segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Arroz preto pode ajudar no combate ao câncer


Pesquisadores defendem que grão protege artérias e previne lesões no DNA

por Globo Rural Online

Cultivado na China, mas adorado no Ocidente, o arroz preto pode ser eficiente na prevenção de ataques cardíacos e no combate ao câncer. Cientistas da Louisiana State University analisaram amostras do produto cultivadas no sul dos Estados Unidos e encontraram altos índices de antocianina e antioxidantes .

Também presentes em frutas e vegetais, como o pimentão vermelho, estas substâncias garantem a cor escura do arroz e ajudam na proteção das artérias e previne as lesões no DNA, que desencadeiam o câncer. “Uma colher de arroz preto contém pouco açúcar e ainda é rica em fibras, antioxidantes e vitamina E”, defende o cientista Zhimin Xu.

No passado, o arroz preto era conhecido na China como “arroz proibido” porque aparecia somente nas refeições da nobreza. Hoje, o cereal é comum nas receitas de sushis e sobremesas asiáticas. Zhimin Xu acredita ainda que o grão tem potencial para incrementar bebidas, massas, bolos, bolachas, entre outros.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Farinhas de linhaça e berinjela: contra a obesidade e doenças cardiovasculares


Entre os alimentos considerados saudáveis, a linhaça tem se destacado como auxiliar para redução de peso

Débora Motta, da Agência Faperj

A máxima “você é o que você come” é uma alusão à importância de se adotar uma alimentação saudável para alcançar o bem-estar – apesar de todas as tentações hipercalóricas oferecidas pelas lanchonetes que promovem o estilo fast-food, com seus hambúrgueres e batatas fritas. Nesse contexto, destacam-se os alimentos funcionais, que além de suas funções nutricionais básicas apresentam outras propriedades benéficas, como a melhora do metabolismo e a redução do risco de doenças.

Entre eles, destacam-se as farinhas de berinjela e de linhaça. Longe de ser apenas produtos saudáveis que estão na moda, eles podem ser grandes aliados para combater a obesidade e, de quebra, diminuir o risco de desenvolver doenças cardiovasculares. É o que alguns estudos coordenados pela professora Glorimar Rosa, do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), vêm comprovando, com o apoio do programa Jovem Cientista da FAPERJ.

Farinha de berinjela
Produto ainda pouco comum no mercado, a farinha de berinjela é um dos alimentos que vem apresentando bons resultados nos testes coordenados pela nutricionista. Em um estudo piloto, ela observou os efeitos do alimento em 14 mulheres com mais de 40 anos. Todas tinham fatores de risco cardiovascular, como circunferência da cintura aumentada, hipertensão arterial e altas concentrações de colesterol e de triglicerídeos no sangue.

Essas mulheres foram divididas em dois grupos e eram sedentárias. O grupo controle foi submetido a tratamento nutricional baseado na reeducação alimentar. O outro, além da dieta, passou a consumir duas colheres de sopa diárias de farinha de berinjela. “Depois de dois meses, o grupo que consumiu a farinha perdeu, em média, seis quilos contra o grupo controle, que só perdeu três quilos”, conta Glorimar.

O produto ajudou a reduzir os níveis de colesterol total, triglicerídeos e até o ácido úrico, substância que favorece dores articulares e inflamações quando em concentrações elevadas. Ela destaca ainda que as mulheres que consumiram farinha de berinjela tiveram uma maior redução da gordura visceral, que está frequentemente associada ao desenvolvimento do diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares.

Segundo a pesquisadora, um trunfo da farinha de berinjela é o alto teor de fibras, que ajuda a limitar a concentração de gorduras no sangue e a promover uma sensação de saciedade. “A farinha concentra cerca de dez vezes mais fibras do que a berinjela in natura, o que também ajuda no funcionamento do intestino. Por isso, seu consumo é melhor até do que o consumo do próprio fruto, do suco ou do chá”, completa.

A nutricionista recomenda o consumo de duas colheres de sopa de farinha de berinjela por dia. “Pode-se misturar o pó nos alimentos no momento do dia em que a pessoa normalmente tem mais fome, para ajudar a controlá-la”, diz. Misturar a farinha com iogurte ou com feijão é uma sugestão, mas a escolha do modo de consumir deve seguir o gosto de cada um. No entanto, de acordo com Glorimar, a ingestão da farinha deve ser seguida do consumo de alguma fruta cítrica, fonte de vitamina C. “Isso porque ela estimula a formação de radicais livres, que são neutralizados pela vitamina C”, justifica.

Fonte de fibras, proteínas e ômega-3, a farinha de linhaça é outro alimento funcional conhecido por reduzir as concentrações de colesterol e melhorar o funcionamento intestinal. Para testar esses efeitos, Glorimar vem recorrendo, há dois anos, a uma metodologia semelhante. Ela acompanhou durante 90 dias um grupo maior de voluntárias, dessa vez formado por 220 mulheres com diferentes graus de obesidade. Elas passaram por consultas quinzenais com nutricionistas para avaliação antropométrica e verificação da composição corporal e fizeram coletas de sangue mensais para análise do perfil lipídico, de hormônios e glicemia.

Três tipos de farinhas de linhaça foram testadas: a dourada, a marrom integral e a marrom desengordurada. Segundo a professora, os resultados foram promissores. “A linhaça marrom desengordurada parece ter efeito maior em relação à sensação de saciedade, o que ajuda a diminuir a compulsão alimentar”, diz a nutricionista. “Já a linhaça dourada parece ser mais indicada para reduzir as concentrações de colesterol no sangue, por possuir um teor mais elevado de ácidos graxos poliinsaturados”, completa. Apesar desta constatação, ela abre uma ressalva, pois a linhaça marrom geralmente é mais barata do que a dourada e também apresenta bons resultados na redução de gorduras no sangue.

De acordo com Glorimar, algumas pacientes que aderiram ao uso da farinha de linhaça junto com uma dieta equilibrada conseguiram, sempre com recomendação médica apropriada, reduzir o uso de medicamentos para baixar as taxas de colesterol, para hipertensão arterial, ou mesmo para suspendê-los. “A adesão ao tratamento nutricional com a linhaça foi realmente eficaz para melhorar o perfil lipídico, o que sai muito mais barato para o paciente do que a compra de medicamentos, além de não provocar efeitos colaterais indesejados”, avalia.

Mas uma recomendação é importante no consumo dessas farinhas. “Quem ingere farinhas de linhaça ou de berinjela tem que beber mais água para evitar o efeito de constipação intestinal”. A nutricionista destaca que o consumo da farinha de linhaça é preferível ao consumo dos grãos. “A semente da linhaça não é bem absorvida pelo organismo. Ela deve ser triturada no liquidificador ou pode-se comprar a farinha.”

Glorimar lembra que a farinha de linhaça deve ser guardada em um pote protegido da luz e dentro da geladeira. Já a farinha de berinjela pode ser armazenada em local seco. Os estudos com as farinhas de berinjela e de linhaça ainda estão em andamento na UFRJ e precisam de voluntárias. Mulheres acima do peso interessadas em participar dos testes podem se candidatar pelo e-mail: perdadepeso.ufrj@yahoo.com.br

Outros alimentos para testes
O óleo de peixe também é conhecido por suas propriedades benéficas em relação ao perfil lipídico, ou seja, por reduzir as taxas de colesterol e de triglicerídeos. Ele está sendo testado por Glorimar, que ainda não tem resultados finais em relação aos seus benefícios. Outro alvo dos testes é o ácido linoléico conjugado (CLA), um suplemento alimentar usado de forma indiscriminada nas academias com o objetivo de perder peso. “No caso do óleo de peixe e do CLA, terminamos a coleta de amostras das voluntárias e estamos concluindo as análises laboratoriais e tabulando os resultados”, conta, adiantando que a castanha e o azeite de oliva são outros alimentos funcionais que devem ter seus efeitos testados, no futuro, no Instituto de Nutrição da UFRJ.

Além de Glorimar, que acaba de lançar o livro Dieta da Linhaça (revista Saúde!, Ed. Abril, 160 pág.), participam das pesquisas a professora Claudia Bento, que coordena junto com ela o Centro de Pesquisa e Nutrição Clínica do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), da UFRJ, e as alunas de pós-graduação em nutrição Sofia Uehara, bolsista de doutorado pela FAPERJ, Wânia Monteiro, Graziele Huguenin e Cristine Vogel.

