quinta-feira, 7 de maio de 2009

Agricultura recebe propostas para alterar legislação ambiental

A Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural recebeu, nesta quarta-feira, propostas de alteração da legislação ambiental do País apresentadas pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB).

O tema foi discutido na subcomissão especial criada para tratar das questões ambientais e seus impactos no agronegócio.A subcomissão encarregada de analisar o assunto na Comissão de Agricultura está recebendo propostas de diferentes segmentos. Uma das tendências, segundo o presidente da subcomissão, deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS), é que o grupo proponha um código ambiental brasileiro que contenha apenas princípios gerais, reservando aos estados a prerrogativa de adequar a lei às peculiaridades locais. "Imaginamos uma proposta de código ambiental constituído por diretrizes nacionais, mas com adaptação à realidade regional ou aos diversos biomas feita por meio dos estados."Essa ideia foi rechaçada pelo coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista, deputado Sarney Filho (PV-MA). "Como passar para os estados, que são segmentados, a atribuição de legislar sobre um bioma? Imagine na Amazônia, onde tem vários estados. O bioma é um só, ele tem que ser tratado como único porque ultrapassa os limites regionais dos estados."

Uso das terras

Entre as reivindicações, a OCB quer assegurar aos produtores o direito de uso das terras abertas para agropecuária antes que leis como o Código Florestal definam percentuais mínimos de conservação de vegetação nativa. No caso das Áreas de Preservação Permanente (APP), por exemplo, a organização defende que os índices mínimos de preservação às margens de rios sejam reduzidos de 30 para 5 metros. Em relação às reservas que devem ser mantidas com espécies florestais nas propriedades, em faixas variáveis conforme o ecossistema, os produtores cooperativados propõem que a obrigação deixe de ser individual e passe a ser coletiva. A ideia é que o setor público, ouvindo a sociedade, defina as áreas prioritárias para recomposição da cobertura florestal exigida.

Pressa na votação

O presidente da OCB, Márcio Lopes de Freitas, pediu urgência na votação das mudanças, já que se encerra em dezembro o prazo para que os proprietários rurais se ajustem às atuais normas de preservação. "Se no dia 16 de dezembro de 2009 nós não tivermos um ajuste do Código Florestal brasileiro, as cláusulas punitivas vão fazer com que a agropecuária brasileira pare. Precisamos arrumar essa solução, tramitar no Congresso e ter a sanção do presidente da República antes disso." Um decreto editado pelo governo federal, no ano passado, estendeu o prazo para que os produtores rurais regularizem as áreas de reserva legal nas propriedades conforme determina o Código Florestal desde 2001, sob pena de o não cumprimento ser punido pela Lei de Crimes Ambientais (Lei 9605/98).

Na próxima semana, a subcomissão recebe as contribuições do Ministério da Agricultura e da Frente Parlamentar Agropecuária. Segundo Onyx Lorenzoni, o grupo deve apresentar um texto de consenso em até 120 dias.

Fonte: Agência Câmara

quinta-feira, 30 de abril de 2009

CCJ aprova simplificação de processo para licenciamento ambiental

Laycer Tomaz

Geraldo Pudim apresentou substitutivo que exclui da proposta a permissão para a atuação "supletiva" da União.

A Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ) aprovou, nesta quarta-feira (29), substitutivo ao Projeto de Lei Complementar (PLP) 12/03, do deputado Sarney Filho (PV-MA), que fixa normas para a divisão de competências e para a cooperação entre União, estados e municípios em relação ao meio ambiente.A proposta está apensada ao PLP 388/07, do Poder Executivo, que integra o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC); e ao PLP 127/07, do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS).

O objetivo é evitar que a ausência de atribuições específicas cause sobreposição de ações dos entes federados ou impeça a tomada de ações, o que causaria prejuízos ao meio ambiente.O relator na comissão, deputado Geraldo Pudim (PMDB-RJ), apresentou mudanças à proposta original, como a retirada do texto da permissão para a União atuar "supletivamente" em relação aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios em caso de "inércia ou omissão" na atuação ambiental por parte deles.LicenciamentoA definição do ente responsável pelo licenciamento ambiental - se União, estado ou município - atenderá a tipologia definida pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama), que deverá considerar o porte, o potencial poluidor e a natureza do empreendimento na regulamentação."Isso é muito importante para o Brasil, na medida em que você define por tipologia através dos órgãos de licenciamento ambiental os novos empreendimentos. Isso dá uma maior agilidade, que vai poder facilitar [o licenciamento] e proporcionar aos entes federados acompanhar o projeto", declarou Pudim. "Então, dependendo da tipologia, quem autoriza o empreendimento, fiscaliza e é responsável até mesmo pela emissão de multas é o ente que licenciou: se é o município, é o município; se é o estado, é o estado; se é a União, é a União", destacou.

O relator inseriu algumas "disposições transitórias" para vigorarem antes de o projeto ser integralmente regulamentado. Entre elas, está a definição de que os critérios para a atribuição dos entes federativos para o licenciamento, manejo e supressão de vegetação nas chamadas áreas de proteção ambiental (APAs) serão estabelecidos pelo Conama em prazo máximo de seis meses. Enquanto esses critérios não forem estabelecidos, valerá a legislação atual.

Tramitação

Os PLPs, que tramitam em regime de prioridade, serão agora analisados pelo Plenário.Íntegra da proposta:- PLP-388/2007- PLP-127/2007- PLP-12/2003

sexta-feira, 3 de abril de 2009

MMA estuda novo modelo de projetos de educação ambiental para licenciamento

Gerusa Barbosa

O Ministério do Meio Ambiente instituiu grupo de trabalho para elaborar um novo modelo de projetos de educação ambiental vinculados ao licenciamento. Os trabalhos da equipe começam na próxima semana com a elaboração da minuta de instrução normativa que vai orientar as diretrizes e procedimentos administrativos nos processos de licenciamento.

O grupo terá três meses para concluir os estudos, que serão submetidos ao ministro do Meio Ambiente. Representantes do Departamento de Educação Ambiental, Ibama, Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade fazem parte da equipe.

Segundo a diretora do Departamento de Educação Ambiental do MMA, Lucia Anello, a iniciativa vai qualificar o processo de licenciamento federal no campo da educação ambiental, além de representar um importante avanço para a consolidação do desenvolvimento socioambiental. "Às vezes, a baixa qualidade dos projetos é o que emperra a liberação das licenças ambientais", disse a diretora.

Todo empreendimento de grande porte em nível federal requer para seu licenciamento um projeto de educação ambiental, envolvendo prioritariamente as comunidades atingidas diretamente pela implementação da obra. Isso afeta os setores de energia, na instalação de hidrelétricas e exploração de petróleo.

Lúcia explica que as ações de educação ambiental são poderosos instrumentos de mitigação dos impactos ambientais sobre populações afetadas pelos empreendimentos. Medidas socioambientais fazem parte das bases das políticas públicas como, por exemplo, o Programa de Aceleração do Crescimento - PAC.

Fonte: ASCOM

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Dicas para o Ecocidadão

A Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo lançou, na semana passada, em cerimônia realizada no Centro de Referência em Educação Ambiental (Crea), em São Paulo, o livro Ecocidadão.

Com 110 páginas impressas em papel reciclado e com dezenas de ilustrações, a obra, escrita pelas técnicas da Coordenadoria de Educação Ambiental da secretaria Denise Scabin Pereira e Regina Brito Ferreira, é destinada a professores e pesquisadores das áreas de ecologia e meio ambiente.

Em linhas gerais, o livro mostra como o cidadão comum pode se mobilizar para evitar ou amenizar os problemas ambientais como o desperdício de água e energia, geração de lixo, ruídos, aquecimento global e preservação da fauna e flora.
Mostra ainda quais materiais podem ou não ser reciclados e também apresenta um glossário com termos técnicos mais utilizados por especialistas em meio ambiente.

Com tiragem de 30 mil exemplares, em um primeiro momento a publicação será distribuída para a rede oficial de ensino fundamental e médio do Estado, bibliotecas e outras instituições de ensino e pesquisa interessadas.

