quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Livro fotográfico registra luta em defesa do Velho Chico

Por Michelle Amaral, da Brasil de Fato
O fotógrafo João Zinclar lançará em Campinas (SP), na próxima sexta-feira (12), o livro “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”. O trabalho é resultado de um ensaio fotográfico realizado entre 2005 e 2010.
 Durante os cinco anos, o fotógrafo percorreu as margens do São Francisco em oito estados e registrou a cultura do povo ribeirinho e sua luta em defesa do rio.
 Em entrevista ao Brasil de Fato, Zinclar contou que a ideia de realizar o ensaio fotográfico surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações contrárias à decisão do governo federal de realizar a transposição das águas do rio. “Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do Velho Chico”, conta.
 O fotógrafo afirma que, apesar do início das obras, o conflito em torno do projeto da transposição continua. “É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros”, explica. Nesse sentido, ele acredita que o livro possa contribuir no debate e luta em defesa do rio. “Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região”, resume.
 O lançamento da obra será acompanhado do debate “Água: Direito ou Mercadoria?”, que contará com a presença do diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), Vicente Andreu Guillo, e assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da Articulação Popular São Francisco Vivo, Terra, Água, Rio e Povo, Roberto Malvezzi, o Gogó.
Confira entrevista a seguir.
Como nasceu a idéia de produção do livro fotográfico?
João Zinclar: Esse livro é a conclusão de um ensaio fotográfico que vem sendo realizado desde 2005 até hoje no rio São Francisco e no sertão nordestino. É uma obra coletiva, pois contou com a valiosa contribuição de várias pessoas amigas, que escreveram textos que enriqueceram a publicação. A ideia de fotografar essa pauta surgiu com a intensificação das discussões e mobilizações do povo ribeirinho e dos movimentos sociais contrários à polêmica e equivocada decisão do governo federal de fazer a transposição das águas do São Francisco. Senti necessidade e vontade política de contribuir nesse debate através da fotografia, nesse cenário de conflitos em torno do uso e controle das águas do velho Chico. Antes de virar livro, essas fotos já foram expostas em vários lugares, serviram para estimular debates e ilustrar varias reportagens sobre a transposição, principalmente as realizadas pelo Brasil de Fato ao longo desses cinco anos. Esse livro é parte, expressão e identificação com aquele povo em defesa do rio e na luta pela terra naquela região.
Você poderia falar da experiência vivida no período em que percorreu o Rio São Francisco?
Conhecer melhor aquele povo, suas aspirações, sua cultura e suas lutas foi uma experiência rica em fundamentos. O contato e a interação nas beiradas do rio São Francisco com os povos tradicionais, indígenas, quilombolas, pescadores ribeirinhos, trabalhadores camponeses sem terra, pequenos agricultores, vazanteiros, em sua lutas por terra e água, fizeram ampliar meu entendimento sobre a luta de classes no Brasil. À sua maneira, esse povo contribui na linha de frente no conflito com o capital, resistindo e procurando construir alternativas à nova fase do avanço do agronegocio no campo e do capitalismo no Brasil.
Quais dificuldades você enfrentou no período de produção da obra?
Fui assaltado na estrada em Cabrobó (PE), juntamente com o jornalista e amigo Flaldemir Sant’ana. Sofri ameaças de morte fotografando carvoarias em Buritirama (BA). Tirando esses fatos indesejáveis, na verdade, não encontrei muita dificuldade, pois contei com apoios logísticos importantes de sindicatos de trabalhadores e pessoas amigas de Campinas (SP), cidade onde moro, e principalmente com a receptividade política, o desprendimento e a solidariedade ativa do povo lutador da bacia hidrográfica do Rio São Francisco e do sertão nordestino. Veio desse povo e de suas organizações políticas, sociais e pastorais, todo apoio necessário com transporte, alimentação e hospedagem, contatos e informações valiosas que ajudaram a compreender realidades pelos caminhos do velho Chico. Sem essa solidariedade seria impossível percorrer diversas vezes, os mais de 10 mil quilômetros rodados em 8 estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará) desde 2005.
O lançamento do livro será feito juntamente com um debate sobre a questão das águas no Brasil. Nesse contexto, qual a importância do livro?
Penso que os conflitos em torno da defesa, do uso e do controle sobre as águas têm importância estratégica nas lutas dos trabalhadores e dos povos no mundo. Isso não é diferente no Brasil. Esta questão expõe as contradições do sistema, baseado na exploração do trabalho e na transformação de tudo e todos em mercadorias que só têm valor se apropriadas privadamente. As riquezas naturais só são riquezas no capitalismo se pertencerem a alguém. Portanto, a água, a terra, a floresta, os vários biomas e seus recursos só têm valor se transformados em bens e serviços para venda. Assim, a luta necessária para garantir acesso de bens comuns a todos assume caráter de confronto anti-imperialista e anti-capitalista, extrapolando o caráter meramente ambientalista. “A guerra pela água em Cochabamba” na Bolívia, onde o povo boliviano rebelou-se contra a privatização da água naquela cidade por uma empresa estrangeira, e a luta contra a transposição do rio São Francisco no Brasil são provas cabais disso. Apesar da concretização do inicio das obras, entendo que o conflito e a controvérsia em torno do projeto de transposição continuam. É uma questão mal resolvida e que pode ter desdobramentos futuros. Creio que esse livro se insere nesse contexto.
SERVIÇO:
Lançamento do livro fotográfico “O Rio São Francisco e as Águas no Sertão”, de João Zinclar, e debate “Água: Direito ou Mercadoria?
Participação: Vicente Andreu Guillo, diretor-presidente da Agência Nacional das Águas (ANA), e Roberto Malvezzi (Gogó), assessor da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e membro da Articulação Popular São Francisco Vivo, Terra, Água, Rio e Povo.
Data: 12 de novembro de 2010
Horário: 19 horas
Local: Sindicato dos Metalúrgicos de Campinas (Rua Doutor Quirino, 560 – Centro – Campinas – SP)