Revisão do IPCC será divulgado no dia 30


Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, conduzido por 12 especialistas, entre os quais Carlos Henrique de Brito Cruz (FAPESP), será divulgado na sede da ONU (IAC)

Da Agência FAPESP 

A revisão dos procedimentos e processos do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), conduzida por um comitê independente de especialistas, será divulgada na próxima segunda-feira (30/8), às 11h (hora de Brasília), na sede da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York.

O documento será entregue pelo InterAcademy Council (IAC), organização que reúne academias de ciências de diversos países e que conduz a revisão, ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, e ao presidente do conselho do IPCC, Rajendra Pachauri.

O relatório, intitulado “Climate change assessments: review of the processes and procedures of the IPCC”, será divulgado em seguida em uma coletiva de imprensa que será transmitida ao vivo pela internet, no endereço: www.un.org/webcast.

O comitê de 12 especialistas responsável pela revisão é coordenado pelo economista Harold Shapiro, ex-reitor das universidades Princeton e de Michigan, nos Estados Unidos. O Brasil está representado no comitê por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da FAPESP.

A revisão do IPCC foi solicitada pelas Nações Unidas. O comitê revisou os procedimentos empregados pelo painel na preparação de seus relatórios. Entre os assuntos analisados estão o controle e a qualidade dos dados utilizados e a forma como os relatórios lidaram com diferentes pontos de vista científicos.

“O que o IAC espera do comitê é uma contribuição especial para que os trabalhos do IPCC tenham a base científica mais sólida possível, o que é fundamental para que as conclusões e projeções tenham cada vez maior legitimidade junto a governos e ao público em geral”, disse Brito Cruz.

Entre os integrantes do comitê de revisão estão Maureen Cropper, ex-economista chefe do Banco Mundial, Mario Molina, ganhador do Nobel de Química em 1995, e Peter Williams, vice-presidente da Royal Society.

Roseanne Diab, diretora da Academia de Ciências da África do Sul, é a vice-presidente do comitê, que teve seus integrantes indicados pelas academias de ciência que fazem parte da IAC.

Não basta ter asas

Cabeças-secas, comuns dos Estados Unidos à Argentina

 Muitos fósseis encontrados na China nos últimos anos estão ajudando a entender melhor como e quando as aves surgiram e começaram a voar. Um dos mais recentes, apresentado em setembro de 2009 na Nature, é o Anchiornis, animal com penas e quatro asas que viveu há cerca de 150 milhões de anos, 10 milhões de anos antes do Archaeopteryx, até agora visto como a ave mais antiga.

O Anchiornis, ao menos até aparecer outro fóssil mais antigo, iniciou a formação de um grupo de animais caracterizados principalmente pela habilidade de voar, às vezes milhares de quilômetros, como as aves migratórias. “Hoje, 90% das espécies de aves voam”, diz o biólogo José Eduardo Bicudo, professor do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo e principal autor do livro Ecological and environmental physiology of birds, publicado em fevereiro pela Universidade de Oxford, Inglaterra. Seus estudos, somados aos de outros especialistas, indicam que as aves conseguiram voar não só porque ganharam asas e penas próprias para o voo, mas também porque adquiriram adaptações fisiológicas que lhes permitem voar durante semanas em altitudes elevadas, onde há pouco oxigênio, bem acima do que o ser humano consegue chegar, a não ser por meio de avião.

“O princípio fisiológico é simples: quanto menos carga levar durante a viagem, melhor”, diz Bicudo. Antes da partida, os músculos que ajudam a voar ganham volume, mas depois atrofiam à medida que a viagem está correndo.

Outra peculiaridade é a eficiência digestiva: “As aves migratórias podem aumentar ou reduzir a produção de enzimas digestivas, se têm muito ou pouco alimento. Se não têm alimento, as células do sistema digestivo morrem e o trato digestório encolhe à metade do volume inicial. Quando acaba o jejum, o estômago, os intestinos e o fígado fazem novas células e voltam ao volume normal”.

Ver aves de rapina planando sobre a cordilheira do Himalaia, a 9 mil metros de altitude, pode ser um belo espetáculo para nós, embora para as aves provavelmente seja desconfortável: em altas altitudes, faz muito frio e a concentração de oxigênio é baixa. “Elas superam as dificuldades por meio da eficiência respiratória”, conta Bicudo.

Em um artigo publicado em 2006 na Integrative and Comparative Biology, Douglas Altshuler, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, e Robert Dudley, do Smithsonian Institute, descrevem os mecanismos fisiológicos que permitem o voo em altitudes elevadas – e vão além dos sacos aéreos, bolsas conectadas aos pulmões e aos ossos que deixam o esqueleto mais leve. Os pulmões das aves extraem quase todo o oxigênio do ar e a hemogloblina delas tem maior capacidade de ligar-se e de desligar-se do oxigênio que a humana.

Conhecidas pelo olhar arguto, as aves podem ter também olfato razoa­velmente apurado. “Muitas espécies de aves marinhas detectam dimetilsulfato, substância gerada por peixes em decomposição, que lhes serve para a navegação e procura de alimentos. Os albatrozes têm um voo relativamente aleatório até encontrar um cardume de peixes que exala dimetilsulfato”, relata Bicudo.

Além do olfato desenvolvido, embora por décadas tenha sido desconsiderado, outro conceito que pode surpreender é que o cérebro de mamíferos e o de aves, mesmo morfologicamente bem diferentes, têm estruturas funcionais equivalentes – uma conclusão que põe por terra a expressão cérebro de galinha para designar pessoas pouco inteligentes. “Os pombos podem memorizar 400 padrões de cores”, argumenta Bicudo. É também por meio do sistema nervoso que as aves detectam o eixo magnético da Terra e identificam o norte ou o sul.

Do deserto ao polo - Essas peculiaridades do voo, que nem os especialistas conheciam até pouco tempo atrás, explicam como as aves se espalharam tanto, ocupando todo o planeta e adaptando-se a ambientes tão diferentes quanto desertos e polos gelados. Esse grupo exibe hoje espécies tão distintas quanto uma harpia, cujas asas abertas podem tomar 2,5 metros, e o canário-da-terra, menor que a mão de um adulto.

Os fósseis mais antigos confirmam que as aves originaram-se dos dinossauros e emergiram nas regiões equatoriais, de baixas latitudes, como a China e o Brasil – embora aqui o solo úmido das florestas não tenha preservado os fósseis. Bicudo acredita que muitas espécies que hoje passam por nosso continente como a águia-pescadora, uma das 33 espécies migratórias já vistas nos cerrados paulistas, se originaram por aqui. Os beija-flores, que ele estuda há anos, exemplificam essa irradiação: a América do Sul abriga cerca de 90 espécies, a América Central não mais de 15 e a América do Norte, cinco ou seis. “O Brasil é um celeiro de beija-flores”, diz ele.

Em 2001, a bióloga Claudia Vianna e ele verificaram que o músculo peitoral do beija-flor-rabo-de-tesoura, que corresponde a um terço do volume corporal, produz uma proteína chamada HmUCP, que permite à ave se reaquecer rapidamente e atingir a temperatura mais confortável num período de 30 a 40 minutos, antes de levantar voo. À noite, depois de um dia de voo incessante, o beija-flor passa por uma brutal queda de temperatura corporal: de 40oC para próximo da temperatura ambiente – às vezes, até 15o C. O drama é o dia seguinte: ao acordar, precisa atingir a temperatura que lhe permita alçar voo e recomeçar a busca por alimento. A partir daí as asas começam a bater em média 700 vezes por minuto, e o coração, 1.400 vezes.

Até esse momento proteínas equivalentes tinham sido identificadas apenas em mamíferos (ver Pesquisa Fapesp nº 69, outubro de 2001). Bicudo e sua equipe não avançaram muito com essa linha de trabalho com os beija-flores, já que conseguir as autorizações para recolher amostras de sangue se mostrou mais difícil do que pegar os animais, mas em 2005 Denise Loli e ele encontraram proteínas semelhantes, que ajudam a esquentar o corpo, em mamangavas do gênero Bombus e em Melipona, uma abelha-indígena sem ferrão, indicando que os animais que voam – aves, insetos e morcegos – podem guardar muitos mecanismos fisiológicos em comum.

