redução da pobreza.

Esse é o objetivo do programa Ecosystems Services for Poverty Alleviation (ESPA) – Serviços dos Ecossistemas para a Redução de Pobreza – conduzido pelo National Environment Research Council (NERC), pelo Economic & Social Research Council (ESRC) e pelo Department for International Development (DfID), do governo britânico.

O programa multidisciplinar dispõe de 40,5 milhões de libras (cerca de R$ 110 milhões) para apoiar pesquisas, de 2009 a 2016, segundo informou o diretor do programa ESPA, Paul van Gardingen, em encontro com cientistas do Estado de São Paulo ocorrido nesta segunda-feira (8/11), na sede da FAPESP.

“O objetivo do ESPA é garantir que, em países em desenvolvimento, ecossistemas sejam administrados sustentavelmente de maneiras que contribuam com a redução da pobreza e com o crescimento inclusivo e sustentável”, disse Gardingen.

Para tanto, o programa apoiará pesquisas que forneçam evidências e ferramentas aos tomadores de decisão e aos usuários finais que possibilitem gerenciar a sustentabilidade dos serviços ecossistêmicos.

O diretor do ESPA está no Brasil para divulgar o programa junto à comunidade acadêmica do país. Cientistas de outros países, entre os quais o Brasil, podem enviar propostas ao programa.

“O programa tem como foco prioritário quatro regiões que experimentam mudanças significativas na administração de seus serviços ecossistêmicos no contexto da redução da pobreza e do crescimento sustentável: Amazônia, China, Sudeste Asiático e África Subsaariana. O ESPA está focado nas pessoas e em suas relações com os serviços ecossistêmicos”, disse Gardingen.

Interessados têm até o dia 8 de dezembro para preencher o formulário de interesse em participar da chamada atual e até o dia 19 de janeiro de 2011 para encaminhar as propostas completas. A chamada atual tem orçamento de 16 milhões de libras (cerca de R$ 43,8 milhões).

Os auxílios poderão ter entre três e cinco anos de duração, com o valor total do projeto de pesquisa entre 500 mil e 4 milhões de libras.

“É importante que os interessados em apresentar propostas entrem no site do ESPA e verifiquem quais são os projetos já apoiados pelo programa”, disse Gardingen.

Mais informações sobre a chamada e o programa: www.nerc.ac.uk/research/programmes/espa


Conselhos de Pesquisa
A FAPESP mantém acordo de cooperação com os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK, na sigla em inglês) para apoiar o desenvolvimento de projetos de pesquisa cooperativos propostos por pesquisadores britânicos e brasileiros associados.

As propostas devem ser submetidas diretamente, por pesquisadores no Reino Unido em associação com pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior e pesquisa no Estado de São Paulo, a uma ou mais entidades pertencentes aos RCUK, que informarão a FAPESP da submissão de proposta de pesquisa.

Mais informações sobre o acordo e as chamadas em aberto, entre as quais do National Environment Research Council, estão na página: www.fapesp.br/acordos/rcuk.

Desafios da filogeografia

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP 

"As publicações na área de filogeografia vêm crescendo de forma exponencial, graças à gradual integração entre biólogos e geocientistas, às novas tecnologias de DNA e aos novos métodos estatísticos disponíveis”, disse Luciano Beheregaray, professor das universidades Flinders e Macquarie, da Austrália.

A filogeografia combina biologia e geociência, estudando os processos históricos que podem ser responsáveis pela distribuição geográfica contemporânea de uma espécie.

Segundo Beheregaray, enquanto a maioria esmagadora da produção científica na área vem do hemisfério Norte, a contribuição dos países que concentram a maior parte da biodiversidade do planeta ainda é muito pequena. “Essa distorção dificulta a síntese comparativa da informação produzida globalmente, que é um dos desafios centrais da filogeografia”, disse nesta segunda-feira (8/11), durante o Simpósio Internacional sobre Filogeografia, organizado pelo Programa Biota-FAPESP.

Para reverter esse cenário, segundo o cientista brasileiro radicado na Austrália, é preciso que os países desenvolvidos invistam na pesquisa filogeográfica em países megadiversos, como o próprio Brasil.

“A filogeografia vem crescendo muito, mas os estudos ainda estão muito concentrados nos ambientes terrestres e nos países desenvolvidos. Seria importante investir em trabalhos em áreas de grande biodiversidade, onde há grandes lacunas de informação. Isso permitiria avanços científicos globais”, disse Beheregaray à Agência FAPESP.

Segundo ele, no contexto brasileiro o Estado de São Paulo tem se destacado nos estudos na área. “Mas há uma escassez de trabalhos no resto do país. Seria preciso fazer em todo o Brasil o que a FAPESP faz em São Paulo. Acredito que, para que isso seja feito em um nível satisfatório, será preciso ter recursos do exterior”, disse.

No contexto mundial, segundo Beheregaray, para que a pesquisa avance ainda mais, é preciso que os filogeógrafos deixem de lidar apenas com dados filogenéticos isolados. Ele explica que, como as mutações se acumulam ao longo do tempo, a filogenética é o motor da filogeografia. Mas isso não basta, é fundamental que essas informações sejam combinadas com dados sobre genótipos, por exemplo.

“O filogeógrafo é acima de tudo um naturalista. Um explorador em contato com o trabalho de campo, que precisa ser também um biólogo populacional e um geneticista. É um integrador que lida com uma ampla gama de questões da história natural – da escala dos genes até a escala geológica. Essa característica interdisciplinar torna fundamental a integração de comunidades científicas de vários países e áreas do conhecimento”, afirmou.