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Pesquisa para reduzir a pobreza

Da Agência FAPESP

Induzir pesquisas que melhorem a compreensão sobre como funcionam os ecossistemas, os serviços que eles fornecem, seu valor e o papel potencial desses serviços na contribuição da redução da pobreza.

Esse é o objetivo do programa Ecosystems Services for Poverty Alleviation (ESPA) – Serviços dos Ecossistemas para a Redução de Pobreza – conduzido pelo National Environment Research Council (NERC), pelo Economic & Social Research Council (ESRC) e pelo Department for International Development (DfID), do governo britânico.

O programa multidisciplinar dispõe de 40,5 milhões de libras (cerca de R$ 110 milhões) para apoiar pesquisas, de 2009 a 2016, segundo informou o diretor do programa ESPA, Paul van Gardingen, em encontro com cientistas do Estado de São Paulo ocorrido nesta segunda-feira (8/11), na sede da FAPESP.

“O objetivo do ESPA é garantir que, em países em desenvolvimento, ecossistemas sejam administrados sustentavelmente de maneiras que contribuam com a redução da pobreza e com o crescimento inclusivo e sustentável”, disse Gardingen.

Para tanto, o programa apoiará pesquisas que forneçam evidências e ferramentas aos tomadores de decisão e aos usuários finais que possibilitem gerenciar a sustentabilidade dos serviços ecossistêmicos.

O diretor do ESPA está no Brasil para divulgar o programa junto à comunidade acadêmica do país. Cientistas de outros países, entre os quais o Brasil, podem enviar propostas ao programa.

“O programa tem como foco prioritário quatro regiões que experimentam mudanças significativas na administração de seus serviços ecossistêmicos no contexto da redução da pobreza e do crescimento sustentável: Amazônia, China, Sudeste Asiático e África Subsaariana. O ESPA está focado nas pessoas e em suas relações com os serviços ecossistêmicos”, disse Gardingen.

Interessados têm até o dia 8 de dezembro para preencher o formulário de interesse em participar da chamada atual e até o dia 19 de janeiro de 2011 para encaminhar as propostas completas. A chamada atual tem orçamento de 16 milhões de libras (cerca de R$ 43,8 milhões).

Os auxílios poderão ter entre três e cinco anos de duração, com o valor total do projeto de pesquisa entre 500 mil e 4 milhões de libras.

“É importante que os interessados em apresentar propostas entrem no site do ESPA e verifiquem quais são os projetos já apoiados pelo programa”, disse Gardingen.

Mais informações sobre a chamada e o programa: www.nerc.ac.uk/research/programmes/espa


Conselhos de Pesquisa
A FAPESP mantém acordo de cooperação com os Conselhos de Pesquisa do Reino Unido (RCUK, na sigla em inglês) para apoiar o desenvolvimento de projetos de pesquisa cooperativos propostos por pesquisadores britânicos e brasileiros associados.

As propostas devem ser submetidas diretamente, por pesquisadores no Reino Unido em associação com pesquisadores vinculados a instituições de ensino superior e pesquisa no Estado de São Paulo, a uma ou mais entidades pertencentes aos RCUK, que informarão a FAPESP da submissão de proposta de pesquisa.

Mais informações sobre o acordo e as chamadas em aberto, entre as quais do National Environment Research Council, estão na página: www.fapesp.br/acordos/rcuk.