O livro oferece ainda uma lista com nomes de especialistas brasileiros que podem ajudar os docentes a tirar dúvidas antes de trabalhar a temática ambiental na sala de aula.
O Ecocidadão é o segundo título da série Cadernos de Educação Ambiental, iniciada pela secretaria em novembro de 2008 com a obra As águas subterrâneas do Estado de São Paulo.
Ao todo serão lançadas 19 publicações que abordarão temas como agricultura sustentável, biodiversidade, consumo e ecoturismo, a fim de serem trabalhadas em salas de aula e também servirem de suporte a pesquisadores, técnicos e ambientalistas.

As instituições de ensino e pesquisa interessadas em adquirir a obra devem encaminhar solicitação para a Coordenadoria de Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente pelo e-mail cea@ambiente.sp.gov. Mais informações: (11) 3723-2747

Comissão pretende acompanhar a implantação do Plano Nacional sobre Mudanças do Clima

Paulo Sérgio Vasco

A Comissão Mista Permanente sobre Mudanças Climáticas aprovou nesta terça-feira (31) seis requerimentos, entre eles o de autoria do senador Renato Casagrande (PSB-ES) que solicita a realização de um ciclo de audiências públicas, com periodicidade mínima de seis meses, com o objetivo de acompanhar a implantação do Plano Nacional sobre Mudanças do Clima , de autoria do Executivo, em tramitação na Câmara (PL 3535/08).

O plano trata do fim da perda líquida da área de cobertura florestal do país até 2015, além da destinação de verbas para recomposição de áreas de preservação permanente e reservas legais, conservação dos biomas, aumento da sustentabilidade no setor agropecuário, entre outros temas.

Na reunião, ficou acertado que o plano de trabalho e o calendário de atividades da comissão, que seriam divulgados nesta terça-feira, deverão ser apresentados na próxima semana, tendo em vista que o relator do colegiado, deputado Colbert Martins (PMDB-BA), pretende reunir no documento as sugestões que ainda vêm sendo encaminhadas pelos deputados e senadores.
Antes do início das votações, a presidente do colegiado, senadora Ideli Salvatti (PT-SC), designou oficialmente o deputado Antônio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP) como relator-adjunto da comissão. Thame, que já havia sido convidado de modo informal para desempenhar a função pelo relator Colbert Martins, irá atuar na elaboração do plano de trabalho e na criação de grupos temáticos de discussão sobre as mudanças climáticas.

O deputado é autor de um dos requerimentos aprovados pela comissão, em que solicita a realização de audiência publica para esclarecer a posição oficial do Brasil face às mudanças climáticas, além das medidas a serem adotadas pelo governo para aliviar os efeitos do aquecimento global. Serão convidados para o debate, em data a ser definida, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim; o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc; o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende; e o coordenador-geral do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, professor Luiz Pinguelli Rosa.

A comissão também aprovou dois requerimentos do deputado José Guimarães (PT-CE): o primeiro requer audiência pública para debater o inventário de emissões de gases de efeito estufa no Brasil. O segundo solicita audiência pública para instrução do Plano Nacional sobre Mudanças do Clima.

Foram aprovados ainda dois requerimentos da vice-presidente da comissão, deputada Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), que também solicitam a realização de audiências públicas. A deputada quer debater o Programa Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus (Prosamim) e os efeitos das mudanças climáticas na Amazônia, com a participação de representantes das universidades estaduais e centros de pesquisa da região.

Comitiva
Na mesma reunião, Ideli comunicou ainda a vinda de uma comitiva de deputados americanos na próxima semana a Brasília, onde deverão manter encontros com autoridades do governo para discussão de assuntos relacionados às mudanças climáticas.

A senadora disse ainda que gostaria de ter acesso aos dados de adesão ao Movimento Hora do Planeta, promovido no último dia 28 pela organização não-governamental World Wildlife Fund (WWF), por meio do qual populações, órgãos governamentais e empresas de todo o mundo foram convidados a apagar as luzes durante uma hora (a partir das 20h30), com o objetivo de divulgar os riscos das mudanças climáticas e as ações que buscam impedi-las.
- Valeria a pena ter um detalhamento. O evento mobilizou milhares de pessoas e instituições em todo o mundo. Oitenta e oito países participaram. No Brasil, quase uma centena de cidades participou - afirmou a Ideli sobre o movimento, que contou com a participação do Senado.

Ideli também apresentou voto de aplauso à empresa Carbono do Brasil Tecnologia e Serviços Ambientais, de Santa Catarina, única empresa brasileira a obter destaque em concurso promovido pelo jornal Financial Times que escolheu 12 soluções inovadoras para o convívio com as mudanças climáticas, segundo informou.

Por sugestão do senador Romeu Tuma (PTB-SP), Ideli comunicou que irá solicitar informações quanto à possibilidade de utilizar os mecanismos postos à disposição pelo Interlegis, a exemplo das videoconferências, para possibilitar a difusão de informações sobre as mudanças climáticas às assembléias legislativas e câmaras de vereadores conectadas ao programa.

Fonte: Agência Senado

Fungos da biodegradação

Thiago Romero

A aluna da Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Kethlen Rose Inácio da Silva desenvolveu um processo para a degradação de garrafas à base de polietileno tereftalato (PET) por meio de fungos.

O trabalho de pesquisa sobre a biodegradabilidade de polímeros sintéticos por ação de microrganismos conhecidos como “basidiomicetos de podridão branca”, cultivados em resíduos agroindustriais com diferentes fermentações, correspondeu à dissertação de Kethlen, que teve apoio da FAPESP na modalidade Bolsa de Mestrado e foi apresentada no fim de janeiro na FEA.

Tais fungos têm sido objeto de diversos estudos, por conta de sua capacidade de degradação de materiais.
“Foram utilizadas duas linhagens de fungos Pleurotus sp, que são encontrados naturalmente nas matas brasileiras crescendo sobre madeiras, da qual retiram nutrientes”, disse Kethlen à Agência FAPESP. “Os fungos Pleurotus sp estão também amplamente distribuídos pelo sul e pela área central da Europa e também pelo norte da África.”

A bióloga utilizou uma técnica conhecida como planejamento experimental com o objetivo de chegar a uma condição adequada para a biodegradação dos polímeros. O estudo foi orientado pela professora Lúcia Regina Durrant, do Departamento de Ciências de Alimentos da FEA.
“O planejamento experimental, utilizado pela primeira vez em laboratório para esse fim, possibilitou a realização de um estudo preliminar em que foi possível avaliar a interferência de diversas variáveis no processo de biodegradação dos polímeros, como os níveis de fermentação, tempo de reação e temperatura ideal, levando assim às melhores condições para a biodegradação do PET”, explicou Kethlen.
"A maioria dos pesquisadores que estuda o assunto utiliza a técnica de tentativa e erro. A utilização do planejamento experimental e a análise de fatores que poderiam interferir no processo foram o grande diferencial desse estudo”, conta Kethlen, que iniciará doutoramento no Laboratório de Sistemática e Fisiologia Microbiana da Unicamp.

Para chegar à condição ótima para a degradação dos polímeros, ela teve que descobrir ainda detalhes sobre as atividades enzimáticas ligninolíticas dos fungos e quantificar a sua perda de massa, além de analisar as taxas de biodegradação do PET.

Segundo a bióloga, um resultado relevante do trabalho é que, dentre todas as condições estudadas, a fermentação semi-sólida foi a mais adequada para a biodegradação desses polímeros usados desde a década de 1970, especialmente em embalagens.
“Os microrganismos cresceram em condições muito semelhantes ao seu habitat natural, tornando-os capazes de produzir enzimas e metabólitos que não seriam produzidos em outros tipos de fermentação”, explicou. Problema ambiental

Foram realizados mais de 600 ensaios para verificar a interferência dos fungos na biodegradação dos polímeros. “A fermentação semi-sólida apresentou bons resultados durante a maioria dos ensaios estudados, com expressiva produção de enzimas lignocelulolíticas e de biosurfactantes, além de alterações na estrutura e na viscosidade dos polímeros”, apontou.
“Além disso, as duas linhagens lignocelulolíticas utilizadas no estudo demonstraram ter capacidade de se desenvolver em meios contendo fontes de carbono sintético e de difícil degradação”, disse Kethlen. As duas linhagens fúngicas de Pleurotus sp foram cultivadas juntamente com polímeros de garrafa PET sob fermentação semi-sólida e incubados em estufa a 30 ºC durante até 90 dias.