Trabalhando fora do Brasil há 14 anos, Beheregaray manteve diversas cooperações no país. O laboratório que coordena, dedicado a investigar a conectividade genética e ecológica de organismos aquáticos, tem atualmente um pós-doutorando e dois doutorandos brasileiros.

Seu grupo realizou um levantamento dos artigos científicos publicados até 2006 em revistas indexadas em busca da palavra-chave “filogeografia”. A análise permitiu perceber um grande crescimento na área nos últimos anos. Cerca de 4 mil artigos foram publicados em duas décadas, com um aumento pronunciado a partir de 2002. As citações também cresceram exponencialmente.

“Em termos de grupos taxonômicos, há uma tendência muito grande para mamíferos – cerca de 20% do total. Peixes e plantas vêm em seguida, com cerca de 15% cada. E os invertebrados – o grupo mais diverso – correspondem a apenas 13%”, disse.

A maioria esmagadora dos artigos, cerca de 81%, utilizava marcadores genéticos como o DNA mitocondrial, sendo que 75% dos estudos utilizaram exclusivamente esses marcadores. Em seguida, aparecem os estudos que utilizam técnicas como SNPs e microssatélites.

Em relação à natureza dos estudos, 68% dos artigos tratavam de um único táxon. Apenas 8% deles faziam uma comparação histórica demográfica e filogeográfica entre dois ou mais táxons.

“O mais alarmante é que em 24% dos estudos havia dados sobre múltiplos táxons, mas não havia comparação histórica. Cada estudo desses é uma chance perdida para usar esses dados de forma mais eficiente. A maioria desses estudos é proveniente dos países em desenvolvimento”, afirmou.

Do total de artigos, 69% tratavam do período Quaternário, 11% do Terciário e 18% de períodos cronológicos indeterminados. “Isso mostra que às vezes falta recorrer às geociências. Temos que ser mais criativos e interagir mais com a geologia, a geofísica, a hidrologia, a glaciologia e com as ciências atmosféricas”, disse.

Lacunas de informação
Para Beheregaray, ainda há uma dificuldade de integração disciplinar a ser superada. ”Muitos geocientistas ignoram tudo o que não é registro físico. Os filogeógrafos são mais integrados, usando outros conjuntos de dados além da genética. Mas muitas vezes são simplistas – e até incorretos – na hora de explorar e interpretar os dados da história da Terra”, disse.

Cerca de 65% dos trabalhos identificados no levantamento feito pelo grupo australiano tratavam de ambientes terrestres, 18% de água doce e 17% de ambientes marinhos. “Na área marinha, que é a de nosso interesse, há imensas lacunas em termos de informação sobre distribuição histórica da diversidade no oceano. Os bioinventários são praticamente inexistentes”, disse.

Das publicações em filogeografia, 77% tratavam de áreas do hemisfério Norte, apesar de a maior parte da biodiversidade global estar no hemisfério Sul. Cenários globais foram enfocados por apenas 6% dos trabalhos.

“A Europa e a América do Norte tiveram participação de 30% cada. Aproximadamente 15% dos estudos foram feitos na Ásia, 7% na Austrália, 7% na África e apenas 6% na América do Sul, que talvez seja o continente mais megadiverso”, disse o cientista.

Entre os países mais megadiversos – Brasil, Indonésia, Colômbia, Austrália, México e Madagascar –, apenas a Austrália apareceu como um dos principais produtores de pesquisa em filogeografia, na quinta colocação mundial. O Brasil ficou em 15º e a Indonésia em 40º.


Em simpósio internacional do Biota-FAPESP, cientista aponta os principais desafios na área de filogeografia, que combina biologia e geociência. Levantamento indica poucos trabalhos justamente sobre as regiões de maior biodiversidade



“Muitos dos hotspots de biodiversidade estão nos trópicos e é preciso que a comunidade científica internacional volte os olhos para essas áreas”, disse Beheregaray.

“Os gestores precisam tomar decisões difíceis sobre o que deve ser protegido e é missão dos cientistas dar aos gestores critérios objetivos para isso. A filogeografia oferece um método muito exato, em alguns casos, para fazer a distinção evolutiva de populações”, afirmou.

Mais informações sobre o workshop internacional, que termina nesta terça-feira (9/11), na Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade da Universidade de São Paulo: www.fapesp.br/biota/evento/filogeografia.

Projeto descriminaliza guarda doméstica de animais silvestres

Por Rachel Librelon, da Agência Câmara

Está em análise na Câmara o Projeto de Lei 7427/10, do deputado Carlos Santana (PT-RJ), que descriminaliza a manutenção, como animais domésticos, de animais silvestres que não estejam ameaçados de extinção. A proposta altera a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), que pune com detenção de um a seis meses e multa a guarda doméstica de animais silvestres.

A legislação já prevê a possibilidade de o juiz, dependendo das circunstâncias, deixar de aplicar a pena caso a espécie não esteja ameaçada de extinção. O objetivo da proposta é "descriminalizar a posse e a guarda de animal doméstico quando ficar caracterizado que não se trata de tráfico de animal silvestre".

Para o autor do projeto, o tráfico de animais silvestres deve continuar sendo severamente reprimido. "Entretanto, às pessoas que de boa fé já possuem, há algum tempo, um animal silvestre deve ser assegurada a oportunidade de regularizar a situação e o direito de manter seus animais", argumenta.

De acordo com Carlos Santana, a estimativa é de que os lares brasileiros abriguem atualmente cerca de 15 milhões de animais silvestres. O parlamentar ressaltou que não é possível reintroduzir esses animais na natureza, devido ao seu grau de domesticação.

Tramitação
A proposta tramita apensada ao PL 347/03 e aguarda votação pelo Plenário.