Desafios da filogeografia

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP 

"As publicações na área de filogeografia vêm crescendo de forma exponencial, graças à gradual integração entre biólogos e geocientistas, às novas tecnologias de DNA e aos novos métodos estatísticos disponíveis”, disse Luciano Beheregaray, professor das universidades Flinders e Macquarie, da Austrália.

A filogeografia combina biologia e geociência, estudando os processos históricos que podem ser responsáveis pela distribuição geográfica contemporânea de uma espécie.

Segundo Beheregaray, enquanto a maioria esmagadora da produção científica na área vem do hemisfério Norte, a contribuição dos países que concentram a maior parte da biodiversidade do planeta ainda é muito pequena. “Essa distorção dificulta a síntese comparativa da informação produzida globalmente, que é um dos desafios centrais da filogeografia”, disse nesta segunda-feira (8/11), durante o Simpósio Internacional sobre Filogeografia, organizado pelo Programa Biota-FAPESP.

Para reverter esse cenário, segundo o cientista brasileiro radicado na Austrália, é preciso que os países desenvolvidos invistam na pesquisa filogeográfica em países megadiversos, como o próprio Brasil.

“A filogeografia vem crescendo muito, mas os estudos ainda estão muito concentrados nos ambientes terrestres e nos países desenvolvidos. Seria importante investir em trabalhos em áreas de grande biodiversidade, onde há grandes lacunas de informação. Isso permitiria avanços científicos globais”, disse Beheregaray à Agência FAPESP.

Segundo ele, no contexto brasileiro o Estado de São Paulo tem se destacado nos estudos na área. “Mas há uma escassez de trabalhos no resto do país. Seria preciso fazer em todo o Brasil o que a FAPESP faz em São Paulo. Acredito que, para que isso seja feito em um nível satisfatório, será preciso ter recursos do exterior”, disse.

No contexto mundial, segundo Beheregaray, para que a pesquisa avance ainda mais, é preciso que os filogeógrafos deixem de lidar apenas com dados filogenéticos isolados. Ele explica que, como as mutações se acumulam ao longo do tempo, a filogenética é o motor da filogeografia. Mas isso não basta, é fundamental que essas informações sejam combinadas com dados sobre genótipos, por exemplo.

“O filogeógrafo é acima de tudo um naturalista. Um explorador em contato com o trabalho de campo, que precisa ser também um biólogo populacional e um geneticista. É um integrador que lida com uma ampla gama de questões da história natural – da escala dos genes até a escala geológica. Essa característica interdisciplinar torna fundamental a integração de comunidades científicas de vários países e áreas do conhecimento”, afirmou.

Trabalhando fora do Brasil há 14 anos, Beheregaray manteve diversas cooperações no país. O laboratório que coordena, dedicado a investigar a conectividade genética e ecológica de organismos aquáticos, tem atualmente um pós-doutorando e dois doutorandos brasileiros.

Seu grupo realizou um levantamento dos artigos científicos publicados até 2006 em revistas indexadas em busca da palavra-chave “filogeografia”. A análise permitiu perceber um grande crescimento na área nos últimos anos. Cerca de 4 mil artigos foram publicados em duas décadas, com um aumento pronunciado a partir de 2002. As citações também cresceram exponencialmente.

“Em termos de grupos taxonômicos, há uma tendência muito grande para mamíferos – cerca de 20% do total. Peixes e plantas vêm em seguida, com cerca de 15% cada. E os invertebrados – o grupo mais diverso – correspondem a apenas 13%”, disse.

A maioria esmagadora dos artigos, cerca de 81%, utilizava marcadores genéticos como o DNA mitocondrial, sendo que 75% dos estudos utilizaram exclusivamente esses marcadores. Em seguida, aparecem os estudos que utilizam técnicas como SNPs e microssatélites.

Em relação à natureza dos estudos, 68% dos artigos tratavam de um único táxon. Apenas 8% deles faziam uma comparação histórica demográfica e filogeográfica entre dois ou mais táxons.

“O mais alarmante é que em 24% dos estudos havia dados sobre múltiplos táxons, mas não havia comparação histórica. Cada estudo desses é uma chance perdida para usar esses dados de forma mais eficiente. A maioria desses estudos é proveniente dos países em desenvolvimento”, afirmou.

Do total de artigos, 69% tratavam do período Quaternário, 11% do Terciário e 18% de períodos cronológicos indeterminados. “Isso mostra que às vezes falta recorrer às geociências. Temos que ser mais criativos e interagir mais com a geologia, a geofísica, a hidrologia, a glaciologia e com as ciências atmosféricas”, disse.