Semana de Fotojornalismo

Do USP Online

Empresa Jornalismo Júnior, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, promove a quarta edição da Semana de Fotojornalismo. Neste ano, “Contrastes” será o tema do evento.

O objetivo é promover a troca de conhecimento entre estudantes e profissionais através de palestras, workshops e uma saída fotográfica. Fotógrafos como Cristiano Mascaro, Iatã Cannabrava e João Roberto Ripper foram convidados para ministrar palestras, e os workshops contam com a presença de Adrino Escanhuela, Bete Savioli e da Escola de Fotografia Techimage.

As atividades acontecem de 30 de agosto a 3 de setembro, no Auditório Ariosto Mila da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. As inscrições, gratuitas, podem ser feitas no site do evento, que também disponibiliza os detalhes da programação.

O endereço da FAU é Rua do Lago, 876, Cidade Universitária, São Paulo.

Mais informações: site jornalismojunior.blogspot.com/2010/08/jornalismo-junior-gostaria-de-convida.html

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Amazônia boliviana em fogo lento

O fogo arrasa sem piedade extensas áreas da Amazônia boliviana, enquanto o governo reconhece incapacidade tanto para combater os incêndios, que já superam em quase 340 os registrados em 2009, como para punir os responsáveis. O endurecimento das sanções está entre as opções que o governo estuda, considerando o aumento dos incêndios provocados e castigados por uma legislação que não responde a esta emergência, informou à IPS o chefe de desmatamentos da Autoridade de Fiscalização e Controle Social de Florestas e Terras (ABT), José Luis Osinaga.

Embora os dados indiquem um aumento no número de focos de incêndios, de 1.972 em 2009 para 6.667 este ano, o maior registro de incêndios data de 2005, quando foram contabilizados 8.144, disse à IPS a chefe da Unidade de Previsão do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia (Senamhi), Marisol Portugal.

No ano passado, a ABT abriu 300 processos administrativos contra supostos responsáveis pela queima de florestas e também foram organizados paineis de informação, disse José Luis ao ser consultado sobre as tarefas de prevenção. Nesta época do ano, os agricultores praticam o “chaqueo”, uma forma de preparar a terra para a semeadura mediante a queima de pastagens e mato, que muitas vezes fica descontrolado e é realizado em grandes extensões.

O presidente da Bolívia, Evo Morales, reconheceu a falta de capacidade técnica para combater incêndios florestais e o desejo de adquirir no curto prazo equipamentos e aeronaves adequadas para enfrentar esta emergência. É provável que as punições leves diante do enorme dano ambiental gerado estimulem o “chaqueo”, admitiu José Luis. A regulamentação diz que a multa por superfície total queimada de um terreno é de US$ 0,20. Esta forma de definir a conduta contra o meio ambiente leva a confusões, segundo a autoridade.

Diante desse manejo inadequado de queima de mato, surgiu uma iniciativa parlamentar que tenta frear, por meio de sanções econômicas, os excessos e o descuido dos agricultores na hora de desmatar pelo método tradicional. Até o momento, continua em estudo o texto que modificará a sanção vigente.

As perdas não foram quantificadas, mas só o reflorestamento das áreas devastadas pode exigir cerca de US$ 200 milhões, segundo estimativas do diretor-geral de Gestão e Desenvolvimento Florestal do vice-Ministério do Meio Ambiente, Weimar Becerra. Até o dia 24, 29 dos 38 aeroportos em sete departamentos haviam suspendido operações por falta de visibilidade em uma distância mínima de cinco mil metros.

As avaliações via satélite da organização não governamental Herencia demonstram preocupação por um “desastre de maior grau” no município de Ixiamas, norte do departamento de La Paz, onde se estima que a destruição atingiu cerca de 90 mil hectares de floresta. Na cidade de Cochabamba, a 403 quilômetros de La Paz, um incêndio voraz destroi a natureza do Parque Nacional Tunari, que fica em uma montanha próxima da zona urbana.

As autoridades regionais temem que o fogo tenha começado acidentalmente, embora não seja descartada a possibilidade de uma ação de narcotraficantes que operavam fábricas clandestinas de droga.

A comunidade La Cachuela, do município El Puente, na província de Guarayos do departamento de Santa Cruz, foi declarada zona de desastre após o incêndio que destruiu 27 casas de famílias indígenas, além de floresta e plantação. Com a declaração de desastre, as autoridades municipais esperam obter alimentos e barracas do governo departamental, e uma campanha de solidariedade para reconstruir as casas.

Às margens do Rio Manuripi, no município de Puerto Rico, departamento de Pando, 1.200 hectares de floresta estão em chamas há duas semanas, segundo estimativas do diretor-executivo da Herencia, Juan Fernando Reyes, transmitidas à IPS. O governador de Pando, Luis Flores, informou que dez dos 15 municípios da região sofrem queimadas indiscriminadas, que poderiam ser atribuídas a ações de agricultores que buscam ganhar espaços para plantar.

Em 2005, foram 15 focos de incêndio e 50 mil hectares afetados na Reserva Manuripi. Presume-se que os caçadores de tartaruga de rio (petas) usam fogo para obrigá-las a sair da floresta, disse Juan Fernando. O coordenador de capacitação da não governamental Liga do Meio Ambiente (Lidema), Edwin Alvarado, disse à IPS que as causas dos incêndios florestais podem ser várias, incluindo a mudança climática, já que deixa a vegetação seca e causa escassez de água.

A zona florestal de Pando sofre enormes danos, como a destruição de castanheiras e outras espécies florestais de valor econômico como açaí (Euterpe precatória), seringueira (Hevea brasiliensis) e ubim (Geonoma sp.), além da morte de animais silvestres. “Em um nível maior, estas queimadas emitem grande quantidade de gases, contribuindo para o aquecimento global”, disse Juan Fernando.

A extinção dos incêndios florestais geralmente chega com as chuvas da última semana de agosto e começo de setembro, mas este ano é particular, porque não haverá chuva e as frentes frias serão secas, anunciou Marisol. A fumaça também dissipa com as chuvas da primavera, mas tudo indica que o processo será lento, podendo prolongar-se até outubro, segundo o Senamhi.

A densa fumaceira que cobre grande parte da Amazônia, e que chega até as regiões ocidentais, contribui para elevar a temperatura em até dois graus centígrados. Na Amazônia a média é de 36 graus.

Brasileiros criam plástico vegetal com caroço de manga

Angela Joenck, do Terra

Um grupo de pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia desenvolveu um plástico biodegradável que pode ser empregado em finas membranas utilizadas em processos para purificação de água, tratamento de efluentes e sessões de hemodiálise. O acetato de celulose, mais conhecido como "plástico vegetal", é produzido a partir da camada externa da semente da manga, composta principalmente de fibras, que recobre o embrião do caroço da fruta.

Após constatarem que cerca de 480 mil toneladas de caroços de manga são descartados pelas indústrias de sucos a cada ano, os pesquisadores decidiram investigar a viabilidade do uso deste resíduo, que pode corresponder de 30% a 45% do peso da fruta, dependendo da sua variedade. "Por ser algo descartado pela agroindustria, este material representa uma inovação do ponto de vista da matéria¿prima empregada" diz a pesquisadora do Laboratório de Energias Renováveis e Meio Ambiente da UFU, Rosana Maria Nascimento de Assunção.

O plástico vegetal também revelou seu potencial na confecção de embalagens biodegradáveis, a exemplo dos recipientes onde são colocadas as mudas de plantas cultivadas em viveiros.

Ainda não existem planos imediatos de disponibilizar o produto ao consumidor. Mesmo assim, os pesquisadores acreditam que o acetato de celulose fabricado através do caroço da manga pode ser uma alternativa mais barata se comparada com as membranas usadas atualmente nos processos de filtragem, como no caso da celulose obtida da polpa de madeira. "No nosso estágio de desenvolvimento, ainda é difícil responder com números. Mas podemos dizer que com o emprego de um resíduo descartado e abundante, o preço de produção provavelmente será menor e isto provocará uma diminuição do valor em relação ao produto comercial", falou Assunção.

A pesquisadora lembrou ainda que muitos produtos biodegradáveis são mais caros que os convencionais usados na mesma função, e o incentivo para seu uso é o diferencial ambiental.