Os resultados do trabalho de pesquisa representam nova contribuição para problemas envolvendo o PET, uma vez que sua reciclagem demanda grande consumo de água e energia, além de promover a geração de resíduos sólidos, emissões atmosféricas e efluentes líquidos.
“Estudamos uma nova metodologia em laboratório e conseguimos definir uma condição adequada para a biodegradação das garrafas PET, que, quando depositadas no ambiente, entopem os sistemas de coleta de esgoto gerando inundações locais, além de apresentar riscos pela queima indevida que resulta em emanações tóxicas na atmosfera”, disse Kethlen.
“É importante destacar que outros estudos são necessários para atestar a eficiência desse processo que acaba de ser desenvolvido”, destacou. A bióloga ressalta que na cidade de São Paulo os plásticos são o segundo elemento mais encontrado no lixo, correspondendo a cerca de 23% do peso total dos resíduos encaminhados para os aterros sanitários, parcela importante considerando-se que o plástico é um elemento leve e de grande volume.

Fonte: Agência Fapesp

segunda-feira, 30 de março de 2009

Poeira do aquecimento

A recente tendência de aquecimento observada no Oceano Atlântico se deve em grande parte a reduções nas quantidades de poeira e de emissões vulcânicas nos últimos 30 anos, segundo estudo publicado no site da revista Science.

Desde 1980, a temperatura no Atlântico Norte tem aumentado em média 0,25 ºC por década. O número pode parecer pequeno, mas tem grande impacto em furacões, que preferem águas mais quentes. Um exemplo: 2005 teve recorde no número de furacões, enquanto em 1994 foram poucos eventos, mas a diferença na temperatura oceânica entre os dois anos foi de apenas 1 ºC.

De acordo com a pesquisa, feita por cientistas da Universidade de Wisconsin em Madison e da Administração Nacional do Oceano e Atmosfera (Noaa), nos Estados Unidos, mais de dois terços dessa tendência de aquecimento podem ser atribuídas a alterações em tempestades de poeira na África e à atividade vulcânica nos trópicos no período.

Os autores do estudo haviam mostrado anteriormente que a poeira vinda da África e outras partículas suspensas na atmosfera podem reduzir a atividade de furacões por meio da diminuição da luz solar que chega ao oceano, mantendo a superfície mais fria. Ou seja, anos com mais poeira implicam menos furacões.

Os pesquisadores combinaram dados obtidos por satélites de aerossóis (material particulado suspenso na atmosfera) com modelos climáticos para avaliar o efeito na temperatura oceânica. Eles calcularam quanto do aquecimento no Atlântico observado desde 1980 foi devido a mudanças em tempestades de poeira e na atividade vulcânica, especialmente as erupções do El Chichón, no México, em 1982, e do Pinatubo, nas Filipinas, em 1991.

A conclusão foi que o efeito foi muito maior do que se esperava. “Grande parte da tendência de aquecimento no padrão a longo prazo pode ser explicada por esses fatores. Cerca de 70% é resultado da combinação de poeira e vulcões e aproximadamente 25% se devem apenas a tempestades de areia”, disse Amato Evan, da Universidade de Wisconsin, principal autor do estudo.

Os resultados indicam, portanto, que apenas 30% dos aumentos na temperatura no Atlântico Norte são devidos a outros fatores. Embora não desconte a importância do aquecimento global, Evan aponta que o estudo faz com que o impacto desse fator no Atlântico esteja mais em conformidade com o menor aquecimento verificado no Pacífico.
“Faz sentido, porque não esperávamos que o aquecimento global fizesse com que a temperatura oceânica se aquecesse tanto em tão pouco tempo”, disse.

De acordo com o cientista, vulcões são naturalmente imprevisíveis e, portanto, difíceis de serem incluídos em modelos climáticos, mas novos modelos deverão levar em conta a importância de tempestades de areia como um fator para prever acuradamente como as temperaturas oceânicas vão se alterar.

O artigo The role of aerosols in the evolution of tropical North Atlantic Ocean temperature anomalies, de Amato Evan e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.

Fonte: Agência Fapesp

quinta-feira, 26 de março de 2009

Projetos sustentáveis

Formado por seis universidades brasileiras, o Consórcio Brasil representará o país no Solar Decathlon Europe, competição universitária de construção de casas energeticamente auto-sustentáveis que será realizada em 2010.

Integrantes das universidades de São Paulo (USP), Estadual de Campinas (Unicamp) e as federais do Rio de Janeiro (URFJ), Minas Gerais (UFMG), Santa Catarina (UFCS) e do Rio Grande do Sul (UFRGS) decidiram unir forças para se tornarem mais competitivos no evento que será organizado pela Escola Politécnica de Madri, na Espanha.
Para montar o projeto ideal, o consórcio fez um concurso interno, em que estudantes de arquitetura das seis universidades apresentaram projetos. O júri foi composto de professores das universidades brasileiras e representantes da Politécnica de Madri, entre eles o vice-reitor de Relações Internacionais Jose Manuel Páez. Foram escolhidos os projetos de alunos da UFSC, Unicamp e UFRGS como os três melhores.

Os projetos contemplam áreas como arquitetura, engenharia elétrica, civil e de materiais e iluminação e marketing. “Não se trata apenas de fazer uma casa sustentável, mas de pensar nela como algo que pode ser reproduzido facilmente na sociedade”, disse Adnei Meleges de Andrade, professor do Instituto de Eletrotécnica e Engenharia e responsável pelo consórcio na USP, ao USP Online.

O Solar Decathlon foi criado pelo Departamento de Energia do governo norte-americano, em 2002, e a próxima edição será realizada em outubro, em Washington. A edição na Europa será a primeira fora dos Estados Unidos.

O decatlo solar tem dez critérios de avaliação, cada um com pontuações diferenciadas. Além das questões arquitetônica e de engenharia, contam pontos as instalações, balanço de energia, condições de conforto, funcionamento de equipamentos, inovação e sustentabilidade.
Comunicação, marketing, sensibilização social, industrialização e comercialização também são importantes, pois o projeto deve ser comercializável. Mais informações: www.solardecathlon.org

Fonte: Agência Fapesp

quarta-feira, 25 de março de 2009

Química polivalente

Fábio de Castro

Produtos fabricados com substâncias tensoativas à base de açúcares são atualmente o principal exemplo de aplicação em larga escala da “química verde” – um conjunto de diretrizes voltado à redução do impacto ambiental dos processos químicos. Mas a importância econômica dessas substâncias não para por aí: elas têm potencial para ser empregadas até mesmo como vetores não virais para a terapia gênica.

Reunir os crescentes avanços acadêmicos e tecnológicos da comunidade internacional sobre os tensoativos – ou surfactantes – à base de açúcares é o objetivo do livro Sugar-Based Surfactants: Fundamentals and Applications, lançado nos Estados Unidos. A obra apresenta artigos de pesquisadores de dez países, incluindo o Brasil.

Omar El Seoud, professor titular do Instituto de Química (IQ) da Universidade de São Paulo (USP), e sua orientanda de doutorado Paula Galgano foram os responsáveis pelo capítulo Tensoativos iônicos à base de açúcares: síntese, propriedades de solução e aplicações.

Além dos brasileiros, a obra, organizada por Cristobal Ruiz, da Universidade de Málaga, na Espanha, traz artigos de pesquisadores da própria Espanha, da Itália, Suécia, Holanda, Japão, Alemanha, França, Estados Unidos e Irlanda.
“Escrevemos sobre a síntese, as propriedades e as aplicações de tensoativos iônicos – isto é, os que têm carga – à base de açúcares. Trata-se de um tema importante para o Brasil, porque nossa situação é muito privilegiada para a produção em larga escala, já que temos grande disponibilidade de açúcares, como sacarose, glicose e frutose, assim como de ácidos graxos, permitindo ampla gama de aplicações”, disse El Seoud à Agência FAPESP.

De acordo com o pesquisador do Laboratório de Tensoativos e Polímeros do IQ-USP, os tensoativos à base de glicose (ou alquil poliglicosídeos) estão sendo empregados em algumas formulações de limpeza doméstica no Brasil. Os surfactantes à base de sacarose e sorbitol (ou glicose reduzida) são amplamente usados nas indústrias de alimentos, cosmética e farmacêutica, especialmente como solubilizantes e emulsificantes.