Lacunas de informação
Para Beheregaray, ainda há uma dificuldade de integração disciplinar a ser superada. ”Muitos geocientistas ignoram tudo o que não é registro físico. Os filogeógrafos são mais integrados, usando outros conjuntos de dados além da genética. Mas muitas vezes são simplistas – e até incorretos – na hora de explorar e interpretar os dados da história da Terra”, disse.

Cerca de 65% dos trabalhos identificados no levantamento feito pelo grupo australiano tratavam de ambientes terrestres, 18% de água doce e 17% de ambientes marinhos. “Na área marinha, que é a de nosso interesse, há imensas lacunas em termos de informação sobre distribuição histórica da diversidade no oceano. Os bioinventários são praticamente inexistentes”, disse.

Das publicações em filogeografia, 77% tratavam de áreas do hemisfério Norte, apesar de a maior parte da biodiversidade global estar no hemisfério Sul. Cenários globais foram enfocados por apenas 6% dos trabalhos.

“A Europa e a América do Norte tiveram participação de 30% cada. Aproximadamente 15% dos estudos foram feitos na Ásia, 7% na Austrália, 7% na África e apenas 6% na América do Sul, que talvez seja o continente mais megadiverso”, disse o cientista.

Entre os países mais megadiversos – Brasil, Indonésia, Colômbia, Austrália, México e Madagascar –, apenas a Austrália apareceu como um dos principais produtores de pesquisa em filogeografia, na quinta colocação mundial. O Brasil ficou em 15º e a Indonésia em 40º.


Em simpósio internacional do Biota-FAPESP, cientista aponta os principais desafios na área de filogeografia, que combina biologia e geociência. Levantamento indica poucos trabalhos justamente sobre as regiões de maior biodiversidade



“Muitos dos hotspots de biodiversidade estão nos trópicos e é preciso que a comunidade científica internacional volte os olhos para essas áreas”, disse Beheregaray.

“Os gestores precisam tomar decisões difíceis sobre o que deve ser protegido e é missão dos cientistas dar aos gestores critérios objetivos para isso. A filogeografia oferece um método muito exato, em alguns casos, para fazer a distinção evolutiva de populações”, afirmou.

Mais informações sobre o workshop internacional, que termina nesta terça-feira (9/11), na Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade da Universidade de São Paulo: www.fapesp.br/biota/evento/filogeografia.

Projeto descriminaliza guarda doméstica de animais silvestres

Por Rachel Librelon, da Agência Câmara

Está em análise na Câmara o Projeto de Lei 7427/10, do deputado Carlos Santana (PT-RJ), que descriminaliza a manutenção, como animais domésticos, de animais silvestres que não estejam ameaçados de extinção. A proposta altera a Lei de Crimes Ambientais (Lei 9.605/98), que pune com detenção de um a seis meses e multa a guarda doméstica de animais silvestres.

A legislação já prevê a possibilidade de o juiz, dependendo das circunstâncias, deixar de aplicar a pena caso a espécie não esteja ameaçada de extinção. O objetivo da proposta é "descriminalizar a posse e a guarda de animal doméstico quando ficar caracterizado que não se trata de tráfico de animal silvestre".

Para o autor do projeto, o tráfico de animais silvestres deve continuar sendo severamente reprimido. "Entretanto, às pessoas que de boa fé já possuem, há algum tempo, um animal silvestre deve ser assegurada a oportunidade de regularizar a situação e o direito de manter seus animais", argumenta.

De acordo com Carlos Santana, a estimativa é de que os lares brasileiros abriguem atualmente cerca de 15 milhões de animais silvestres. O parlamentar ressaltou que não é possível reintroduzir esses animais na natureza, devido ao seu grau de domesticação.

Tramitação
A proposta tramita apensada ao PL 347/03 e aguarda votação pelo Plenário.

Íntegra da proposta:

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Extrativismo de licuri é opção de renda no Semiárido do país


Fruto possui qualidade nutricional semelhante à do açaí


Bebidas, sabonetes, detergentes e picolés: é como ingrediente destes produtos que o licuri começa a ganhar destaque no Brasil, uma palmeira típica do sertão nordestino, com qualidade nutricional semelhante à do açaí, mas que ainda não caiu no gosto de atletas ou dos que preferem levar à mesa alimentos orgânicos. Produtores do vegetal, concentrados principalmente na Bahia, atribuem a situação à falta de publicidade do fruto.

De acordo com o engenheiro agrônomo José Barbosa dos Anjos, pesquisador da Embrapa Semiárido, no fruto são encontrados zinco, potássio e fósforo em quantidade superior ao do açaí.