Além do caroço da manga, a equipe já produziu acetato de celulose a partir de jornais, bagaço da cana-de-açúcar e agora está trabalhando com a palha de milho. Porém, antes de produzir as películas, é preciso saber em que tipo de aplicação elas serão usadas, já que a porosidade depende do fluxo dos líquidos que elas irão receber. Para controlar o número de poros, diversos sais são adicionados à mistura, auxiliando no processo de filtração.

Outros projetos já estão sendo desenvolvidos a partir da descoberta do "plástico vegetal". Rosana Nascimento de Assunção revelou que os pesquisadores estão produzindo sistemas para incorporação de fármacos e outras espécies bioativas em matrizes miniaturizadas. "Nesta condição, a membrana é capaz transportar o fármaco até seu tecido alvo evitando, se possível, efeitos adversos", disse.

Efeitos das queimadas

Da Agência FAPESP
O Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), da Universidade Estadual Paulista, em Bauru (SP), realizará até o dia 1º de setembro experimentos sobre o impacto de queimadas na atmosfera, na unidade de Ourinhos (SP).

O trabalho, que teve início na última terça-feira (24/8), utiliza equipamentos do instituto, disponíveis nos campi de Bauru e Presidente Prudente (SP), e do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), da Universidade de São Paulo (USP). O grupo fará a varredura de uma área com raio de 450 quilômetros a partir da posição do Laboratório de Monitoramento Ambiental (Lapam).

O IPMet é uma unidade complementar da Unesp apoiada pela FAPESP desde seu início, na década de 1970. A partir de 1982, com auxílio da Fundação, o instituto passou a dispor de um sistema central de processamento para trabalhos de pesquisa, processamento e disseminação de dados e produtos de radar.

O novo estudo, que é coordenado pelo físico e meteorologista Gerhard Held, do IPMet, tem o objetivo de compreender os efeitos das queimadas da palha de cana, como as alterações nas propriedades químicas e físicas da atmosfera.

O experimento utilizará diversos aparelhos do laboratório, como o Light Detection and Ranging (Lidar) – que por meio de feixes de raios laser mede os aerossóis na atmosfera – e o Sonic Detection And Ranging (Sodar), que mede os perfis verticais do vento em três dimensões, por meio da emissão de ondas de som.

Serão utilizadas ainda radiossondas para obtenção de variáveis meteorológicas até 25 quilômetros de altitude, além de amostradores de gases e partículas para atmosfera e cinco estações meteorológicas automáticas.

As queimadas no interior do Estado de São Paulo têm como uma das principais causas a produção sucroalcooleira. Os meses do inverno são mais propícios para a realização dessa pesquisa, por causa da intensificação das queimadas pela colheita de cana-de-açúcar e pela ausência de chuvas que mantêm as partículas em suspensão no ar.

Mais informações: http://www.unesp.br/

Águas da Amazônia

O Grupo de Pesquisa “Amazônia em Transformação: História e Perspectivas” dá início às suas atividades públicas com o seminário Manejo dos Recursos Hídricos da Bacia Amazônica, primeiro de uma série dedicada ao tema, na próxima segunda-feira (30), às 9 horas, no Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

O objetivo do seminário é iniciar intercâmbios e análises sobre o atual manejo dos recursos hídricos da Amazônia. O encontro tem patrocínio da Fundação Bunge e apoio institucional da Fundação para a Pesquisa Ambiental (Fupam).

O evento terá transmissão ao vivo pela internet em www.iea.usp.br/aovivo.

O seminário acontecerá no Auditório Alberto Carvalho da Silva, sede do IEA (R. da Reitoria, 374, térreo, Cidade Universitária, São Paulo). A entrada é gratuita e não há necessidade de inscrição prévia.

Mais informações: (11) 3091-1685 ou (11) 3091-1685, email ineshita@usp.br

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Escola de Engenharia da UFF realiza evento sobre energia e sustentabilidade

A 12ª Semana de Engenharia da Universidade Federal Fluminense (UFF) será promovida de 18 a 21 de outubro, sob o tema “Energia e Sustentabilidade na Engenharia”, com ampla programação que inclui ciclo de palestras, minicursos, seminários e workshops, dentre outras atividades.

Na abertura, a Orquestra de Cordas da Grotas fará uma apresentação, e dentro do evento, a ser realizado na Escola de Engenharia, Rua Passo da Pàtria, 156, Bloco D, São Domingos, Niterói, serão promovidos ainda o 4º Seminário Internacional Urbenviron Niterói 2010, o 5º Festival de Cinema da Engenharia (Engecine) e o 3º Festival de Bandas.

Estão previstas exposições com o veículo Mini-Baja, além da apresentação da Fórmula SAE, Aerodesign, Braço Robótico, Laboratório MídiaCom, UFF Rugby e visitas ao Laboratório Lablux do Departamento de Engenharia Elétrica.

Também haverá lançamentos dos projetos de Coleta Seletiva e Bosque do Servidor – Compensação de Carbono (ambos em desenvolvimento) e o 1º Campeonato de Xadrez da Escola de Engenharia.

A Semana de Engenharia conta com as participações dos projetos Sensibiliza “Café no Escuro” e Desafio Inovação.

Outras informações com a Comissão da Semana de Engenharia pelo telefone 2629-5361, pelo e-mail semenge@engenharia.uff.br ou pelo site www.engenharia.uff.br/semenge.

Áreas das queimadas em 2010 podem superar as de 2007, aponta Instituto Chico Mendes

Da Agência Brasil

O estrago provocado pelas queimadas este ano pode ser maior do que em 2007, quando foi registrado o maior número de incêndios dos últimos cinco anos. Segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), a situação mais crítica ocorre no Tocantins, onde as queimadas já destruíram 216 mil hectares do Parque Nacional do Araguaia. O instituto também considera crítica a situação no sul do Pará e em Rondônia.

“Esse ano, as condições climáticas estão atípicas. Em 2007, pudemos ter tido mais focos de incêndio, mas em 2010 a destruição pode ser bem maior e relevante, porque o fogo está se espalhando muito rápido”, afirmou o coordenador das Unidades de Conservação Nacional do ICMBio, Paulo Carneiro.

As queimadas atingem, ainda no Tocantins, o Parque Nacional das Nascentes do Rio Parnaíba. Essa área, segundo o instituto, é a maior reserva de cerrado preservado no país. “Essa área tem atenção especial, temos equipes trabalhando para conter o fogo, que está aparecendo, mas alguns locais são de difícil acesso”, contou o coordenador.

Segundo Paulo Carneiro, a maioria das queimadas são provocadas por ação criminosa do homem e estão sendo investigadas, para que os culpados sejam punidos. “Os incêndios são causados pela ação criminosa do homem, que coloca fogo para renovar a pastagem e fazer manejo de recurso natural. Estamos fiscalizando e fazendo perícia para que os responsáveis por isso sejam responsabilizados”, disse Paulo Carneiro.

De janeiro a agosto de 2007 foram registrados 59.915 mil focos de incêndios no Brasil. Em 2010, até aqui, foram contabilizados 37.788 focos, sendo a maioria deles em Mato Grosso (3.953), no Pará (2.607) e Tocantins (1.133).

Espécies marinhas transportadas pelos navios ameaçam habitats


Navio cargueiro

A água utilizada pelas embarcações como contrapeso para cargas pode transportar milhares de criaturas para regiões do planeta onde elas se transformam numa grande ameaça para as espécies locais.

Por Marcelo Torres, da Rádio ONU em Londres.*

A Organização Marítima Internacional, OMI e a Comissão do Mar Negro trabalham em conjunto para evitar o perigo da transferência de criaturas marinhas de diferentes regiões do mundo por navios cargueiros.

"A OMI calcula que, todos os anos, entre 3 e 10 bilhões de toneladas de água sejam transferidos entre diversas regiões do planeta por navios cargueiros.

Cargas
A chamada "água de lastro" fica dentro das embarcações e é usada para balancear o peso das cargas, proporcionando uma navegação mais segura.

O problema é que, ao coletar água do mar para usar como contrapeso, os navios também acabam colocando a bordo milhares de criaturas marítimas que se deslocam de um habitat para outro.

Em muitos casos, esse transporte de animais desconhecidos de certas regiões provoca o extermínio de espécies que não estão preparadas para se defender.

Seis Países
O Mar do Norte já sofreu de maneira severa, de acordo com os cientistas que trabalham em conjunto com a OMI. Os ataques às espécies nativas fez diminuir o estoque de peixes do mar.