Íntegra da proposta:

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Extrativismo de licuri é opção de renda no Semiárido do país


Fruto possui qualidade nutricional semelhante à do açaí


Bebidas, sabonetes, detergentes e picolés: é como ingrediente destes produtos que o licuri começa a ganhar destaque no Brasil, uma palmeira típica do sertão nordestino, com qualidade nutricional semelhante à do açaí, mas que ainda não caiu no gosto de atletas ou dos que preferem levar à mesa alimentos orgânicos. Produtores do vegetal, concentrados principalmente na Bahia, atribuem a situação à falta de publicidade do fruto.

De acordo com o engenheiro agrônomo José Barbosa dos Anjos, pesquisador da Embrapa Semiárido, no fruto são encontrados zinco, potássio e fósforo em quantidade superior ao do açaí.

Costuma-se quebrar os coquinhos da planta para a retirada de amêndoas. Cerca de 90% da colheita é comprada por indústrias processadoras de óleo para a produção de saponáceos e cosméticos. Os negócios em torno da palmeira ainda se estendem à venda da casca, destinada à produção de tijolos e telhas. Em 2009, o preço da palmeira chegou a R$ 28 a tonelada.

Segundo Barbosa, o rendimento da extração manual de coco licuri é muito baixo para os agricultores. Em tese, eles recebem R$ 1 por quilo de amêndoas comercializadas. Ainda que revele uma atividade de subsistência, o comércio em torno dessa palmeira produz reflexos positivos nos indicadores socioeconômicos baianos, gerando renda e empregos.

Por este motivo, nos últimos dois anos, o pesquisador coordenou o projeto “Estratégias de aproveitamento dos coprodutos do licuri na alimentação humana e animal”, que avaliou o fruto como ingrediente na preparação de alimentos, além de apresentar técnicas de pré-processamento para consumo in natura da polpa ou suco pasteurizado. Se processada, a amêndoa adquire cor branca, podendo ainda concorrer com produtos à base de coco.

“Ao agregar valor ao fruto da espécie nativa, além de ampliar sua valorização, fortalece e confere sustentabilidade a um negócio extrativista que se expande por extensa área do semiárido brasileiro”, conclui Barbosa.

Fonte: Globo Rural

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pesquisa investiga efeitos da poluição do ar no Túnel Rebouças e na Av. Brasil

Por Débora Motta, da Agência Faperj

A poluição do ar provocada por automóveis é um grande desafio ambiental para os habitantes das metrópoles. No Rio, o intenso fluxo de veículos é o principal responsável pela emissão de gases tóxicos na atmosfera da cidade. De acordo com o Relatório Anual de Qualidade do Ar do Estado do Rio de Janeiro, do Instituto Nacional do Meio Ambiente (Inea), de 2009, as fontes móveis – como carros, caminhões e ônibus – emitem 77% do total de poluentes lançados na atmosfera na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, enquanto as fontes fixas – entre elas, as fábricas – representam apenas 23%. Para fazer um diagnóstico da qualidade do ar em pontos-chave do tráfego carioca, uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) com apoio da FAPERJ, por meio do edital Estudo de Soluções para o Meio Ambiente, está monitorando dois importantes locais de passagem de veículos no Rio: o Túnel Rebouças e a Avenida Brasil.



Funcionários observam Amostrador de Grande Volume instalado no Túnel Rebouças (à esquerda) e na Avenida Brasil (à direita)


Além de avaliar as condições atmosféricas nesses pontos movimentados da cidade, o estudo tem como objetivo verificar os possíveis impactos da poluição do ar na saúde das pessoas que circulam por ali diariamente. Para isso, pesquisadores do Laboratório de Mutagênese Ambiental (Labmut), do Departamento de Biofísica e Biometria do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, da Uerj, investigam a concentração de agentes mutagênicos – aqueles capazes de modificar as sequências de DNA, causando mutações que podem levar ao desenvolvimento do câncer – presentes no ar do Túnel Rebouças e da Avenida Brasil. “Em ambientes onde as concentrações dos poluentes são elevadas, e dependendo de sua toxicidade, podem ocorrer efeitos genotóxicos com chances de comprometer a saúde dos ecossistemas”, explica o professor e biólogo Israel Felzenszwalb.

Monitoramento da qualidade do ar
O estudo, submetido à FAPERJ em dezembro de 2008 e ainda em curso, já apresenta alguns resultados parciais. Os pesquisadores estão monitorando as condições do ar na Avenida Brasil, desde abril de 2010, e no Túnel Rebouças, desde junho deste ano. A qualidade do ar nessas vias é avaliada com o Amostrador de Grande Volume, um equipamento que determina a concentração de partículas totais em suspensão na atmosfera. Esse material particulado fica aderido a um filtro inserido no coletor do equipamento, periodicamente analisado. “Tanto na Avenida Brasil quanto no Túnel Rebouças verificamos a presença predominante de nitrocompostos, entre eles de substâncias conhecidas como hidrocarbonetos policíclico-aromáticos. Esses poluentes são capazes de provocar mutações mesmo sem sofrer qualquer tipo de metabolização”, destaca.

O equipamento responsável pela coleta do ar dentro do Rebouças está localizado no vão entre as duas galerias do túnel, próximo à Lagoa. Ele funciona por seis horas durante quatro dias na semana, totalizando 24 horas de coleta semanal. “Toda semana, durante uma madrugada, quando o túnel fecha para manutenção, recolhemos o filtro para análise e recolocamos um novo”, explica. Na Avenida Brasil, outro equipamento idêntico foi instalado no pátio do Ciep Leonel de Moura Brizola, na altura de Ramos, junto à passarela número 13. Ele coleta o material particulado do ar 24 horas por dia.