El Seoud conta que esses surfactantes têm custo competitivo, são produzidos com matérias-primas renováveis, são biodegradáveis e biologicamente compatíveis – o que é importante para as aplicações médicas.
“Eles seguem os princípios da ‘química verde’, já que não há resíduos: tudo o que entra no processo de fabricação sai no produto. Isso é importante porque a principal fonte de tensoativos hoje é o petróleo e há urgência em buscar fontes alternativas para matéria-prima desses produtos”, explicou. Terapia gênica El Seoud é o pesquisador responsável pelo Projeto Temático “Sintese, propriedades e aplicações de tensoativos e biopolímeros funcionalizados: Um enfoque de química verde”, apoiado pela FAPESP.

Ele explica que a estrutura de um tensoativo consiste em uma “cabeça” iônica – ou polar – e uma cauda apolar. Na maior parte dos detergentes de uso doméstico hoje existentes no mercado eles são baseados no petróleo. A “cabeça” é de benzeno sulfonato de sódio e a “cauda” consiste em um alcano ou um hidrocarboneto.
“Já nos tensoativos à base de açúcar, a ‘cabeça’ é de glicose, sacarose ou frutose, enquanto a ‘cauda’ consiste em um ácido graxo ou um álcool graxo – ambos obtidos a partir de gordura”, disse.

Os tensoativos iônicos produzidos no laboratório do IQ-USP são feitos à base de aminoglicose, açúcar extraído da quitina, um carboidrato que compõe as cascas de camarão e de crustáceos em geral.
“A partir de um processo químico, essa quitina é transformada em quitosana. Esses dois carboidratos têm vários usos, porque são biocompatíveis. Podem ser usados, por exemplo, em curativos em forma de filmes, para tratamento de queimaduras, levando o princípio ativo para o organismo”, disse.

Além de aplicações em detergentes, pastas de dentes e fármacos, os tensoativos à base de açúcares poderão ser usados como vetores não-virais (que não usam vírus) para terapia gênica, com potencial para aplicação em doenças infecciosas, cardiovasculares, fibrose cística, doença de Parkinson e alguns tipos de câncer.

Segundo El Seoud, a alternativa teria diversas vantagens em relação aos vetores virais: simplicidade e baixo custo de produção, compatibilidade com o sistema imunológico e alta capacidade de transfecção in vitro – introdução de uma molécula de DNA em uma célula.
“O protocolo viral é muito eficiente, porque o vírus contorna todas as dificuldades para chegar ao interior da célula levando o DNA sadio. Mas envolve também grandes problemas, por lidar com um vírus no corpo humano, representando certo risco de toxidez, ou provocando uma reação imunológica”, indicou.

No protocolo não viral, o DNA e um tensoativo catiônico – que pode ser feito à base de açúcar – formam um complexo. “A associação entre o DNA e o lipídio catiônico ajuda a proteger o DNA contra a degradação, facilitando sua incorporação na célula. Embora menos eficiente que o protocolo viral, esse método é mais seguro, de baixo custo e poderia ser aplicado em larga escala”, disse.

Sugar-Based Surfactants: Fundamentals and ApplicationsAutor: Cristóbal Ruiz (Org.)Lançamento: 2009 Preço: US$ 205Páginas: 680
Mais informações: www.amazon.com

Fonte: Agência Fapesp

sexta-feira, 13 de março de 2009

Senadores defendem produção de energia eólica

Geraldo Sobreira

Em audiência pública na Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle (CMA) sobre os leilões de contratação de energia eólica, os senadores Cícero Lucena (PSDB-PB), Flexa Ribeiro (PSDB-PA), Jefferson Praia (PDT-AM), Lobão Filho (PMDB-MA), Ideli Salvatti (PT-SC) e Renato Casagrande (PSB-ES) defenderam a produção de energia eólica para diminuir a produção de gases de efeito estufa.

Cícero Lucena perguntou à representante do Ministério do Meio Ambiente, Ana Lúcia Dolabella, sobre o impacto ambiental da produção de energia eólica. Ana Lúcia respondeu que, apesar de ter o objetivo de substituir a energia de combustíveis fósseis, a energia eólica, considerada limpa, também produz impacto ambiental. O ministério estuda os efeitos ambientais desse tipo de energia, acrescentou.

Por sua vez, Flexa Ribeiro manifestou a preocupação sobre a melhor forma de incentivar a produção de energia eólica. O representante da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Edvaldo Alves de Santana, disse que o leilão é a melhor maneira. "Há necessidade de calibrar o preço teto para não dar um leilão vazio", observou o técnico.

Jefferson Praia defendeu a realização de pesquisa sobre fontes de produção de energia eólica na Amazônia. Edvaldo Alves de Santana disse que no Amapá e no Maranhão há potencial de produção desse tipo de energia. Na opinião do técnico, na Ilha do Marajó, entre outras áreas da Amazônia, também existe tal possibilidade.

Na mesma reunião, a comissão aprovou requerimento de Casagrande com o objetivo de propor ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que institua um incentivo à energia solar no programa de habitação popular. Aprovou ainda, também por sugestão de Casagrande, pedido de realização de sessão solene do Congresso Nacional para celebrar o Dia Mundial da Água, em 24 de março. Outro requerimento aprovado, de autoria de Cícero Lucena, visa à realização de audiência pública sobre fontes de energia alternativa.

Fonte: Agência Senado


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A floresta no limite

Por Ricardo Zorzetto

A paisagem que Paulo Brando encontrou em outubro passado na Floresta Nacional do Tapajós em Belterra, município no oeste do Pará, é bem distinta da que o encantou em sua primeira viagem à região seis anos atrás.

As árvores mais altas e imponentes tinham muito menos folhas que o normal e já não se abraçavam no topo da floresta como antes. Várias estavam secas e mortas e por entre os vãos da copa deixavam espiar o céu. Quase sempre inacessíveis a quem caminha pela mata, os raios de sol chegavam à camada de folhas no solo, deixando-a mais seca e propensa a pegar fogo.

Felizmente a transformação observada pelo engenheiro florestal paulista se restringe – ao menos por enquanto – a uma pequena área da Amazônia que na última década vem servindo de laboratório natural para pesquisadores brasileiros e norte-americanos interessados em descobrir o que pode acontecer com a mais vasta floresta tropical do mundo caso, como previsto, a temperatura do planeta continue aumentando e as chuvas diminuam na região.

No interior dessa reserva ambiental às margens do rio Tapajós, a 67 quilômetros ao sul de Santarém, Daniel Nepstad, ecólogo do Centro de Pesquisas Woods Hole, nos Estados Unidos, e fundador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), criou no final dos anos 1990 um elaborado experimento a céu aberto.

Selecionou um hectare de vegetação nativa – o correspondente a um quarteirão com 100 metros de lado – no qual simulou secas intensas semelhantes às causadas de tempos em tempos no leste da Amazônia pelo El Niño, o aquecimento anormal das águas superficiais do oceano Pacífico.

Durante cinco estações chuvosas seguidas, cerca de 30 pesquisadores e auxiliares da equipe de Nepstad instalaram um pouco acima do solo 5.660 painéis plásticos de 3 metros de comprimento por 0,5 metro de largura, recolhidos ao final de cada período de chuvas. Como uma espécie de guarda-chuva sobre a floresta, os painéis desviavam as águas vindas do céu para um sistema de calhas que as conduziam para longe dali.

Os efeitos desse experimento complexo e dispendioso – foram medidos gases emitidos para a atmosfera, umidade do solo, crescimento das plantas, entre outros fatores – começaram a se tornar mais claros recentemente com a publicação de artigos científicos detalhando os danos causados por cinco anos de uma seca experimental severa que reduziu de 35% a 40% o volume de água que chegava ao solo (o índice médio de chuvas na região de Santarém é de 2 mil milímetros por ano, concentrados de dezembro a junho).
Clique aqui para ler o texto completo na edição 155 de Pesquisa FAPESP.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Hotspots dentro de hotspots

Por meio do uso de registros climáticos e da análise de espécies da Mata Atlântica, um grupo de cientistas do Brasil e dos Estados Unidos desenvolveu um método para localizar dentro de hotspots de biodiversidade – as áreas prioritárias para preservação – as partes que correm maior risco. Ou seja, identificar hotspots dentro de hotspots.

Ao aplicar o método no Brasil, os cientistas verificaram que, apesar de a maioria dos esforços de conservação estar voltada à região mais ao sul do bioma, a região central – grande parte na Bahia – reúne uma diversidade biológica muito maior do que estimavam os conservacionistas.