Costuma-se quebrar os coquinhos da planta para a retirada de amêndoas. Cerca de 90% da colheita é comprada por indústrias processadoras de óleo para a produção de saponáceos e cosméticos. Os negócios em torno da palmeira ainda se estendem à venda da casca, destinada à produção de tijolos e telhas. Em 2009, o preço da palmeira chegou a R$ 28 a tonelada.

Segundo Barbosa, o rendimento da extração manual de coco licuri é muito baixo para os agricultores. Em tese, eles recebem R$ 1 por quilo de amêndoas comercializadas. Ainda que revele uma atividade de subsistência, o comércio em torno dessa palmeira produz reflexos positivos nos indicadores socioeconômicos baianos, gerando renda e empregos.

Por este motivo, nos últimos dois anos, o pesquisador coordenou o projeto “Estratégias de aproveitamento dos coprodutos do licuri na alimentação humana e animal”, que avaliou o fruto como ingrediente na preparação de alimentos, além de apresentar técnicas de pré-processamento para consumo in natura da polpa ou suco pasteurizado. Se processada, a amêndoa adquire cor branca, podendo ainda concorrer com produtos à base de coco.

“Ao agregar valor ao fruto da espécie nativa, além de ampliar sua valorização, fortalece e confere sustentabilidade a um negócio extrativista que se expande por extensa área do semiárido brasileiro”, conclui Barbosa.

Fonte: Globo Rural

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Pesquisa investiga efeitos da poluição do ar no Túnel Rebouças e na Av. Brasil

Por Débora Motta, da Agência Faperj

A poluição do ar provocada por automóveis é um grande desafio ambiental para os habitantes das metrópoles. No Rio, o intenso fluxo de veículos é o principal responsável pela emissão de gases tóxicos na atmosfera da cidade. De acordo com o Relatório Anual de Qualidade do Ar do Estado do Rio de Janeiro, do Instituto Nacional do Meio Ambiente (Inea), de 2009, as fontes móveis – como carros, caminhões e ônibus – emitem 77% do total de poluentes lançados na atmosfera na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, enquanto as fontes fixas – entre elas, as fábricas – representam apenas 23%. Para fazer um diagnóstico da qualidade do ar em pontos-chave do tráfego carioca, uma pesquisa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) com apoio da FAPERJ, por meio do edital Estudo de Soluções para o Meio Ambiente, está monitorando dois importantes locais de passagem de veículos no Rio: o Túnel Rebouças e a Avenida Brasil.



Funcionários observam Amostrador de Grande Volume instalado no Túnel Rebouças (à esquerda) e na Avenida Brasil (à direita)


Além de avaliar as condições atmosféricas nesses pontos movimentados da cidade, o estudo tem como objetivo verificar os possíveis impactos da poluição do ar na saúde das pessoas que circulam por ali diariamente. Para isso, pesquisadores do Laboratório de Mutagênese Ambiental (Labmut), do Departamento de Biofísica e Biometria do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, da Uerj, investigam a concentração de agentes mutagênicos – aqueles capazes de modificar as sequências de DNA, causando mutações que podem levar ao desenvolvimento do câncer – presentes no ar do Túnel Rebouças e da Avenida Brasil. “Em ambientes onde as concentrações dos poluentes são elevadas, e dependendo de sua toxicidade, podem ocorrer efeitos genotóxicos com chances de comprometer a saúde dos ecossistemas”, explica o professor e biólogo Israel Felzenszwalb.

Monitoramento da qualidade do ar
O estudo, submetido à FAPERJ em dezembro de 2008 e ainda em curso, já apresenta alguns resultados parciais. Os pesquisadores estão monitorando as condições do ar na Avenida Brasil, desde abril de 2010, e no Túnel Rebouças, desde junho deste ano. A qualidade do ar nessas vias é avaliada com o Amostrador de Grande Volume, um equipamento que determina a concentração de partículas totais em suspensão na atmosfera. Esse material particulado fica aderido a um filtro inserido no coletor do equipamento, periodicamente analisado. “Tanto na Avenida Brasil quanto no Túnel Rebouças verificamos a presença predominante de nitrocompostos, entre eles de substâncias conhecidas como hidrocarbonetos policíclico-aromáticos. Esses poluentes são capazes de provocar mutações mesmo sem sofrer qualquer tipo de metabolização”, destaca.

O equipamento responsável pela coleta do ar dentro do Rebouças está localizado no vão entre as duas galerias do túnel, próximo à Lagoa. Ele funciona por seis horas durante quatro dias na semana, totalizando 24 horas de coleta semanal. “Toda semana, durante uma madrugada, quando o túnel fecha para manutenção, recolhemos o filtro para análise e recolocamos um novo”, explica. Na Avenida Brasil, outro equipamento idêntico foi instalado no pátio do Ciep Leonel de Moura Brizola, na altura de Ramos, junto à passarela número 13. Ele coleta o material particulado do ar 24 horas por dia.