"Como se trata de um ambiente fechado, em seis horas, o filtro do coletor já fica saturado no Rebouças, enquanto na Avenida Brasil é preciso 24 horas para saturá-lo”, explica Felzenszwalb. Por isso, o volume de material particulado coletado no filtro do equipamento instalado no túnel se torna menor quando comparado ao da Avenida Brasil. “O volume coletado no Rebouças é quatro vezes menor em comparação ao volume coletado na Brasil”, diz o professor, lembrando que os equipamentos também avaliam medidas de variação de temperatura, umidade e pressão.

Testes laboratoriais
Depois que o material particulado do ar é coletado pelos equipamentos instalados em ambos os locais, os pesquisadores do Labmut/Uerj realizam dois procedimentos laboratoriais para tentar identificar o potencial mutagênico dos poluentes encontrados em suspensão no ar. Um deles é o Teste de Ames, um ensaio biológico reconhecido internacionalmente, que fornece informações sobre a capacidade de agentes físicos e químicos induzirem ao desenvolvimento de mutações no material genético das células.

“O filtro recolhido do Amostrador de Grande Volume é ‘lavado’ e o material obtido é submetido ao ensaio bacteriano de Ames. Quando o valor do índice de mutagenicidade é superior a dois, dizemos que o material em análise tem potencial mutagênico”, detalha o professor, que observou nos dois locais um índice de mutagenicidade considerável. “As amostras coletadas na Avenida Brasil apresentaram um índice de mutagenicidade 3 e 4. Nas amostras do Tínel Rebouças, o índice de mutagenicidade variou entre 9 e 23, e o efeito mutagênico foi visualizado logo na primeira concentração.”

O outro procedimento técnico a ser adotado no estudo é o teste de micronúcleo, utilizando a planta Tradescantia pallida var. purpúrea. Conhecida popularmente como coração-roxo, essa espécie ornamental, comum no Rio, funciona como um termômetro natural da presença de substâncias mutagênicas no ar, sendo por isso considerada um ótimo bioindicador. Sensível, ela apresenta mutações quando em contato com poluentes, servindo como um sensor na avaliação da qualidade do ar. “O teste de micronúcleo com a Tradescantia é considerado um excelente bioindicador pela simplicidade da metodologia e pela sensibilidade da planta aos agentes genotóxicos”, diz Felzenszwalb.

Em contato com os poluentes, as células da Tradescantia costumam apresentar alta frequência de micronúcleos, o que indica a ocorrência de mutação genética. Essa etapa de testes, no entanto, ainda será realizada. Por enquanto, os pesquisadores colocaram mudas da Tradescantia em pontos estratégicos do Túnel Rebouças e da Avenida Brasil. “As plantas colocadas no Rebouças não sobreviveram. Mesmo sendo uma planta resistente, parece que a poluição no local está bem acima de sua capacidade de sobrevivência”, pondera.

Para dar continuidade a essa etapa, a equipe do Labmut planeja outra estratégia. “Estamos avaliando a possibilidade de usar o material obtido do filtro coletor para uma avaliação direta em mudas saudáveis, em laboratório, e assim podermos continuar o estudo”, explica. “Usaremos a solução produzida pela lavagem dos filtros colocados no Rebouças para pulverizar as plantas, e faremos uma posterior avaliação de micronúcleos”, completa. Na Avenida Brasil, o experimento com as plantas foi iniciado há menos de um mês, no mesmo local da instalação do Amostrador de Grande Volume, e os pesquisadores ainda não processaram os resultados.

O projeto também tem o objetivo de promover a educação ambiental. Estudantes do Ciep Leonel de Moura Brizola, na Avenida Brasil, tiveram três encontros com os pesquisadores para discutir a problemática da poluição do ar atmosférico. “Tentamos conscientizar os jovens sobre a necessidade de preservação do meio ambiente”, conta. “Esperamos que a atividade de educação ambiental venha a contribuir para a conscientização cidadã da comunidade e que ela tenha um efeito multiplicador”, conclui.

Além do professor Israel Felzenszwalb, participam do projeto os pesquisadores Claudia Aiub e José Luis da Costa Mazzei, ambos do Labmut/Uerj; o professor Sérgio Machado, da Faculdade de Tecnologia da Uerj; a mestranda Claudia Rainho, do programa de Pós-Graduação em Biociências do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, da Uerj; e o aluno de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Antonio de Salles Guerra.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Tradição em risco: aquecimento global ameaça produção de vinhos na França

Por Luiza Duarte , do UOL
 
A produção de vinho mundial está sendo ameaçada pelo aumento da temperatura do planeta, apontam estudos feitos recentemente. E a França, segundo maior produtor mundial de vinhos, perdendo somente para a Itália, busca soluções para preservar as safras de uvas e garantir o abastecimento de seus famosos vinhos.

De acordo com especialistas entrevistados pelo Opera Mundi, os impactos diretos do aquecimento global são ciclos da vinha mais curtos, transformações no processo de amadurecimento, proliferação de novas doenças e colheitas cada vez mais precoces.

“Nas últimas três décadas, houve um aumento progressivo da temperatura, o que tem antecipado a data de colheita em 8 a 15 dias”, apontou Joël Rochard, especialista da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) e diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do Instituto Francês da Vinha e do Vinho (IVF).