A organização trabalha em conjunto com seis países banhados pelo Mar do Norte - Rússia, Ucrânia, Bulgária, Romênia, Turquia e Geórgia - para tentar melhorar o controle sobre a água de lastro dos navios."

Um acordo assinado entre a comissão desses países e a OMI também prevê a cooperação para evitar poluição causada por combustíveis e o despejo de lixo nas águas.

Cadastro de unidades de conservação está mais acessível

Lá, serão encontradas respostas sobre números de UCs federais, estaduais e municipais, gerenciamento, visitação, planos de manejo, entre outras informações.


Ana Flora Caminha, do MMA

O que você conhece sobre as unidades de conservação brasileiras? As respostas sobre quantas são, como são gerenciadas, se estão abertas para visitação, se têm plano de manejo, entre outras informações, estão disponíveis no Cadastro Nacional de Unidades de Conservação (Cnuc), um banco de dados com as informações oficiais do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc), que pode ser acessado por meio de consultas personalizadas, relatórios e mapas.

O novo portal do Cadastro, lançado em comemoração aos 10 anos do SNUC e ao Ano Internacional da Biodiversidade, é mantido pelo Ministério do Meio Ambiente com a colaboração do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e de outros 93 órgãos gestores estaduais e municipais.

Para as consultas é possível usar filtros como: categoria de manejo - são 12 categorias de UC; esfera administrativa - federal, estadual ou municipal; unidade da Federação; bioma - Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa, Pantanal e Zona Costeira e Marinha; programas e projetos, entre outros. Os dados são disponibilizados em uma ficha com dados sobre os atos legais que criaram a UC, o bioma em que está situada a unidade, o seu plano de manejo, o órgão gestor, além de informações sobre visitação quando permitida.

É possível também acessar os 14 mapas pré-confeccionados que mostram a distribuição das unidades de conservação nos biomas nas três esferas de gestão, além das áreas prioritárias para a conservação no território brasileiro. A ferramenta utilizada para a construção desses mapas é interativa e permite aos usuários modificá-los conforme as suas necessidades. Uma terceira possibilidade é o acesso às informações por meio de relatórios em texto ou tabela.

As unidades de conservação inscritas no CNUC compõem os dados oficiais sobre o Sistema Nacional de Unidades de Conservação. Hoje existem oficialmente 743 unidades de conservação: 310 federais, 374 estaduais e 59 municipais, o que representa 100% das unidades federais, 60% das estaduais, mas apenas 7% das unidades municipais. A responsabilidade pela inscrição, inserção e atualização dos dados de cada UC é de seus órgãos gestores, cabendo ao MMA, por meio do Departamento de Áreas Protegidas, avaliar os dados para checar se estão de acordo com o Snuc.

O cadastramento das informações, além de essencial na elaboração de análises e balanços oficiais para subsidiar políticas públicas, é peça fundamental para a transformação do Cadastro no portal de conhecimento sobre as UC brasileiras, além de habilitar as UC cadastradas a receber recursos de compensação ambiental (Resolução Conama 371/2007) e apoio dos programas e projetos do MMA, como o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (Arpa) e Projeto Corredores Ecológicos.

Confinamento de gado reduz emissão de gases de efeito estufa

Pecuária é a segunda causa de emissão de gases de efeito estufa no País

Caio Albuquerque, da Assessoria de Comunicação da Esalq

O confinamento de gado bovino de corte na fase de terminação (período próximo ao abate) pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) em 17%, como mostra um estudo apresentado recentemente na Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba. Entretanto, apesar das vantagens ambientais do confinamento, a pesquisa indicou que os benefícios econômicos para o produtor não são tidos como certos.

Os dados estão na dissertação de mestrado do economista Matheus Henrique Scaglia Pacheco de Almeida. O pesquisador avaliou, sob o ponto de vista econômico, o confinamento de animais em fase de terminação em cinco propriedades no Centro-Oeste brasileiro. A pesquisa mostrou que as emissões de GEE passaram de 41 quilos (Kg) de gás carbônico (CO2) equivalente por quilo de carne produzida (kg CO2 eq./kg carne) para 33 kg de CO2 eq./kg carne. “Ficou claro também a redução promovida pela melhora no manejo do rebanho”, aponta.

O economista explica os motivos de os benefícios econômicos não serem tidos como certos: “Entre outros fatores, o produtor dificilmente recebe todo o valor de mercado das emissões evitadas a partir da intensificação das atividades, uma vez que o processo de aprovação das chamadas Reduções Certificadas de Emissão (RCEs) é custoso”, declara. “Portanto, a intensificação da propriedade, por meio do confinamento dos animais em fase de terminação, mostrou-se economicamente inviável para a maioria das propriedades, quando comparadas ao sistema extensivo. Outro ponto que contribui para isso é o condicionamento do produtor à variação constante dos custos de mercado como, por exemplo, o preço da matéria prima da ração animal”, esclarece o pesquisador.

De acordo com o último senso do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2006), o rebanho brasileiro soma cerca de 169,9 milhões de cabeças, espalhadas em mais de 170 milhões de hectares com pastagens. No Brasil, a pecuária bovina se caracteriza pelo sistema extensivo de produção, o que intensifica impactos ambientais como a destruição de biomas como o cerrado e a Amazônia, a degradação do solo e a emissão GEE.

Os gases emitidos por esta atividade são principalmente o metano (CH4), gerado pela fermentação entérica e pelas fezes do animal, e o óxido nitroso (N2O), proveniente das fezes. Em solo brasileiro, esta atividade é a segunda principal emissora de GEE, perdendo apenas para o desmatamento.

O estudo de Almeida apresentou também as mudanças nas emissões de GEE – desde a produção do alimento até o animal estar pronto para o abate – decorrentes do confinamento, de acordo com a metodologia do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Ambiente X economia
Especialistas apontam que uma das formas de mitigar os impactos ambientais da pecuária bovina é a intensificação da produção por meio da melhora da qualidade do alimento fornecido aos animais. No caso particular das emissões de GEE isto ocorre porque melhora o processo ruminal e diminui o tempo de vida do animal.

“No entanto, para produtores do setor, o fato de modificar o sistema, ou seja, promover a intensificação da produção bovina em benefício ambiental não necessariamente significará uma vantagem econômica”, afirma o economista.

A pesquisa de Almeida foi apresentada no último dia 07 de maio ao Programa de Pós-graduação em Economia Aplicada da Esalq sob a orientação do professor Joaquim Bento de Souza Ferreira Filho, do Departamento de Economia, Administração e Sociologia (LES).

Mais informações: (19) 3429-8831 / (19) 3429-8831, com o pesquisador Matheus Almeida.

Fonte: Agência USP

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Incentivos ao biodiesel não melhoram indicadores ambientais

Rosemeire Soares Talamone, do Serviço de Comunicação Social da Coordenadoria do Campus de Ribeirão Preto

Pesquisa da professora Flavia Trentini, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP analisou o Programa Nacional de Produção e Uso de Biodiesel (PNPB) e concluiu que a implantação do Selo Social mostrou-se eficaz para melhorar os indicadores econômicos e sociais dos agricultores, mas por outro lado os indicadores ambientais foram muito tímidos. Segundo Flavia, a presença de cláusula ambiental de responsabilidade dentro do PNPB atua posteriormente à degradação ambiental, portanto é necessária uma revisão dessa questão pelo órgão que concede o Selo Social para o biodiesel.

O estudo avalia o impacto do Selo Combustível Social no PNPB a partir dos indicadores de sustentabilidade econômico, social e ambiental. A pesquisadora utilizou amostras coletadas em dois pólos de produção de matérias primas do biodiesel, em Quixadá (Ceará), e em Cachoeira do Sul (Rio Grande do Sul). “Escolhemos Quixadá em função de a região receber incentivos governamentais e por estarem focados no desenvolvimento de culturas alternativas, sobretudo da mamona, e na geração de renda numa das regiões mais pobres do País”, explica. No Sul, que utiliza a soja para a produção do biodiesel, diz a pesquisadora, a escolha se deu por ser a que mais se sobressai na produção do biocombustível e em 2009, representou 75,4% de toda a produção do Brasil.