"Como se trata de um ambiente fechado, em seis horas, o filtro do coletor já fica saturado no Rebouças, enquanto na Avenida Brasil é preciso 24 horas para saturá-lo”, explica Felzenszwalb. Por isso, o volume de material particulado coletado no filtro do equipamento instalado no túnel se torna menor quando comparado ao da Avenida Brasil. “O volume coletado no Rebouças é quatro vezes menor em comparação ao volume coletado na Brasil”, diz o professor, lembrando que os equipamentos também avaliam medidas de variação de temperatura, umidade e pressão.

Testes laboratoriais
Depois que o material particulado do ar é coletado pelos equipamentos instalados em ambos os locais, os pesquisadores do Labmut/Uerj realizam dois procedimentos laboratoriais para tentar identificar o potencial mutagênico dos poluentes encontrados em suspensão no ar. Um deles é o Teste de Ames, um ensaio biológico reconhecido internacionalmente, que fornece informações sobre a capacidade de agentes físicos e químicos induzirem ao desenvolvimento de mutações no material genético das células.

“O filtro recolhido do Amostrador de Grande Volume é ‘lavado’ e o material obtido é submetido ao ensaio bacteriano de Ames. Quando o valor do índice de mutagenicidade é superior a dois, dizemos que o material em análise tem potencial mutagênico”, detalha o professor, que observou nos dois locais um índice de mutagenicidade considerável. “As amostras coletadas na Avenida Brasil apresentaram um índice de mutagenicidade 3 e 4. Nas amostras do Tínel Rebouças, o índice de mutagenicidade variou entre 9 e 23, e o efeito mutagênico foi visualizado logo na primeira concentração.”

O outro procedimento técnico a ser adotado no estudo é o teste de micronúcleo, utilizando a planta Tradescantia pallida var. purpúrea. Conhecida popularmente como coração-roxo, essa espécie ornamental, comum no Rio, funciona como um termômetro natural da presença de substâncias mutagênicas no ar, sendo por isso considerada um ótimo bioindicador. Sensível, ela apresenta mutações quando em contato com poluentes, servindo como um sensor na avaliação da qualidade do ar. “O teste de micronúcleo com a Tradescantia é considerado um excelente bioindicador pela simplicidade da metodologia e pela sensibilidade da planta aos agentes genotóxicos”, diz Felzenszwalb.

Em contato com os poluentes, as células da Tradescantia costumam apresentar alta frequência de micronúcleos, o que indica a ocorrência de mutação genética. Essa etapa de testes, no entanto, ainda será realizada. Por enquanto, os pesquisadores colocaram mudas da Tradescantia em pontos estratégicos do Túnel Rebouças e da Avenida Brasil. “As plantas colocadas no Rebouças não sobreviveram. Mesmo sendo uma planta resistente, parece que a poluição no local está bem acima de sua capacidade de sobrevivência”, pondera.

Para dar continuidade a essa etapa, a equipe do Labmut planeja outra estratégia. “Estamos avaliando a possibilidade de usar o material obtido do filtro coletor para uma avaliação direta em mudas saudáveis, em laboratório, e assim podermos continuar o estudo”, explica. “Usaremos a solução produzida pela lavagem dos filtros colocados no Rebouças para pulverizar as plantas, e faremos uma posterior avaliação de micronúcleos”, completa. Na Avenida Brasil, o experimento com as plantas foi iniciado há menos de um mês, no mesmo local da instalação do Amostrador de Grande Volume, e os pesquisadores ainda não processaram os resultados.

O projeto também tem o objetivo de promover a educação ambiental. Estudantes do Ciep Leonel de Moura Brizola, na Avenida Brasil, tiveram três encontros com os pesquisadores para discutir a problemática da poluição do ar atmosférico. “Tentamos conscientizar os jovens sobre a necessidade de preservação do meio ambiente”, conta. “Esperamos que a atividade de educação ambiental venha a contribuir para a conscientização cidadã da comunidade e que ela tenha um efeito multiplicador”, conclui.