Tradicionais vinhos franceses como o Bordeaux, Côtes du Rhônes, Bourgogne, Médoc e o Champagne têm sua autenticidade validada pelo selo "Denominação de Origem Controlada", como acontece com outros produtos agrícolas. Para levar o nome pelo qual é conhecido, o vinho tem que conjugar técnicas de fabricação e tipos de uvas específicos a uma localização geográfica pré-determinada. Com a alteração do clima, zonas vinícolas tradicionais seriam forçadas a se adaptar para guardar as mesmas características do produto final.

Em busca de melhores condições, "poderia haver um deslocamento da produção para o norte, ou a implantação de outras variedades", explicou o enólogo François Fevre. Em ambos os casos, isso significaria abandonar o atual sistema de selos de qualidade e mesmo o paladar das bebidas que conhecemos.

Os franceses são os maiores consumidores de vinho no mundo. Cerca de 600 bilhões de litros saem das vinícolas do país a cada ano. O setor, além ser parte do patrimônio cultural e grande atrativo turístico, gera bilhões de euros todos os anos e quase 200 mil empregos. O impacto econômico da transformação ou morte das zonas vinícolas ainda não pode ser estimado. Os gastos com irrigação serão provavelmente os mais elevados, apontam os especialistas.

As vinhas têm uma vida produtiva de 30 a 40 anos e o momento do plantio representa uma decisão que pode custar caro. Investir numa variedade que não adapte as mudanças do clima é um risco alto para os pequenos produtores.

Os especialistas divergem quanto às consequências de uma elevação maior que 5°C da temperatura e seu inevitável preço para a economia. Rochard lembra que diante desse cenário extremo, inundações, fluxos migratórios e o estresse hídrico afetariam muito mais segmentos do que a viticultura e provavelmente levariam ao caos todos os sistemas produtivos.

Bourgogne
De acordo com Fevre, o caso mais preocupante é o da região da Bourgogne, onde se cultiva apenas uma variedade de uva para o tinto, Pinot noir, e uma para o branco, Chardonnay. “Isso impede a manipulação das proporções dos componentes para aperfeiçoar a bebida, como acontece em outros pólos que produzem mais variedades”, explicou. “Com o calor o pinot noir amadurece mais rápido e produz vinhos de maior teor alcoólico”.

O enólogo garantiu que “não há preocupação há médio prazo em relação aos grandes vinhos franceses”, lembrando que atualmente eles não estão em limite de zona produtiva. “O aquecimento vem até provocando efeitos positivos”, revelou. Segundo ele, as mudanças climáticas não são sentidas da mesma maneira em todas as regiões, portanto, “primaveras menos rigorosas evitam perdas de rendimento com geadas”. Essa fase favorável corre o risco de ser passageira, se as temperaturas continuarem a subir.
 
Soluções
As medias práticas para conter o impacto do clima nas vinícolas francesas, de acordo com os especialistas, são tornar as garrafas mais leves e privilegiar trens para o transporte, tudo para preservar o sabor. “Também, utilizar menos energia e até mesmo produzir o vinho com o bagaço da uva”, enumera Rochard, que apresentou no Brasil as adegas ecológicas e modelos sustentáveis de produção que desenvolve junto a OVI.

Atualmente na Europa, uma vinha é composta de duas variedades, uma para a raiz e outra que vai definir o tipo da uva. Esse enxerto permite uma maior flexibilidade em relação às mudanças climáticas, uma vez que é possível buscar plantas de base mais resistentes sem alterar o fruto.

Os avanços científicos permitem um conhecimento preciso das técnicas de viticultura. É possível interferir nas características do solo, das vinhas, controlar a exposição solar, alterar as dosagens e desenvolver leveduras especificas. "Nós sabemos o que é preciso para ter uma colheita de qualidade para um tipo de vinho determinado. Temos ferramentas para isso”, garantiu Fevre.

Flexibilizar as normas e alterar o limite das áreas oficiais de produção é outra saída para preservar por mais tempo produtos emblemáticos para a França. Houve uma extensão do território de cultivo de Champagne em direção ao norte e ao oeste e esta expansão pode continuar. Se os estudos “mostrarem que alguns terrenos que antes não faziam parte da delimitação apresentam as condições necessárias, isso pode acontecer”, afirma sem esconder que é preciso muita precaução e investigação para tal medida.

Estudo
Um relatório da ONG ambiental Greenpeace, publicado em 2009, prevê um deslocamento de mil quilômetros das tradicionais zonas de produção de vinho para regiões mais frias até o final do século.

“Na França, a região mais atingida será a mais seca, o sudeste, que inclui as zonas produtivas do Minervois, Côtes du Languedoc, Côtes de Provence, Côtes du Rhône e do Vin Corse”, diz o relatório.

Enquanto o clima do Mediterrâneo pode se transformar em semi-árido, afetando a viticultura na Grécia, sul da Itália, Espanha, Portugal e norte da África, os vinhedos podem virar paisagem comum nos países do norte. “A Inglaterra produz, por enquanto, apenas vinhos brancos, mas alguns renomados produtores de champagne já começaram a investir em terrenos que poderão ser interessantes no futuro”, afirmou Fevre.

Novos atores entram em cena, Rochard aponta o exemplo da Alemanha. “Ela tem uma forte demanda por vinho tinto e tinha sua produção limitada pelas condições climáticas. Agora com o aquecimento tem potencial para produzir bons vinhos tintos”.

Já zonas como a Austrália, que hoje cultivam graças à irrigação podem ser abandonadas com a elevação do custo do fornecimento. “A água vai se transformar em um fator limitante da produção”, avaliou o enólogo.

Consumo
O consumidor já pode sentir o gosto da diferença provocada pelo aquecimento. Fevre define esses vinhos de maturação acelerada como menos ácidos e com maior teor alcoólico, o Millésime 2003, 2005 e 2009 são exemplos. Os vinhos se tornam, mas ricos e “perdem a elegância, embora em relação ao paladar das gerações acostumadas com refrigerantes, isso se torne favorável”.