A questão econômica foi analisada a partir de dados de geração de renda e de renda complementar e retorno econômico satisfatório. Já o social teve por base a autossuficiência alimentar da família, por meio da diversificação de culturas, incentivo ao processo decisório coletivo e proteção à diversidade cultural. A ambiental focou a proteção de recursos naturais (solo e água) e rotação e consórcio de culturas. “A pesquisa foi qualitativa, com 60 agricultores familiares produtores de oleaginosas destinadas à produção de biodiesel, a escolha dos agricultores participantes foi intencional e não probabilístico”, diz a pesquisadora.

No Ceará, o perfil dos agricultores que fizeram parte da amostra é de homens, com mais de 40 anos, analfabetos, assentados pelo Programa Nacional de Reforma Agrária e com experiência de mais de 10 anos na agricultura. As propriedades têm tamanho médio de 23,69 hectares, mas a área destinada ao plantio da mamona não ultrapassa a 2,18 hectares. No Sul são homens, com mais de 30 anos de idade, alfabetizados, mas 68% não completaram o primeiro grau, 83% são proprietários e arrendatários das propriedades, e com experiência também de mais de 10 anos na agricultura. O tamanho das propriedades no Sul é quase três vezes maior que do Ceará, 61,10 hectares, e a área destinada ao plantio da soja não passa de 44,33%. Para a pesquisa nos dois locais também foram entrevistados representantes de empresas envolvidas na produção, associações de classe e órgãos do governo.

Renda
Na questão da renda, a pesquisadora observou que até a introdução do PNPB no Nordeste, a agricultura era de subsistência, com o cultivo de milho e feijão. Portanto, com a inserção da mamona foi criada uma nova fonte de renda, mas toda aplicada na subsistência alimentar. No Sul, também a renda vem do cultivo de duas espécies, plantadas em épocas distintas, soja e arroz, mas são destinadas ao mercado, como mais uma alternativa de fonte de renda. Mesmo sendo mais uma fonte de renda nas duas regiões, o destino dos recursos gerados também se diferencia. “Enquanto no Sul eles cresceram para todos os agricultores, no Nordeste 40% disse que cresceu, para 35% foi mantida, resultado de perda parcial ou total da produção em função das condições climáticas, e para 10% os recursos diminuíram”.

"Com relação à aplicação da renda resultante da venda da mamona e da soja o questionamento também apresentou diferenças”, diz a pesquisadora. Enquanto no Sul a resposta foi de investimento na propriedade, compra de bens imóveis e pagamento de dívidas, no Nordeste, onde a venda da mamona aparece como única fonte de renda, a preocupação foi com a melhoria na alimentação. Quanto à diversificação da cultura, ela cumpre o indicador econômico de ingresso de renda de outras atividades. “No Sul, ela está atrelada ao mercado e, no Nordeste, como meio de segurança alimentar e subsistência dos agricultores”, aponta Trentini.

Ambiente
Os indicadores ambientais foram analisados sob o aspecto do meio ambiente natural, aquele que existe independente da influência do homem, como, por exemplo, água, flora, fauna e solo. A preocupação nesse aspecto foi com a rotação de culturas, que se agrega ao uso de corretivos no solo como fatores de proteção. No Sul, 70% dos agricultores responderam que utilizam corretivos, enquanto no Nordeste esse índice é de 58%. Por outro lado a rotação de culturas em alguns locais das duas regiões é feita por meio de consórcios, mas algumas das culturas não são indicadas para a proteção e conservação do solo.

Os agricultores das duas regiões foram questionados sobre a existência de área não cultivada e destinada à preservação da vegetação, como reservas legais e de preservação permanente. Enquanto no Sertão Central do Ceará 64% dos agricultores responderam que possuem área não destinada ao cultivo, no Centro do Rio Grande do Sul, 80% dos entrevistados deixam de produzir em uma área determinada. No Nordeste, dois fatores chamaram a atenção da pesquisadora. “A expressiva área destinada à reserva legal é resultado da forma de aquisição da propriedade”, explica. ” Os entrevistados são assentados no Programa Nacional de Reforma Agrária, que obriga a averbação da área de reserva legal. Também a falta de maquinário para trabalhar a terra pode explicar esse índice”.

Outro fato que despertou a atenção foram as condições dos recursos hídricos. No Nordeste, 91% não despejam qualquer tipo de dejetos nos rios, riachos, olhos d’água, enquanto no Sul esse percentual é de 75%. O dado não esperado, segundo a pesquisadora foi a afirmação de separação dos resíduos orgânicos e inorgânicos por 73% dos agricultores da região Sul, que conta com coleta seletiva rural.

O estudo da professora Flavia faz parte do trabalho de pós-doutorado apresentado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, em São Paulo, com orientação da professora Maria Sylvia Macchione Saes. A pesquisa também integra a obra “Ensaios sobre Biocombustíveis”, volume 2, que será lançada em 13 de setembro durante o Workshop “Biocombustíveis e Sustentabilidade”, realizado na FDRP. Maiores informações sobre o evento podem ser consultadas no site da Faculdade.

Mais informações: (16) 3602-4949 / (16) 3602-4949, com Flavia Trentini, e-mail trentini@usp.br

Fonte: Agência USP de notícias

Meio Ambiente de Búzios inicia demarcação do Parque dos Corais

Segundo publicado pela assessoria de comunicação da Prefeitura de Búzios, nesta terça-feira (24), a Secretaria de Meio Ambiente e Pesca de Búzios inicia a demarcação do Parque dos Corais. A partir das 9h00, uma equipe de técnicos irá instalar poitas e bóias de sinalização nos limites da área relativa ao parque, no núcleo situado na Orla Bardot. O trabalho conta com a orientação e apoio dos pesquisadores do Projeto Coral Vivo.

De acordo com a secretária de Meio Ambiente e Pesca, Adriana Saad, serão instaladas um total de 14 bóias grandes nos limites do parque e 20 bóias pequenas nos locais onde se concentram os corais.

- O trabalho de demarcação só deve ser concluído na semana que vem. Dia 30 também daremos início à formação do Conselho Consultivo do Parque dos Corais. Receberemos pesquisadores do Museu Nacional e da UFF, para orientação deste processo junto com a secretaria. A demarcação e a criação do conselho são passos decisivos para a constituição plena do parque e sua total proteção – declarou a secretária.

Com área total de aproximadamente 56 ha, o Parque dos Corais está dividido em três grandes núcleos (Núcleo João Fernandes, Núcleo Tartaruga e Núcleo Bardot), onde ocorrem as principais comunidades coralíneas em torno da península de Búzios.

Pragas controladas sem impacto ambiental

Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia reúne instituições de cinco estados para desenvolver meios de controle de pragas que sejam eficientes e possam substituir substâncias sintéticas (foto: divulgação)

Por Fabio Reynol,  da Agência FAPESP

A aplicação de inseticidas pode resolver a incidência de doenças em uma determinada lavoura, mas traz uma série de efeitos colaterais indesejáveis. Eliminar o inseto transmissor pode afetar a reprodução de outras espécies vegetais que dependem dele para a polinização. Além disso, resquícios dos químicos empregados aderem à planta e podem contaminar a alimentação humana, bem como rios e outros corpos d'água.

A preocupação com essas questões fez surgir o conceito de controle biorracional de pragas, uma maneira de controlar o desenvolvimento de insetos sem exterminá-los com o uso de produtos naturais e seus derivados, procurando minimizar os impactos ambientais.

No Brasil, oito unidades de pesquisa de cinco estados se uniram para formar o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) de Controle Biorracional de Insetos Pragas, com a proposta de desenvolver soluções de diversos problemas que atingem as plantações brasileiras.

A Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), a Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), campus de Rio Claro, e a Universidade de São Paulo (USP), com seus campi de Ribeirão Preto e da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, são as quatro unidades paulistas que integram o instituto e recebem apoio da FAPESP e do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) por meio da modalidade Temático-INCT.

O INCT também é integrado pelas universidades federais do Paraná e de Sergipe e por duas unidades da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac): a Estação Experimental Sósthenes de Miranda, em São Sebastião do Passé (BA), e a Superintendência da Amazônia Oriental, em Belém (PA).

Uma das vantagens de utilizar compostos naturais no controle de pragas é retirar substâncias tóxicas dos processos ecológicos. “A probabilidade de uma substância natural apresentar toxicidade a um inseto é pequena. Ela pode inibir o desenvolvimento de um determinado inseto, por exemplo, e isso poupa de produtos tóxicos o animal, o meio ambiente e o próprio ser humano, que consumirá alimentos vindos daquela planta”, disse a coordenadora do INCT, Maria de Fátima das Graças Fernandes da Silva, professora do Departamento de Química da UFSCar, à Agência FAPESP.