Além do professor Israel Felzenszwalb, participam do projeto os pesquisadores Claudia Aiub e José Luis da Costa Mazzei, ambos do Labmut/Uerj; o professor Sérgio Machado, da Faculdade de Tecnologia da Uerj; a mestranda Claudia Rainho, do programa de Pós-Graduação em Biociências do Instituto de Biologia Roberto Alcântara Gomes, da Uerj; e o aluno de Iniciação Científica do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) Antonio de Salles Guerra.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Tradição em risco: aquecimento global ameaça produção de vinhos na França

Por Luiza Duarte , do UOL
 
A produção de vinho mundial está sendo ameaçada pelo aumento da temperatura do planeta, apontam estudos feitos recentemente. E a França, segundo maior produtor mundial de vinhos, perdendo somente para a Itália, busca soluções para preservar as safras de uvas e garantir o abastecimento de seus famosos vinhos.

De acordo com especialistas entrevistados pelo Opera Mundi, os impactos diretos do aquecimento global são ciclos da vinha mais curtos, transformações no processo de amadurecimento, proliferação de novas doenças e colheitas cada vez mais precoces.

“Nas últimas três décadas, houve um aumento progressivo da temperatura, o que tem antecipado a data de colheita em 8 a 15 dias”, apontou Joël Rochard, especialista da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) e diretor do Departamento de Desenvolvimento Sustentável do Instituto Francês da Vinha e do Vinho (IVF).

Tradicionais vinhos franceses como o Bordeaux, Côtes du Rhônes, Bourgogne, Médoc e o Champagne têm sua autenticidade validada pelo selo "Denominação de Origem Controlada", como acontece com outros produtos agrícolas. Para levar o nome pelo qual é conhecido, o vinho tem que conjugar técnicas de fabricação e tipos de uvas específicos a uma localização geográfica pré-determinada. Com a alteração do clima, zonas vinícolas tradicionais seriam forçadas a se adaptar para guardar as mesmas características do produto final.

Em busca de melhores condições, "poderia haver um deslocamento da produção para o norte, ou a implantação de outras variedades", explicou o enólogo François Fevre. Em ambos os casos, isso significaria abandonar o atual sistema de selos de qualidade e mesmo o paladar das bebidas que conhecemos.

Os franceses são os maiores consumidores de vinho no mundo. Cerca de 600 bilhões de litros saem das vinícolas do país a cada ano. O setor, além ser parte do patrimônio cultural e grande atrativo turístico, gera bilhões de euros todos os anos e quase 200 mil empregos. O impacto econômico da transformação ou morte das zonas vinícolas ainda não pode ser estimado. Os gastos com irrigação serão provavelmente os mais elevados, apontam os especialistas.

As vinhas têm uma vida produtiva de 30 a 40 anos e o momento do plantio representa uma decisão que pode custar caro. Investir numa variedade que não adapte as mudanças do clima é um risco alto para os pequenos produtores.

Os especialistas divergem quanto às consequências de uma elevação maior que 5°C da temperatura e seu inevitável preço para a economia. Rochard lembra que diante desse cenário extremo, inundações, fluxos migratórios e o estresse hídrico afetariam muito mais segmentos do que a viticultura e provavelmente levariam ao caos todos os sistemas produtivos.

Bourgogne
De acordo com Fevre, o caso mais preocupante é o da região da Bourgogne, onde se cultiva apenas uma variedade de uva para o tinto, Pinot noir, e uma para o branco, Chardonnay. “Isso impede a manipulação das proporções dos componentes para aperfeiçoar a bebida, como acontece em outros pólos que produzem mais variedades”, explicou. “Com o calor o pinot noir amadurece mais rápido e produz vinhos de maior teor alcoólico”.

O enólogo garantiu que “não há preocupação há médio prazo em relação aos grandes vinhos franceses”, lembrando que atualmente eles não estão em limite de zona produtiva. “O aquecimento vem até provocando efeitos positivos”, revelou. Segundo ele, as mudanças climáticas não são sentidas da mesma maneira em todas as regiões, portanto, “primaveras menos rigorosas evitam perdas de rendimento com geadas”. Essa fase favorável corre o risco de ser passageira, se as temperaturas continuarem a subir.
 
Soluções
As medias práticas para conter o impacto do clima nas vinícolas francesas, de acordo com os especialistas, são tornar as garrafas mais leves e privilegiar trens para o transporte, tudo para preservar o sabor. “Também, utilizar menos energia e até mesmo produzir o vinho com o bagaço da uva”, enumera Rochard, que apresentou no Brasil as adegas ecológicas e modelos sustentáveis de produção que desenvolve junto a OVI.

Atualmente na Europa, uma vinha é composta de duas variedades, uma para a raiz e outra que vai definir o tipo da uva. Esse enxerto permite uma maior flexibilidade em relação às mudanças climáticas, uma vez que é possível buscar plantas de base mais resistentes sem alterar o fruto.