As “receitas” de família evoluem ao gosto do freguês contemporâneo. “Um vinho como Château Margaux 2009 não é feito como há 20, 50 ou 100 anos atrás, mas ele continua sendo um dos melhores vinhos do mundo”, concluiu Fevre.

USP integra projeto para capacitar catadores de recicláveis

Por Valéria Dias, da Agência USP

A Universidade de São Paulo capacitará catadores de materiais recicláveis para recolher resíduos de informática, possibilitando aumento da renda para essas pessoas, além de ajudar a preservar o meio ambiente. A iniciativa resulta de uma parceria entre o Laboratório de Sustentabilidade em Tecnologia de Informação e Comunicação (LASSU), da Escola Politécnica, o Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir), do Centro de Computação Eletrônica (CCE), e o Instituto GEA-Ética e Meio Ambiente, organização não-governamental que trabalha com reciclagem, coleta seletiva e formação de cooperativas de catadores.

A parceria resultou no Projeto Segurança, Renda e Coleta de Lixo Eletrônico que foi um dos 113 contemplados pelo Programa Petrobras Desenvolvimento e Cidadania 2010, entre as 5.183 propostas inscritas. A divulgação do resultado aconteceu no último dia 25 de outubro.

O projeto visa aumentar a renda dos catadores de materiais recicláveis da Capital e de municípios da região metropolitana (Diadema, Guarulhos, Mauá, Ribeirão Pires, São Bernardo do Campo, São Paulo), além de evitar que peças de informática sejam descartadas em locais inadequados, prejudicando a natureza. Para isso, os catadores receberão treinamento para selecionar peças de informática que tenham valor agregado.

“A ideia é ensinar aos catadores os cuidados que devem ser tomados ao recolher resíduos de informática como microcomputadores, impressoras, monitores e celulares”, conta a professora Tereza Cristina Carvalho, Assessora de Projetos Especiais da Coordenadoria de Tecnologia da Informação (CTI) da USP.

Ela explica que muitas vezes os catadores descartam da reciclagem componentes de microcomputadores, como placas, por exemplo, porque não sabem como tratar o material para que ele tenha valor comercial. “Essa placa pode então acabar em um lixão, e isso é bastante problemático, pois muitos desses materiais são poluentes”, destaca Tereza Cristina. A presidente do Instituto GEA, Ana Maria Domingues Luz, completa: “Atualmente, quando os catadores recebem um microcomputador, a peça é considerada como sucata, pois eles não têm o conhecimento necessário para separar as peças com valor agregado.”

Ana Maria informa que o projeto vai capacitar aqueles catadores de materiais recicláveis que trabalham em locais apropriados, e fazem parte de alguma cooperativa ou de algum grupo organizado. A previsão é que os treinamentos tenham duração de 30 dias para cada turma, sendo a parte teórica realizada no LASSU, em cerca de cinco dias, e o restante no Cedir, aproveitando a estrutura do lugar. A ideia é treinar 10 catadores por vez e também abrir a possibilidade de vagas como ouvintes para representantes de ONGs ou associações, no treinamento teórico.

Haverá 18 turmas com o objetivo de atender o maior número possível de cooperativas da capital e outros municípios vizinhos. O projeto prevê a concessão de auxilio refeição e transporte para o deslocamento dos catadores até a Cidade Universitária. 

Troca de experiências

“Este projeto vai possibilitar uma troca de experiências muito interessante para ambos os lados. Em um extremo, teremos os catadores de recicláveis, pessoas de um estrato social mais baixo, com pouca escolaridade, sendo que muitos deles são analfabetos. No outro extremo, teremos a USP, uma referência em conhecimento científico”, comenta Ana Maria.
 
O projeto terá duração de 2 anos e espera-se treinar, durante este período, 180 pessoas. “Após o treinamento, esses profissionais irão levar o conhecimento adquirido para núcleos distribuídos pelos municípios da região metropolitana, ampliando o alcance da iniciativa. A perspectiva é criar 18 núcleos até o final do projeto e, com isso, estender os benefícios para cerca de 2 mil catadores”, destaca a presidente da ONG.

Segundo Ana Maria, esses núcleos serão equipados com bancadas apropriadas e ferramentas adequadas para a desmontagem correta das máquinas. “É um trabalho muito mais complexo do que reciclar latinhas”, aponta. Após a separação das peças com valor agregado, elas serão vendidas e o dinheiro será dividido entre os integrantes da cooperativa. Também está previsto o acompanhamento do trabalho dos catadores por meio de visitas técnicas a esses núcleos.

O próximo passo do projeto é definir, juntamente com os professores do LASSU/Cedir, qual será o programa de aula e a metodologia de ensino. A professora Tereza Cristina lembra que a maioria dos catadores tem baixa escolaridade. “Essa condição vai exigir o uso de recursos alternativos, como imagens, para explicar conceitos básicos de eletrônica”. Ana Maria conta que vai se reunir com as entidades representativas de catadores e com cooperativas para definir a lista de participantes dos cursos.