O estudo, publicado na edição desta sexta-feira (6/2) da revista Science, foi conduzido por Ana Carolina Carnaval, que atualmente fez pós-doutorado no Museu de Zoologia Vertebrada da Universidade da Califórnia em Berkeley, nos Estados Unidos, Célio Haddad, professor da Universidade Estadual Paulista em Rio Claro e coordenador da área de biologia da FAPESP, Miguel Trefaut Rodrigues, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, Michael Hickerson, da Universidade da Cidade de Nova York, e Craig Moritz, de Berkeley.

A nova estratégia envolve observar espécies em uma área e, tomando como base registros climáticos históricos, estimar as distribuições das espécies no passado. O método permite obter uma indicação de quais regiões foram estáveis climaticamente e, com isso, estimar a diversidade das espécies e quais áreas se mantiveram instáveis, ou seja, mais propensas a ter menor diversidade biológica. “Com esse método, podemos identificar áreas que têm funcionado como refúgios da biodiversidade. São pontos que se mantiveram climaticamente estáveis durante o tempo, onde comunidades locais foram capazes de persistir”, disse Ana Carolina.

A região central da Mata Atlântica é uma delas. “Ela é pouco conhecida e está sob extrema pressão antropogênica. Isso abre novas prioridades para conservação que devem chegar aos responsáveis pelas políticas públicas, ao público em geral e às organizações não-governamentais”, afirmou.

Os pesquisadores analisaram registros climáticos e sequências de DNA mitocondrial (herdadas apenas do lado materno, diferentemente do DNA nuclear) de três espécies de sapos comuns na Mata Atlântica.
Observaram que a vida em certas áreas da floresta permaneceu estável durante as flutuações glaciais, enquanto outras áreas foram colonizadas apenas recentemente, durante o Pleistoceno, de cerca de 1,8 milhão a 10 mil anos atrás.
“Ana e seus colegas descobriram, por meio de uma abordagem simples de combinar genética com modelagem ambiental, como podemos fazer previsões muito bem fundamentadas que podem guiar esforços de conservação”, destacou Moritz, que dirige o Museu de Zoologia Vertebrada em Berkeley.

Os autores do estudo alertam que, como a região central da Mata Atlântica experimenta elevado índice de desflorestamento, em comparação com as áreas mais ao sul, grande parcela de diversidade única pode se perder. A Mata Atlântica brasileira perdeu mais de 85% de sua área original.

Além disso, a destruição de hábitats na parte central da floresta poderá apagar rapidamente as assinaturas biológicas necessárias para o método desenvolvido por eles, o que prejudicaria iniciativas futuras de conservação.

O artigo Stability predicts genetic diversity in the Brazilian Atlantic Forest hotspot, de Ana Carolina Carnaval e outros, pode ser lido por assinantes da Science em www.sciencemag.org.

Fonte: Agência Fapesp

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Planta medicinal pode ser o ponto de partida para remédio contra a dengue

Unha-de-gato: efeitos anti-inflamatórios reduzem o agravamento da dengue

Vilma Homero

Estudando a Uncaria tomentosa, a popular unha-de-gato, entre outras plantas com características imunossupressoras, a biomédica Claire Kubelka e a bióloga Sônia Reis, do Laboratório de Imunologia Viral do Instituto Oswaldo Cruz, se entusiasmaram com os resultados dos testes in vitro de alguns dos princípios ativos da planta.

Usando uma técnica inédita de cultivo das células de defesa do organismo, as pesquisadoras observaram que alguns dos princípios ativos da unha-de-gato reduziram a produção de citocinas – proteínas associadas à resposta inflamatória do organismo –, diminuindo as chances de agravamento da doença. "Observamos que uma fração enriquecida em alcalóides da Uncaria tomentosa mostrou-se eficaz na redução de fatores inflamatórios", fala Sônia Reis sobre os resultados dos testes iniciais. Sua tese de doutorado – Identificação de produtos originados de plantas medicinais com atividade imunomoduladora e antiviral em modelos in vitro de infecção pelo vírus da dengue – foi exatamente sobre o tema.

A pesquisa faz parte de um projeto da Fiocruz, desenvolvido inicialmente em Farmanguinhos, de testar diversas substâncias extraídas de plantas medicinais para criar novos medicamentos. "Estamos trabalhando com substâncias ainda inéditas, embora com tradição na medicina popular e abundantes em nossa região, para que mais tarde possam ser usadas como matéria-prima. A unha-de-gato, por exemplo, vem sendo empregada popularmente contra a artrite e também como suplemento para aumentar a imunidade", fala Claire Kubelka.

Mas como ambas as pesquisadoras fazem questão de enfatizar, tudo isso ainda é um primeiro passo num amplo quebra-cabeças até se chegar a um resultado efetivo na criação de um medicamento para tratar a dengue. Inicialmente, foram testados alguns dos vários constituintes que fazem parte da concentração do princípio ativo da Uncaria. "O extrato bruto, em si, não apresentou bons resultados", fala Kubelka. O que significa também que a planta propriamente dita não leva aos efeitos desejados e não deve ser usada aleatoriamente.

Nos testes iniciais, foram examinadas a atuação desses constituintes contra algumas moléculas-alvo envolvidas na gravidade de casos de dengue. "A questão é que sabemos que há uma série de moléculas que podem levar à gravidade da dengue. Por isso pretendemos estender os testes a outros marcadores de gravidade da doença", fala Kubelka.

Atualmente, o tratamento nos casos de dengue é feito apenas no sentido de aliviar os sintomas, como dores e febre. "Embora outros grupos de pesquisadores também estejam testando outras substâncias, não há, na clínica, atualmente, drogas específicas que estejam sendo usadas no tratamento da doença. Com isso, muitos casos se agravam", explica Kubelka.

O sistema imunológico é uma rede que atua com homeostasia, ou seja, um processo de regulação que mantém constante o equilíbrio do organismo. A presença do vírus da dengue pode exacerbar a atividade do sistema imunológico, rompendo a homeostasia do organismo e levando a uma produção exagerada de citocinas e outros fatores. Uma dessas respostas, por exemplo, é o desequilíbrio na coagulação, que já é uma reação imunológica à presença do vírus no organismo. A possibilidade de um medicamento que atue de forma específica é uma perspectiva animadora, que também tem envolvido outros pesquisadores, como Ligia Valente, do Instituto de Química, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a farmacêutica Maria das Graças Henriques e a química Maria Raquel Figueiredo, ambas de Farmanguinhos. "Por enquanto, foi dado apenas um primeiro passo no que será um longo caminho".

Fonte: Faperj

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Cobertura completa da Amazônia

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) está adquirindo novos componentes para o Amazônia-1. Com lançamento previsto para 2011, será o primeiro satélite de observação da Terra desenvolvido pelo Brasil e o primeiro a utilizar a Plataforma Multimissão (PMM).
Segundo o Inpe, os satélites Amazônia-1 e CBERS 3 e 4 permitirão, juntos, uma cobertura completa da Terra em menos de cinco dias, tornando o Brasil autônomo para obtenção de imagens em média resolução. O norte-americano Landsat-5, que é utilizado na avaliação de desmatamento da Amazônia, está há mais de 22 anos no espaço e apresenta sinais claros de degradação.

O Amazônia-1 é baseado em uma plataforma nacional, denominada PMM, que será também utilizada em outros satélites propostos para o Programa Espacial Brasileiro: o satélite científico Lattes-1, o satélite radar de observação da Terra Mapsar e o satélite meteorológico de medidas de precipitação GPM-Br.

Para desenvolver a PMM, o Inpe contratou na indústria nacional os subsistemas de telecomunicações, estrutura, propulsão e energia, cujos chamados modelos de voo deverão ser entregues até meados de 2010, para dar início à etapa de integração e testes do primeiro satélite, o Amazônia-1.

Em paralelo, o Inpe está adquirindo os componentes para a carga útil do satélite, que envolvem equipamentos de transmissão e gravação a bordo e uma câmera óptica (denominada AWFI), operando nas faixas do visível e do infravermelho próximo, com largura de faixa imageada de 750 quilômetros, com resolução de 40 metros.
Além disso, um acordo assinado entre o Brasil, representado pelo Inpe, e o Reino Unido, representado pelo Rutherford Appleton Laboratory, permitirá incluir no Amazônia-1 a câmera inglesa Ralcam-3, com resolução da ordem de 10 metros, que complementará as imagens coletadas pela AWFI.