Por serem mais familiares ao organismo, as substâncias naturais são metabolizadas mais facilmente, enquanto os produtos sintéticos podem acabar se acumulando. Isso ocorre porque os produtos de origem natural fazem parte de um processo de coevolução entre a planta e o inseto. No caso da aplicação de um inseticida sintético, a probabilidade dessa interação é bem menor.

As fontes de substâncias naturais não são somente as plantas, mas também fungos e bactérias, e o trabalho de pesquisa também envolve os mecanismos de interação entre insetos e plantas. “É preciso entender por que o inseto vai até a planta, por que ele carrega a bactéria e por que essa bactéria se desenvolve bem no vegetal, provocando doença”, disse Maria de Fátima.

Uma abordagem como essa foi feita para entender a propagação da Xylella fastidiosa, bactéria causadora da clorose variegada de citros, popularmente conhecida como praga do amarelinho, e cujo vetor são pequenas cigarras da família Cicadellidae.

“Ao entender a interação química entre bactéria e planta, podemos desenvolver um metabólito que iniba a proliferação do patógeno no vegetal ou ainda buscar uma substância que controle a proliferação do inseto vetor”, explicou Maria de Fátima.

O controle dos insetos é ambientalmente mais interessante do que a sua eliminação completa, de acordo com a pesquisadora, pois ele pode ser o vetor de uma doença para uma determinada planta e ao mesmo tempo o polinizador de outra. Portanto, eliminá-lo resultaria em perdas ambientais maiores na região em que o inseto desaparecesse.

Formigas famintas
Outro braço dessa pesquisa investiga a formiga-cortadeira (Atta sexdens rubropilosa), considerada praga de vários tipos de plantas. Para abordar o problema, a equipe da Unesp de Rio Claro estuda o comportamento social desses insetos e o grupo da UFSCar analisa os processos químicos envolvidos.

Uma das abordagens envolve um ataque indireto. Em vez de atingir as próprias formigas, uma substância desenvolvida no projeto elimina os fungos das quais elas se alimentam.

As formigas cortam as folhas das plantas e as levam para um compartimento do formigueiro. Nele, as folhas alimentam uma colônia de fungos que, por sua vez, alimenta toda a comunidade de insetos.

O produto desenvolvido na pesquisa pode ser aplicado sobre a planta ou sobre o solo e é absorvido pelo vegetal e se mistura à seiva, espalhando-se por toda a sua estrutura. O produto que fica nas folhas é recolhido pela formiga e, uma vez no formigueiro, inibe a proliferação do fungo.

Sem alimento suficiente, a colônia de insetos abandona a área deixando aquela plantação. “Eliminar completamente a formiga não seria interessante, pois elas realizam funções importantes como a aeração do solo”, explicou Maria de Fátima.

A pesquisadora conta que foram desenvolvidos no âmbito do INCT dois produtos para combater a Xylella fastidiosa e um para o controle da formiga-cortadeira, que já despertaram o interesse de duas empresas. Os produtos deverão ser patenteados e comercializados.

Algumas dessas sustâncias são envolvidas em cápsulas de escala nanométrica. Esse encapsulamento imprime uma estabilidade muito maior ao princípio ativo, que dura mais e tem sua eficácia aumentada. Isso permite que ele seja aplicado em uma quantidade menor, gerando economia ao produtor agrícola.

Resistência dos produtores
O INCT de Controle Biorracional de Insetos Pragas também está colaborando com a eliminação de uma doença que atinge o mogno africano (Khaya ivorensis). Essa espécie fornecedora de madeira foi importada com o intuito de substituir o mogno brasileiro (Swietenia macrophylla), alvo da lagarta da mariposa Hypsipyla grandela.

Entretanto, embora resistente à mariposa, o mogno africano começou a ser alvo de um fungo que atinge o seu tronco e o deforma, inutilizando a parte comercialmente mais valiosa da planta. O trabalho conjunto com a Ceplac do Pará objetiva encontrar uma solução para o problema.

A pesquisa foca ainda em diversos tipos de lagartas que atacam lavouras. Estão em testes substâncias naturais que inibem o desenvolvimento de suas larvas ou que produzam insetos incapazes de atingir uma plantação.

Embora ambientalmente mais saudável, o controle biorracional de pragas enfrenta um grande obstáculo para sua aplicação: a resistência dos produtores rurais.

“Esse é o maior obstáculo, não apenas no Brasil, mas em diversos outros países. Muitos produtores consideram mais fácil a aplicação de inseticidas e a eliminação completa do inseto causador do problema, ainda que ele seja importante para outras plantas e culturas”, lamentou Maria de Fátima.

INCT de Controle Biorracional de Insetos Pragas: http://www.cbip.ufscar.br/

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Saneamento acessível

Pesquisa feita no Instituto de Geociências da USP desenvolve fossa séptica mais eficiente e de menor custo do que as convencionais (Foto: Divulgação)

Por Fabio Reynol,  da Agência FAPESP 
A grande maioria das cidades brasileiras sofre, em maior ou menor grau, de contaminação por nitrogênio, particularmente de nitrato. As zonas rurais são contaminadas por causa do uso excessivo de fertilizantes e os solos urbanos recebem nitrogênio principalmente de fossas sanitárias ou mesmo de redes de esgoto sem manutenção ou mal projetadas.

Esse problema levou o grupo de pesquisa do Laboratório de Modelos Físicos do Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (IG-USP) a desenvolver uma fossa séptica que fosse mais eficiente e, ao mesmo tempo, acessível às populações mais pobres, que dependem principalmente desse tipo de saneamento.

O projeto Minimização dos Impactos dos Sistemas de Saneamento (Minisis), apoiado pela FAPESP por meio da modalidade Auxílio à Pesquisa – Regular, analisou o problema de maneira ampla e resultou em uma série de contribuições ao sistema de saneamento por fossas sépticas.

“As fossas convencionais são bastante eficientes em degradar matéria orgânica infiltrada no solo, mas o seu rendimento é limitado para nutrientes, como o nitrogênio”, disse Ricardo Hirata, professor do IG-USP e coordenador do projeto. O resultado é a contaminação do ambiente por microrganismos e por nitrato (NO3), uma das formas que se apresenta o nitrogênio no ambiente e que é muito estável e móvel e pode permanecer por décadas nas águas subterrâneas.

A dificuldade de degradação do nitrato, aliada ao fato de derivar de uma fonte crescente, os dejetos humanos, fazem dele o contaminante mais abundante do planeta nas águas subterrâneas. “O nitrato não é o contaminante mais agressivo, mas com certeza é o mais comum e o que se apresenta em maior volume nos reservatórios de água subterrânea, os aquíferos”, disse.

O problema aumenta com o crescimento das cidades, cujas redes de coleta de esgoto nunca crescem na mesma proporção. O resultado é a permanência de nitrato no ambiente por períodos que podem chegar a centenas de anos.

O nitrato permanece nos lençóis freáticos e volta à população com a captação de água por poços ou nascentes, configurando-se em um grande problema de saúde pública. “Um dos mais sérios casos de contaminação é o da cidade de Natal (RN), cuja população consome água encanada com nitrato”, disse Hirata.

Em São Paulo, a situação também requer atenção, segundo o pesquisador, pois 75% dos municípios paulistas são abastecidos total ou parcialmente pela água que vem de fontes subterrâneas, muitas dessas vulneráveis à contaminação por fossas.

Sem condições financeiras de construir uma estrutura apropriada, muitos moradores cavam buracos simples no solo e que, frequentemente, encontram o nível freático. Esse recurso, chamado de “fossa negra”, é ainda mais nocivo ao ambiente, pois injeta o contaminante diretamente na água subterrânea, sem que nenhuma forma de redução do contaminante possa ocorrer no solo, onde se processa a maior parte da transformação bioquímica dessas substâncias nocivas, segundo o professor.

Desenvolvimento no local
Para desenvolver o novo modelo de fossa, o grupo da USP precisava de uma comunidade que não fosse atendida pela rede de esgoto. O bairro de Santo Antônio, no distrito de Parelheiros, zona sul de São Paulo, foi o escolhido.