Segundo Tereza Cristina e Ana Maria, o contrato deverá ser assinado com a Petrobras no próximo mês de dezembro. A ideia é que as aulas comecem em abril de 2011. Os recursos destinados ao projeto são de cerca de R$ 800 mil, para um período de dois anos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Edital conjunto FAPERJ-FAPESP tem R$ 5 milhões para estudos de mudanças climáticas globais

A FAPERJ e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) se unem com o objetivo comum de anunciar, simultaneamente, o lançamento de chamada inédita para receber projetos na área de Mudanças Climáticas Globais. Esta é a primeira iniciativa conjunta das duas agências de fomento. Com um investimento total de R$ 5 milhões, R$ 2,5 milhões de cada agência, a chamada Mudanças Climáticas Globais, elaborada a partir de convênio de cooperação científica entre a FAPESP e a FAPERJ, selecionará 30 projetos a serem desenvolvidos cooperativamente por grupos de pesquisadores vinculados a instituições de ensino e pesquisa sediadas nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Os recursos financeiros serão destinados exclusivamente aos projetos de pesquisa colaborativa que forem selecionadas por ambas as agências e serão desembolsados de acordo com o cronograma de desembolso aprovado em cada proposta selecionada. Serão selecionados até 30 (trinta) projetos de pesquisa e, no total das concessões, 50% (cinquenta por cento) dos recursos serão aportados pela FAPESP e 50% (cinquenta por cento) pela FAPERJ.

As propostas selecionadas serão cofinanciadas pela FAPESP e pela FAPERJ. Para as propostas apresentadas por pesquisadores vinculados a instituições sediadas no Estado de São Paulo, aplicam-se as normas da FAPESP; e para as propostas apresentadas por pesquisadores vinculados a instituições sediadas no Estado do Rio de Janeiro, as normas da FAPERJ.

Dentre os principais objetivos da parceria, estão a criação de conhecimento científico e a formação de competências e de alianças estratégicas na área, contribuindo para o desenvolvimento científico e tecnológico dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Também se almeja que os projetos de pesquisa incentivem a difusão do conhecimento e a implementação de projetos inovadores de pesquisa científica ou tecnológica, envolvendo estudantes de nível superior, e que seus resultados gerem publicações de artigos científicos e propriedade intelectual.

Os temas de interesse incluem: consequências das mudanças climáticas globais no funcionamento dos ecossistemas, com ênfase em biodiversidade e nos ciclos de água, carbono e nitrogênio; balanço de radiação na atmosfera, aerossóis, gases-traço e mudanças dos usos da terra; mudanças climáticas globais e agricultura e pecuária; energia e gases de efeito estufa – emissões e mitigação; mudanças climáticas e efeitos na saúde humana; e dimensões humanas das mudanças climáticas globais: impactos, vulnerabilidades e respostas econômicas e sociais, incluindo adaptação às mudanças climáticas. Pesquisas com foco em mudanças climáticas globais, mas desenvolvidas em outras áreas relacionadas ao tema somente poderão ser submetidas se a sua conexão com o programa e seus objetivos forem devidamente justificadas.

São considerados pesquisadores elegíveis, no âmbito dessa Chamada: (a) para submissão de propostas à FAPESP: pesquisadores com grau de doutor ou equivalente, vinculados a Instituições de Ensino Superior ou Pesquisa, públicas ou privadas, sediadas no Estado de São Paulo e que preencham os demais requisitos para apresentação de Auxílios Regulares à Pesquisa; e (b) para submissão de propostas à FAPERJ: pesquisadores com grau de doutor ou equivalente, vinculados a Instituições de Ensino Superior ou Pesquisa, públicas ou privadas, sediadas no Estado do Rio de Janeiro.

Cada proposta terá dois pesquisadores responsáveis: um pelo lado do Estado de São Paulo, que deverá ser vinculado a uma instituição de ensino superior e de pesquisa no Estado de São Paulo; e um pelo lado do Estado do Rio de Janeiro, que deverá ser vinculado a uma instituição de ensino superior e de pesquisa no Estado do Rio de Janeiro.

Por parte da FAPERJ, são financiáveis itens dos grupos de custeio e de capital, indispensáveis à realização do projeto, de acordo com o classificador de receita e despesa do Estado do Rio de Janeiro (disponível no site www.planejamento.rj.gov.br), compreendendo: aquisição de materiais permanentes e equipamentos; serviços de terceiros (pessoas físicas e jurídicas) com caráter eventual, para manutenção de equipamentos e de material permanente, e para a realização de pequenos reparos e adaptações de bens imóveis; diárias e passagens para missões de pesquisadores e estudantes, seminários, oficinas e visitas institucionais a outras instituições, especificamente nos dois Estados parceiros deste programa e no âmbito das propostas apresentadas (não serão permitidas diárias e passagens para participação em reuniões científicas fora do âmbito das propostas); material de consumo, componentes e/ou peças de reposição de equipamentos; despesas acessórias para importação (até o máximo de 18% do valor do bem importado).

Todos os itens solicitados deverão ser plenamente justificados na proposta apresentada. As atividades de cada uma das partes, estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, serão financiadas pela respectiva agência: em São Paulo, como Auxílio Regular à Pesquisa, à FAPESP; e no Rio de Janeiro, como propostas submetidas a este programa (FAPERJ-FAPESP "Mudanças Climáticas Globais – 2010". A duração das pesquisas deve ser de até 24 meses.

Quanto às despesas para mobilidade: a FAPERJ apoiará, nas solicitações selecionadas, passagens aéreas e diárias de pesquisadores e estudantes do Estado do Rio de Janeiro em missões ao Estado de São Paulo; a FAPESP apoiará, nas solicitações selecionadas, recursos para passagens aéreas e diárias de pesquisadores e estudantes do Estado de São Paulo em missões ao Estado do Rio de Janeiro. As despesas de intercâmbio estão limitadas à duração máxima de 60 dias a cada ano de pesquisa, divididos segundo a conveniência dos pesquisadores envolvidos, desde que previstas e devidamente justificadas no projeto apresentado.