No fim de 2008, o Inpe firmou contratos para aquisição de mais dois componentes do Amazônia-1: a câmera AWFI, contratada na indústria nacional, e o sistema de controle e computação embarcada, objeto de uma cooperação entre as agências espaciais brasileira e argentina. Mais informações: www.inpe.br

Fonte: Agência Fapesp

Calor polar

Cientistas que estudam mudanças climáticas estimavam que, enquanto o resto do mundo está se aquecendo, grande parte da Antártica estava no sentido contrário, tornando-se cada vez mais fria. Mas um novo estudo mostra que nos últimos 50 anos o continente tem aquecido em taxas comparáveis com as dos demais.

Segundo artigo publicado na edição desta quinta-feira (22/1) da revista Nature, o aquecimento no oeste da Antártica é maior do que o esfriamento no leste e, na média, as temperaturas no continente estão mais elevadas do que há meio século. “O oeste da Antártica é muito diferente do leste e há uma barreira física, as montanhas Transantárticas, que separa os dois lados”, disse Eric Steig, diretor do Centro de Pesquisa Quaternária da Universidade de Washington e principal autor do estudo.

Há anos se achava que uma relativamente pequena área conhecida como península Antártica, mais ao sul, estivesse se aquecendo, enquanto o restante do continente estaria esfriando. Mas a nova pesquisa verificou que o manto de gelo da Antártica ocidental, que está em média a 1,8 mil metros acima do nível do mar, é significativamente menor do que o manto no lado oriental, que está a 3 mil metros.

O manto no oeste é o que está mais suscetível a entrar em colapso no futuro. Segundo os pesquisadores, o aquecimento no lado ocidental tem sido maior do que 0,1ºC por década nos últimos 50 anos, ou seja, um total de 0,5ºC no período. Os autores do estudo usaram dados de satélites e de estações meteorológicas para calcular as variações na temperatura de 1957 a 2006 e desenvolveram um novo modelo probabilístico para estimar variações no futuro.
Satélites ajudam a calcular a temperatura superficial por meio da medição da intensidade de luz infravermelha radiada pelo gelo. Mas, apesar de cobrirem todo o continente, estão em operação há apenas 25 anos.

De outro lado, as estações meteorológicas operam no continente desde 1957, o Ano Geofísico Internacional, mas a grande maioria está a curtas distâncias da costa e, portanto, não fornece informações diretas das condições no interior. Até então os cientistas estimavam que a Antártica estava esfriando por conta do buraco na camada de ozônio, que diminuiria a conservação da temperatura feita pela camada. “Assumiu-se que o buraco estaria afetando o continente por inteiro, quando não há evidências que comprovem tal ideia”, disse Steig.

O artigo Warming of the Antarctic ice-sheet surface since the 1957 International Geophysical Year, de Eric Steig e outros, pode ser lido por assinantes da Nature em www.nature.com.

Fonte: Agência Fapesp

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Indução humana

Um grupo de 3.146 cientistas concordou, em estudo publicado nesta segunda-feira (19/1) na revista Eos, Transactions, American Geophysical Union, que há mais de 200 anos a atividade humana tem contribuído para o aumento na temperatura média global.

O estudo envolveu um inquérito conduzido no ano passado por Peter Doran, professor associado de Ciências da Terra e do Ambiente da Universidade de Illinois, em Chicago, Estados Unidos, em parceria com sua ex-aluna Maggie Kendall Zimmerman, cujos resultados apontam consenso sobre as mudanças climáticas e suas prováveis causas.

Os pesquisadores receberam um convite por correio eletrônico para participar da sondagem realizada pelo site questionpro.com, composta de nove questões curtas.
Doran e Zimmerman contataram inicialmente mais de 10,2 mil especialistas internacionais, listados em 2007 pelo Instituto Geológico Norte-Americano. Apenas os convidados participaram e seus computadores foram registrados para impedir a repetição da votação.

Duas das questões foram consideradas fundamentais: se a temperatura global média tem aumentado em comparação com níveis anteriores a 1800 e se a atividade humana tem sido um fator significativo na mudança da temperatura média global.

Do total, cerca de 90% dos cientistas que responderam ao questionário concordaram com a primeira questão e 82% com a segunda. O maior consenso foi identificado com a análise detalhada das respostas dos climatologistas, sendo que 97% concordaram que os seres humanos têm um papel importante nas causas do aquecimento global.

Por outro lado, os geólogos que trabalham com petróleo e os meteorologistas estiveram entre os mais céticos, uma vez que apenas 47% e 64%, respectivamente, disseram acreditar no envolvimento humano.
“As respostas dos geólogos do petróleo não foram muito surpreendentes, mas a dos meteorologistas nos chamou a atenção. A maioria dos meteorologistas entende o clima, mas muitos estudam o fenômeno das mudanças climáticas há pouco tempo”, disse Doran.

Doran não foi surpreendido, no entanto, pela quase unanimidade de climatologistas. “Eles são os que mais estudam e publicam sobre a pesquisa do clima, o que nos mostra que, quanto mais se sabe sobre o clima, maior a probabilidade de se acreditar na contribuição da humanidade para o aquecimento global”, apontou.

EOS (para assinantes): www.agu.org

REBIA realiza Oficina de Comunicação Ambiental no FSM2009

A Rede Brasileira de Informação Ambiental (Rebia), estará participando do Fórum Social Mundial 2009 (FSM 2009), que acontece entre os dias 27 de janeiro e 02 de fevereiro em Belém/PA.

A Rebia realizará no dia 31 de janeiro, das 12h às 18h, uma Oficina sobre Comunicação e Sustentabilidade. A oficina será ministrada pelos jornalistas Fabrício Ângelo, coordenador nacional da Rebia e assessor de comunicação da Rede de Ongs da Mata Atlântica (RMA) e Efraim Neto, coordenador da Rebia Nordeste, moderador da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental (RBJA) e coordenador nacional do Programa TUNZA do PNUMA.

Na oficina serão abordados temas como jornalismo científico, ambiental, juventude e meio ambiente, democratização da informação ambiental, além de outros relacionados com a temática socioambiental.

Segundo Fabrício Ângelo essa é uma grande oportunidade para que as pessoas conheçam a rede e possam debater a comunicação ambiental como um todo. “Hoje a pauta ambiental está em evidência, principalmente nos temas que envolvem mudanças climáticas e Amazônia, e não poderia haver um melhor lugar para essa troca de idéias sobre políticas e ações ambientais do que em um estado privilegiado pela natureza como o Pára”, disse.

Para Efraim Neto, o FSM é caracterizado pela pluralidade e pela diversidade, tendo um caráter não confessional, não governamental e não partidário, se propondo a facilitar a articulação, de forma descentralizada e em rede, de entidades e movimentos engajados em ações concretas, no nível local ao internacional. “Pela primeira vez na Amazônia, não poderia existir cenário melhor para a capacitação e formação em Comunicação e Sustentabilidade”, ressaltou.

A REBIA

O Projeto REBIA – Rede Brasileira de Informações Ambientais é uma iniciativa do Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente, escritor, jornalista e ambientalista Vilmar Sidnei Demamam Berna, em parceria com diversas pessoas e organizações, e tem por objetivo contribuir com a formação da consciência ambiental e mobilização da Sociedade para um mundo melhor, mais ecológico e também mais justo, fraterno, democrático. Usa como ferramenta a democratização da informação ambiental através da REVISTA DO MEIO AMBIENTE, PORTAL DO MEIO AMBIENTE e FÓRUNS REBIA DE DEBATES AMBIENTAIS.

A REBIA é constituída pela articulação e cooperação entre pessoas, ONG’s, instituições e profissionais da comunicação com foco em meio ambiente. A atração e o envolvimento de muitos parceiros para a democratização da informação ambiental o Brasil é de vital importância para o sucesso do projeto REBIA.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Os limites do Capital são os limites da Terra

Por Leonardo Boff
"Uma semana após o estouro da bolha econômico-financeira, no dia 23 de setembro, ocorreu o assim chamado *Earth Overshoot Day* , quer dizer, "o dia da ultrapassagem da Terra". Grandes institutos que acompanham sistematicamente o estado da Terra anunciaram: a partir deste dia o consumo da humanidade ultrapassou em 40% a capacidade de suporte e degeneração do sistema-Terra. Traduzindo: a humanidade está consumindo um planeta inteiro e mais 40% dele que não existe.