Os pesquisadores acompanharam o desempenho de duas fossas pertencentes a moradores vizinhos. Uma delas, a fossa controle, era do tipo negro convencional. A segunda foi construída na casa ao lado segundo a tecnologia desenvolvida pelo grupo.

A fossa projetada pelos pesquisadores tem dois níveis. O primeiro é formado por óxidos de cálcio e de ferro, um rejeito da indústria siderúrgica com propriedades bactericidas. “Por ter um pH muito alto, próximo de 12, esse material consegue degradar vírus e bactérias com alta eficiência”, explicou Hirata.

Para o experimento a equipe conseguiu trazer escória do porto capixaba de Tubarão, que possui grande fluxo de exportações de minério de ferro. Após passar pela camada mineral, o líquido efluente percola para a segunda barreira reativa, composta por areia e serragem da madeira cedrinho. Os cavacos de madeira, que fornecem carbono ao meio por respiração aeróbica, consomem o oxigênio e propiciam que o nitrato seja reduzido bioquimicamente a um gás de nitrogênio.

O projeto foi bem-sucedido e a primeira camada eliminou 95% dos vírus e bactérias presentes. Já a barreira de serragem e areia degradou com eficiência 60% do nitrato encontrado, mas Hirata aponta que o conhecimento alcançado no experimento permite melhorar esse número para 80%.

A degradação do nitrato no novo sistema foi tema da tese de doutorado de Alexandra Vieira Suhogusoff, defendida este ano. A aluna foi orientada por Hirata e teve apoio FAPESP por meio de uma Bolsa de Doutorado Direto.

A redução dos microrganismos obtida na primeira camada da fossa rendeu a tese de doutorado de Jesse Stimson, da Universidade de Waterloo, no Canadá, instituição que colaborou com o projeto de pesquisa.

O trabalho ainda contou com equipamentos de monitoramento para controlar a quantidade de material lançado em cada fossa e permitir a retirada de amostras. Os resultados obtidos foram usados para construir modelos numéricos que indicaram a possibilidade de se repensar a ocupação urbana sem rede de esgoto, permitindo aumentar o número de fossas sem implicar contaminações das águas subterrâneas ou mesmo superficial.

“Como ela é mais eficiente, podemos aumentar em até 60% a densidade de fossas em um bairro, comparativamente à capacidade de suporte com uso de técnicas convencionais”, afirmou Hirata, ressaltando que o custo da obra é bem acessível, embora não tenha estimado o valor exato.

Outra vantagem é que a construção da nova fossa não exige treinamento específico de profissionais. “Qualquer pedreiro familiarizado com obras de poços é capaz de construir o novo modelo”, disse. Isso permite que seja utilizada mão de obra local, mais acessível financeiramente.

Poços mais seguros
Outro resultado do projeto foi o desenvolvimento de uma metodologia para avaliação sanitária de poços de água. Trata-se de um questionário simples com dez perguntas objetivas que exigem respostas simples de “sim” ou “não”, como “há criação de animais próxima ao poço?”, “o poço possui trincas na parede interna?” e “a água que sai da cozinha passa a menos de 10 metros do poço?”

Com ele, um agente de saúde pode fazer um levantamento da qualidade da água consumida em um bairro, uma vez que a qualidade do poço é estimada a partir do número de respostas positivas recebidas.

“É um modo simples de municiar os órgãos de saúde pública na importante questão do consumo de água na área periférica de cidades”, sugeriu Hirata, que alertou para o fato de a população não possuir parâmetros objetivos para avaliar a água de seus poços.

“Para muitos, a água cristalina e fresca é sinônimo de água potável e, como as doenças provocadas pela contaminação aparecem esporadicamente, eles não associam essas doenças à qualidade da água”, apontou. O questionário foi adaptado de uma metodologia desenvolvida na Inglaterra e aplicada com sucesso em alguns países africanos.

Segundo o professor do Instituto de Geociências da USP, a fossa e o questionário desenvolvidos nessa pesquisa são soluções baratas e que podem ajudar especialmente as áreas mais afastadas e carentes enquanto não recebem rede de esgoto.

“O ideal seria que todos tivessem coleta de esgoto, porém, como nossa experiência mostra que a área de saneamento não costuma contar com muitos recursos, essas soluções poderiam amenizar muito a contaminação da água e reduzir os problemas de saúde da população”, disse Hirata.

Plantas crescem menos com aquecimento global

Ao contrário do que se estimava, elevação nas temperaturas tem reduzido a produtividade nas plantas, segundo análise dos últimos dez anos feita a partir de dados de satélite (Nasa)

Da Agência FAPESP
O aquecimento global não tem feito as plantas crescerem mais, como se estimava, mas sim menos. Segundo um estudo publicado na revista Science, a produtividade dos vegetais tem decaído em todo o mundo.

Até então, achava-se que as temperaturas constantemente mais elevadas estariam estimulando o crescimento das plantas, mas a nova pesquisa, feita com dados de satélites da Nasa, a agência espacial norte-americana, aponta o contrário.

O motivo são as secas regionais, indica o estudo feito por Maosheng Zhao e Steven Running, da Universidade de Montana, segundo o qual a tendência na produtividade já dura uma década.

A produtividade é uma medida da taxa do processo de fotossíntese que as plantas verdes usam para converter energia solar, dióxido de carbono e água em açúcar, oxigênio e no próprio tecido vegetal.

O declínio observado na última década foi de 1%. Parece pouco, mas, de acordo com os autores da pesquisa, é um sinal alarmante devido ao impacto potencial na produção de alimentos e de biocombustíveis e no ciclo global do carbono.

“Os resultados do estudo são, além de surpreendentes, significativos no nível político, uma vez que interpretações anteriores indicaram que o aquecimento global estaria ajudando no crescimento das plantas mundialmente”, disse Running.

Em 2003, outro artigo publicado na Science, de Ramakrishna Nemani, do Centro de Pesquisa Ames, da Nasa, e colegas, havia apontado um aumento de 6% na produtividade global de plantas terrestres entre 1982 e 1999.

O aumento foi justificado por condições favoráveis na temperatura, radiação solar e disponibilidade de água, influenciados pelo aquecimento global, que seriam favoráveis ao crescimento vegetal.

Zhao e Running decidiram fazer novo estudo, a partir de dados da última década reunidos pelo satélite Terra, lançado em 1999. Os cientistas esperavam pela continuidade da tendência anterior, mas verificaram que o impacto negativo das secas regionais superou a influência positiva de uma estação de crescimento mais longa, o que levou ao declínio na produtividade.

Segundo o estudo, embora as temperaturas mais elevadas continuem a aumentar a produtividade em algumas áreas e latitudes mais altas, nas florestas tropicais, responsáveis por grande parte da matéria vegetal terrestre, a elevação nas temperaturas tem diminuido a produtividade, devido ao estresse hídrico e à respiração vegetal, que retorna carbono à atmosfera.

O artigo Drought-Induced Reduction in Global Terrestrial Net Primary Production from 2000 Through 2009 (doi:10.1126/science.1192666), de Maosheng Zhao e Steven Running, pode ser lido por assinantes da Science em http://www.sciencemag.org/.

Crianças debatem protagonismo e cidadania no TEDxVilaMadá desta quinta (26 de agosto)

A Fundação SOS Mata Atlântica está apoiando a próxima edição do TEDxVilaMadá, que tem como tema "Nossas Crianças - espalhando o valor de suas ideias e ideais" e acontece nesta quinta-feira (26 de agosto) às 18h, no Teatro da Vila, no bairro da Vila Madalena, em São Paulo. O evento reúne legítimos representantes do protagonismo infantil em diversas áreas e aborda o universo, os ideais e conquistas dos atores-mirins, a partir do olhar das próprias crianças convidadas como palestrantes , com a participação de um adulto.

Estarão em pauta temas como cidadania, solidariedade, protagonismo infantil e meio ambiente, esse último a partir das experiências da palestrante Maria Victoria, de 11 anos, defensora da Mata Atlântica na cidade de Embu (SP). Além da SOS Mata Atlântica, apoiam a iniciativa: Doutores da Alegria, Fábrica de Criatividade e UNICEF. Conduzido pelo curador do TEDxVilaMadá, Mauricio Curi, o evento contará também com algumas apresentações culturais. Para participar do evento e ter mais informações sobre os palestrantes e a programação, acesse: www.tedxvilamada.com.br. Essa edição do TedxVilaMadá também será transmitida ao vivo na Conexão Mata Atlântica.