As propostas poderão ser submetidas, às duas agências, até o dia 27 de janeiro de 2011. Para os pesquisadores vinculados a instituições sediadas no Estado do Rio de Janeiro, além da submissão on-line, uma cópia impressa dos documentos deverá ser apresentada no Setor de Protocolo da FAPERJ, até o dia 04 de fevereiro de 2011. Os resultados estão previstos para serem divulgados a partir de 28 de abril de 2011, nos web sites das duas fundações.

O diretor científico da FAPERJ, Jerson Lima, comemora a iniciativa: "há muito vimos trabalhando na perspectiva do lançamento de um edital conjunto das duas agências, o que se tornou possível após a assinatura desse Acordo de Cooperação Científica. A área escolhida diz, por si, da importância deste edital. Ambos os Estados têm pesquisadores de excelência na área e que, certamente, em um trabalho conjunto, contribuirão para o desenvolvimento científico e tecnológico, e também para a formação de recursos humanos qualificados".

Para o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, "o acordo FAPERJ-FAPESP cria mais uma oportunidade para que pesquisadores nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro desenvolvam projetos de pesquisa conjuntamente. Desta forma esperamos criar sinergias e aumentar a capacidade nacional para a criação de conhecimento científico sobre Mudanças Climáticas Globais, levando a um aumento do impacto da ciência brasileira neste tema tão importante".

Confira a íntegra do edital FAPERJ-FAPESP de Apoio às Mudanças Climáticas Globais - 2010

Unesp oferece curso de difusão científica

Da Agência FAPESP 

O Instituto de Biociências (IB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, oferece o curso “Unesp Difundindo e Popularizando a Ciência”, voltado a professores do ensino básico e alunos do ensino médio.

O curso – ministrado durante as férias escolares de janeiro – oferece aulas gratuitas com o objetivo de promover a popularização da ciência por meio da difusão de avanços recentes em biologia, ciências e tecnologias.

O projeto, realizado desde 2007, pretende promover a atualização em conteúdos específicos da grade curricular e em recentes avanços de ciências, por meio de atividades que desenvolvam a curiosidade e a criatividade.

As aulas ocorrerão de 24 a 29 de janeiro de 2011, das 8h30 às 17h30. A Unesp oferecerá auxílio para alimentação e transporte aos participantes.

Serão oferecidas oficinas para os alunos, com os temas “Experimentando genética”, “Investigando a vida das plantas” e “Reprodução de A a Z”. Para os professores do ensino básico (ensinos infantil, fundamental e médio) o tema será “Experimentando a genética”.

Haverá uma seleção que privilegiará alunos de escolas públicas e levará em conta o interesse demonstrado pelos temas das aulas.

Os interessados devem preencher um formulário disponível no site do projeto e enviá-lo para o e-mailawasko@ibb.unesp.br . Também é possível se inscrever pessoalmente, no Departamento de Genética do IB.

Estudo questiona validade da chuva artificial


Cientistas israelenses analisam dados de 50 anos e concluem que pulverização de nuvens com produtos químicos não aumenta a precipitação (reprodução)

Da Agência FAPESP 

Um novo estudo indica que a pulverização de nuvens para a produção “forçada” de chuva não funciona tão bem como se imaginava.

Em muitas áreas do mundo, como o sertão nordestino, a chuva é um recurso raro e precioso. Para estimular a precipitação, há décadas tem se experimentado semear as nuvens com produtos químicos, como iodeto de prata ou dióxido de carbono congelado (gelo seco).

Há muitos defensores do método, que já teve usos famosos, como em 2008 nos Jogos Olímpicos de Pequim, quando grande quantidade de partículas foi pulverizada em nuvens para que chovesse antes – e não durante – as provas esportivas.

Mas, de acordo com a nova pesquisa, feita por cientistas do Departamento de Geofísica da Universidade de Tel Aviv, em Israel, o mecanismo não é eficiente. Os resultados foram publicados na revista Atmospheric Research.

O estudo analisou dados sobre pulverização de nuvens nos últimos 50 anos, detendo-se particularmente nos efeitos da atividade em uma área no norte de Israel.

O grupo comparou estatísticas de períodos sem pulverização e com pulverização, bem como a precipitação em áreas adjacentes e em que não houve tentativas de produção de chuvas.

“Ao comparar as estatísticas de chuva com períodos de pulverização, conseguimos ver que os aumentos na precipitação ocorreram ao acaso. Os aumentos foram devidos a mudanças de padrões climáticos e não à semeadura de nuvens”, disse Pinhas Alpert, um dos autores do trabalho.

O mais destacado foi um período de seis anos de aumento na precipitação, que se acreditava ter sido um bem-sucedido resultado da chuva artificial. Pinhas e colegas verificaram que a elevação correspondeu à manifestação de um tipo específico de ciclone, consistente com o aumento de chuvas sobre as regiões montanhosas em Israel que foram pulverizadas.

Os pesquisadores observaram que no período também houve um aumento nas chuvas sobre os montes da Jureia, área na qual não foi feita a semeadura de nuvens.

Apesar de ser um método caro, há atualmente mais de 80 projetos de pulverização de nuvens em andamento no mundo, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial.

Apesar das iniciativas, segundo Pinhas não há, até o momento, provas de que o método realmente funciona. A exceção, ressalta o cientista, é se a semeadura for feita em nuvens orográficas, que são formadas sobre montanhas e duram pouco.

O artigo Reassessment of rain enhancement experiments and operations in Israel including synoptic considerations (doi:10.1016/j.atmosres.2010.06.011), de Pinhas Alpert e outros, pode ser lido por assinantes da Atmospheric Research em http://dx.doi.org/10.1016/j.atmosres.2010.06.011.