O resultado é a manifestação insofismável da insustentabilidade global da Terra e do sistema de produção e consumo imperante. Entramos no vermelho e assim não poderemos continuar porque não temos mais fundos para cobrir nossas dívidas ecológicas. Esta notícia, alarmante e ameaçadora, ganhou apenas algumas linhas na parte internacional dos jornais, ao contrário da outra que até hoje ocupa as manchetes dos meios de comunicação e os principais noticiários de televisão. Lógico, nem poderia ser diferente. O que estrutura as sociedades mundiais, como há muitos anos o analisou Polaniy em seu famoso livro *A Grande Transformação*, não é nem a política nem a ética e muito menos a ecologia, mas unicamente a economia. Tudo virou mercadoria, inclusive a própria Terra. E a economia submeteu a si a política e mandou para o limbo a ética.

Até hoje somos castigados dia a dia a ler mais e mais relatórios e análises da crise econômico-financeira como se somente ela constituisse a realidade realmente existente. Tudo o mais é secundarizado ou silenciado. A discussão dominante se restringe a esta questão: que correções importa fazer para salvar o capitalismo e regular os mercados? Assim poderíamos continuar “as usual” a fazer nossos negócios dentro da lógica própria do capital que é: quanto posso ganhar com o menor investimento possível, no lapso de tempo mais curto e com mais chances de aumentar o meu poder de competição e de acumulação?
Tudo isso tem um preço: a dilapidação da natureza e o esquecimento da solidariedade generacional para com os que virão depois de nós. Eles precisam também satisfazer suas necessidades e habitar um planeta minimamente saudável. Mas esta não é a preocupação nem o discurso dos principais atores econômicos mundiais mesmo da maioria dos Estados, como o brasileiro que, nesta questão, é administrado por analfabetos ecológicos.

Poucos são os que colocam a questão axial: afinal se trata de salvar o sistema ou resolver os problemas da humanidade? Esta é constituída em grande parte por sobreviventes de uma tribulação que não conhece pausa nem fim, provocada exatamente por um sistema econômico e por políticas que beneficiam apenas 20% da humanidade, deixando os demais 80% a comer migalhas ou entregues à sua própria sorte. Curiosamente, as vitimas que são a maioria sequer estão presentes ou representadas nos foros em que se discute o caos econômico atual. E “pour cause”, para o mercado são tidos como zeros econômicos, pois o que produzem e o que consomem é irrelevante para contabilidade geral do sistema.

A crise atual constitui uma oportunidade única de a humanidade parar, pensar, ver onde se cometeram erros, como evitá-los e que rumos novos devemos conjuntamente construir para sair da crise, preservar a natureza e projetar um horizonte de esperança, promissor para toda a comunidade de vida, incluídas as pessoas humanas. Trata-se sem mais nem menos de articular um novo padrão de produção e de consumo com uma repartição mais equânime dos benefícios naturais e tecnológicos, respeitando a capacidade de suporte de cada ecossistema, do conjunto do sistema-Terra e vivendo em harmonia com a natureza.

Milkahil Gorbachev, presidente da Cruz Verde Internacional e um dos principais animadores da Carta da Terra, grupo o qual pertenço, advertiu recentemente: Precisamos de um novo paradigma de civilização porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades. Temos que chegar a um consenso sobre novos valores. Em 30 ou 40 anos a Terra poderá existir sem nós. A busca de um novo paradigma civilizatório é condição de nossa sobrevivência como espécie. Assim como está não podemos continuar. Na última página de seu livro “A era dos extremos” diz enfaticamente Eric Hobsbawm: Nosso mundo corre o risco de explosão e de implosão. Tem de mudar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para a mudança da sociedade é a escuridão.

Importa entender que estamos enredados em quatro grandes crises: duas conjunturais – a econômica e a alimentar – e duas estruturais – a energética e a climática. Todas elas estão interligadas e a solução deve ser includente. Não dá para se ater apenas à questão econômica, como é predominante nos debates atuais. Deve-se começar pelas crises estruturais pois que se não forem bem encaminhadas, tornarão insustentáveis todas as demais.

As crises estruturais, portanto, são as que mais atenção merecem. A crise energética revela que a matriz baseada na energia fóssil que movimenta 80% da máquina produtiva mundial tem dias contados. Ou inventamos energias alternativas ou entraremos em poucos anos num incomensurável colapso. A crise climática possui traços de tragédia. Não estamos indo ao encontro dela. Já estamos dentro dela. A Terra já começou a se aquecer. A roda começou a girar e não há mais como pará-la, apenas diminuir sua velocidade ao minimizar seus efeitos catastróficos e ao adaptar-se a ela. Bilhões e bilhões de dólares devem ser investidos anualmente para estabilizar o clima entorno de 2 a 3 graus Celsius já que seu aquecimento poderá ficar entre 1,6 a 6 graus, o que poderia configurar uma devastação gigantesca da biodiversidade e o holocausto de milhões de seres humanos.

De todas as formas, mesmo mitigado, este aquecimento vai produzir transtornos significativos no equilíbrio climático da Terra e provocar nos próximos anos cerca de 150-200 milhões de refugiados climáticos segundo dados fornecidos pelo atual Presidente da Assembléia Geral da ONU, Miguel d'Escoto, em seu discurso inaugural em meados de outubro de 2008. E estes dificilmente aceitarão o veredicto de morte sobre suas vidas. Romperão fronteiras nacionais, desestabilizando politicamente muitas nações.

Estas duas crises estruturais vão inviabilizar o projeto do capital. Ele partia do falso pressuposto de que a Terra é uma espécie de baú do qual podemos tirar recursos indefinidamente. Hoje ficou claro que a Terra é um planeta pequeno, velho e limitado que não suporta um projeto de exploração ilimitada.

Em 1961 precisávamos de metade da Terra para atender as demandas humanas. Em 1981 empatávamos: precisávamos de um Terra inteira. Em 1995 já ultrapassamos em 10% de sua capacidade de regeneração, mas era ainda suportável. Em 2008 passamos de 40% e a Terra está dando sinais inequívocos de que já não agüenta mais. Se mantivermos o crescimento do PIB mundial entre 2-3% ao ano, em 2050 vamos precisar de duas Terras, o que é impossível. Mas não chegaremos lá. Resta ainda lembrar que entre 1900 quando a humanidade tinha 1,6 bilhões de habitantes e 2008 com 6,7 bilhões, o consumo aumentou 16 vezes. Se os países ricos quisessem generalizar para toda a humanidade o seu bem-estar - cálculos já foram feitos - iríamos precisar de duas Terras iguais a nossa.

A crise de 1929 dava por descontada a sustentabilidade da Terra. A nossa não pode mais contar com este fato e com a abundancia dos recursos naturais. Nenhuma solução meramente econômica da crise pode suprir este déficit da Terra. Não considerar este dado torna a análise manca naquilo que é a determinação fundamental e a nova centralidade.

Tudo isso nos convence de que a crise do capital não é crise cíclica. É crise terminal. Em 300 anos de hegemonia praticamente mundial, esse modo de produção com sua expressão política, o liberalismo, destruiu com sua voracidade desenfreada, as bases que o sustentam: a força de trabalho, substituindo-a pela máquina e a natureza devastando-a a ponto de ela não conseguir, sozinha, se auto-regenerar. Por mais estratagemas que seus ideólogos vindos da tradição marxiana, keneysiana ou outras tentem inventar saídas para este corpo moribundo, elas não serão capazes de reanimá-lo. Suas dores não são de parto de um novo ser, mas dores de um moribundo. Ele não morrerá nem hoje nem amanhã. Possui capacidade de prolongar sua agonia, mas esgotou sua virtualidade de nos oferecer um futuro discernível. Quem o está matando não somos nós, já que não nos cabe matá-lo, mas superá-lo, na boa tradição marxiana bem lembrada por Chico Oliveria em sua lúcida entrevista, mas a própria natureza e a Terra.

Repetimos: os limites do capitalismo são os limites da Terra. Já encostamos nestes limites tanto da Terra quanto do capitalismo. A continuar seremos destruídos por Gaia, pois ela, no processo evolucionário, sempre elimina aquelas espécies que de forma persistente e continuada ameaçam a todas as demais. Nós, homo sapiens e demen”, nos fizemos, na dura expressão do grande biólogo E. Wilson, o Satã da Terra, quando nossa vocação era o de sermos seu cuidador, guardião e anjo bom.

Para onde iremos? Nem o Papa nem o Dalai Lama, nem Barack Obama nem muito menos os economistas nos poderão apontar uma solução. Mas pelo menos podemos indicar uma direção. Se esta estiver certa, o caminho poderá fazer curvas, subir e descer e até conhecer atalhos, esta direção nos levará a uma terra na qual os seres humanos podem ainda viver humanamente e tratar com cuidado, com compaixão e com amor a Terra, Pacha Mama, Nana e nossa Grande Mãe.

Esta direção, como tantos outros já o assinalaram, se assenta nestes cinco eixos:
(1) um uso sustentável, responsável e solidário dos limitados recursos e serviços da natureza;
(2) o valor de uso dos bens deve ter prioridade sobre seu valor de troca;
(3) um controle democrático deve ser construído nas relações sociais, especialmente sobre os mercados e os capitais especulativos;
(4) o ethos mínimo mundial deve nascer do intercâmbio multicultural, dando ênfase à ética do cuidado, da compaixão, da cooperação e da responsabilidade universal;
(5) a espiritualidade, como expressão da singularidade humana e não como monopólio das religiões, deve ser incentivada como uma espécie de aura benfazeja que acompanha a trajetória humana, pois ancora o ser humano e a história numa dimensão para além do espaço e do tempo, conferindo sentido à nossa curta passagem por este pequeno planeta.

Devemos crer, como nos ensinam os cosmólogos contemporâneos, nas virtualidades escondidas naquela energia de fundo da qual tudo provém, que sustenta o universo, que atua por detrás de cada ser e que subjaz a todos os eventos históricos e que permite emergências surpreendentes. É do caos que nasce a nova ordem. Devemos fazer de tudo para que o atual caos não seja destrutivo, mas criativo. “Então sobrevivemos com o mesmo destino da Terra, a única casa comum que temos para morar."

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Plano de energia do governo é uma 'banana' para Copenhagen

Texto que traça planejamento energético do país para 10 anos prioriza fontes sujas de energia, como termelétricas a carvão e óleo diesel.

O governo brasileiro deu uma banana para as negociações que mundo vem fazendo para chegar a um acordo sobre novas e rígidas metas de redução das emissões dos gases do efeito estufa. Às vésperas do Natal, o Ministério das Minas e Energia abriu o Plano Decenal de Energia (2008-2017) para consulta pública, com um texto que vai na contramão de tudo que vem sendo discutido até agora para a construção de um novo acordo climático, a ser finalizado em dezembro de 2009, na reunião da ONU sobre clima, em Copenhangen.

Enquanto o mundo estuda meios de reduzir drasticamente as emissões globais dos gases do efeito estufa, o Plano Decenal de Energia do Brasil prioriza e estimula as fontes sujas de energia, ignora o potencial da eficiência energética e considera a questão socioambiental como mero entrave para o progresso do país. Um desastre total.

O Plano Decenal prevê a construção de 81 usinas termelétricas no país entre 2008 e 2017. O Nordeste, por exemplo, que conta com os melhores regimes de ventos no Brasil, vai receber 55 novas usinas térmicas. Enquanto o Greenpeace discute a geração de uma Itaipu de ventos na região com o Banco do Nordeste, governadores e a comissão de energias renováveis do Congresso, o governo federal promove uma energia cara e suja. Na reunião da ONU sobre clima realizada em Poznan, na Polônia (dezembro de 2008), o Ministério do Meio Ambiente anunciou com pompa e circunstância o Plano Nacional de Mudanças Climáticas com metas de redução de emissões.

Agora, para consumo interno, mostra a sua verdadeira face."Mais uma vez, o governo mostra a esquizofrenia da sua política ambiental. Fez barulho em Poznan com um plano de metas para reduzir o desmatamento e as emissões, mas no Brasil, anuncia às vésperas do Natal um aumento de 172% nas emissões de CO2 no setor termelétrico, um belo presente de grego para os brasileiros”, diz Marcelo Furtado, diretor executivo do Greenpeace. Num primeiro momento, a expansão de usinas termelétricas ocorre no Nordeste, com unidades prioritariamente à base de óleo diesel. Num segundo momento, entre 2014 e 2017, a expansão ocorre na região sul com uma fonte ainda mais poluente – o carvão mineral. O IPCC aponta o ano de 2015 como ano-chave para atingirmos o pico das emissões globais de gases do efeito estufa. A partir deste ponto deveremos reduzir de maneira equitativa essas emissões.

Enquanto o mundo busca converter sua matriz elétrica suja em renovável, o Brasil toma justamente o caminho oposto.O planejamento energético proposto pelo governo em seu Plano Decenal é orientado por uma abordagem ultrapassada e que privilegia o aumento da geração e não a administração da demanda. Ou seja, ignora de maneira espetacular os benefícios da redução do consumo pelo aumento da eficiência energética como troca de lâmpadas incandescentes e outros equipamentos por substitutos com menor consumo. É emblemático o fato de que o plano, em nenhum momento, faz referência à ‘eficiência energética’.

A referência bibliográfica do plano deixa claro que toda a contribuição técnica proporcionada pela sociedade civil na discussão de uma nova matriz elétrica para o Brasil foi ignorada. O plano ignora, por exemplo, o verdadeiro potencial das fontes de energia renováveis modernas no Brasil, como solar e eólica, e minimiza completamente o papel da biomassa e das pequenas centrais hidrelétricas. A participação prevista para a geração a biomassa é de apenas 2,7% e a energia eólica, restrita aos projetos do Proinfa, totaliza apenas 0,9% da matriz elétrica em 2017.

Por outro lado, promove novas (e desnecessárias) usinas hidrelétricas na Amazônia, que têm alto impacto ambiental e consumirão grandes quantidades de recursos financeiros, que poderiam ser melhor aproveitados para a geração de emprego e renda no país, com fontes limpas e sustentáveis. O potencial hidrelétrico a ser instalado na próxima década é estimado em 43.053 MW, dos quais apenas 341,8 MW seriam provenientes de PCHs. O Brasil não precisa de mais hidrelétricas na Amazônia nem de termelétricas em qualquer parte.

O estudo [R]evolução Energética, do Greenpeace, apresenta um cenário para o país em que poderemos atingir uma matriz elétrica com 88% de energias renováveis e índices de eficiência energética de até 30%. Como não bastasse, essa matriz limpa é bilhões de reais mais barata do que a proposta pelo governo. “Momentos de crise são também momentos de oportunidade, e o governo brasileiro deveria estar, a exemplo de outras nações, comprometido com a solução para as mudanças climáticas.

Os novos investimentos para o setor elétrico deveriam ser prioritariamente feitos para promover as energias renováveis, especialmente num país que é privilegiado nesse tipo de fonte energética”, afirma Marcelo Furtado.

Fonte: Greenpeace

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Academia nos EUA recicla energia gerada por clientes

Uma academia de ginástica nos Estados Unidos instalou bicicletas ergométricas que reciclam a energia gerada pelos clientes.

The Green Microgym, em Portland, no Estado americano de Oregon, conectou um gerador às rodas das bicicletas que transforma a energia cinética em elétrica. Ela é depois armazenada em uma bateria que coloca em funcionamento os televisores, esteiras e até um liquidificador que a academia usa para oferecer sucos e vitaminas à clientela.
A tecnologia que permite a geração de eletricidade a partir de aparelhos para ginástica não é nova. Há décadas as pessoas usam dínamos em suas bicicletas para acender as luzes traseira e dianteira.

A academia usa o mesmo princípio, diz Adam Boesel, proprietário do Green Microgym. "Se você pensar em uma academia, quase todos os aparelhos para exercício têm uma roda que gira e, se você pode girar uma roda você pode produzir eletricidade, assim como um moinho produz eletricidade."

A academia se aliou a uma empresa do Texas, Henry Works, que trabalha no desenvolvimento de um artefato chamado Dínamo Humano.

Fonte: BBC Brasil