Os avanços científicos permitem um conhecimento preciso das técnicas de viticultura. É possível interferir nas características do solo, das vinhas, controlar a exposição solar, alterar as dosagens e desenvolver leveduras especificas. "Nós sabemos o que é preciso para ter uma colheita de qualidade para um tipo de vinho determinado. Temos ferramentas para isso”, garantiu Fevre.

Flexibilizar as normas e alterar o limite das áreas oficiais de produção é outra saída para preservar por mais tempo produtos emblemáticos para a França. Houve uma extensão do território de cultivo de Champagne em direção ao norte e ao oeste e esta expansão pode continuar. Se os estudos “mostrarem que alguns terrenos que antes não faziam parte da delimitação apresentam as condições necessárias, isso pode acontecer”, afirma sem esconder que é preciso muita precaução e investigação para tal medida.

Estudo
Um relatório da ONG ambiental Greenpeace, publicado em 2009, prevê um deslocamento de mil quilômetros das tradicionais zonas de produção de vinho para regiões mais frias até o final do século.

“Na França, a região mais atingida será a mais seca, o sudeste, que inclui as zonas produtivas do Minervois, Côtes du Languedoc, Côtes de Provence, Côtes du Rhône e do Vin Corse”, diz o relatório.

Enquanto o clima do Mediterrâneo pode se transformar em semi-árido, afetando a viticultura na Grécia, sul da Itália, Espanha, Portugal e norte da África, os vinhedos podem virar paisagem comum nos países do norte. “A Inglaterra produz, por enquanto, apenas vinhos brancos, mas alguns renomados produtores de champagne já começaram a investir em terrenos que poderão ser interessantes no futuro”, afirmou Fevre.

Novos atores entram em cena, Rochard aponta o exemplo da Alemanha. “Ela tem uma forte demanda por vinho tinto e tinha sua produção limitada pelas condições climáticas. Agora com o aquecimento tem potencial para produzir bons vinhos tintos”.

Já zonas como a Austrália, que hoje cultivam graças à irrigação podem ser abandonadas com a elevação do custo do fornecimento. “A água vai se transformar em um fator limitante da produção”, avaliou o enólogo.

Consumo
O consumidor já pode sentir o gosto da diferença provocada pelo aquecimento. Fevre define esses vinhos de maturação acelerada como menos ácidos e com maior teor alcoólico, o Millésime 2003, 2005 e 2009 são exemplos. Os vinhos se tornam, mas ricos e “perdem a elegância, embora em relação ao paladar das gerações acostumadas com refrigerantes, isso se torne favorável”.

As “receitas” de família evoluem ao gosto do freguês contemporâneo. “Um vinho como Château Margaux 2009 não é feito como há 20, 50 ou 100 anos atrás, mas ele continua sendo um dos melhores vinhos do mundo”, concluiu Fevre.

USP integra projeto para capacitar catadores de recicláveis

Por Valéria Dias, da Agência USP

A Universidade de São Paulo capacitará catadores de materiais recicláveis para recolher resíduos de informática, possibilitando aumento da renda para essas pessoas, além de ajudar a preservar o meio ambiente. A iniciativa resulta de uma parceria entre o Laboratório de Sustentabilidade em Tecnologia de Informação e Comunicação (LASSU), da Escola Politécnica, o Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir), do Centro de Computação Eletrônica (CCE), e o Instituto GEA-Ética e Meio Ambiente, organização não-governamental que trabalha com reciclagem, coleta seletiva e formação de cooperativas de catadores.

A parceria resultou no Projeto Segurança, Renda e Coleta de Lixo Eletrônico que foi um dos 113 contemplados pelo Programa Petrobras Desenvolvimento e Cidadania 2010, entre as 5.183 propostas inscritas. A divulgação do resultado aconteceu no último dia 25 de outubro.

O projeto visa aumentar a renda dos catadores de materiais recicláveis da Capital e de municípios da região metropolitana (Diadema, Guarulhos, Mauá, Ribeirão Pires, São Bernardo do Campo, São Paulo), além de evitar que peças de informática sejam descartadas em locais inadequados, prejudicando a natureza. Para isso, os catadores receberão treinamento para selecionar peças de informática que tenham valor agregado.

“A ideia é ensinar aos catadores os cuidados que devem ser tomados ao recolher resíduos de informática como microcomputadores, impressoras, monitores e celulares”, conta a professora Tereza Cristina Carvalho, Assessora de Projetos Especiais da Coordenadoria de Tecnologia da Informação (CTI) da USP.

Ela explica que muitas vezes os catadores descartam da reciclagem componentes de microcomputadores, como placas, por exemplo, porque não sabem como tratar o material para que ele tenha valor comercial. “Essa placa pode então acabar em um lixão, e isso é bastante problemático, pois muitos desses materiais são poluentes”, destaca Tereza Cristina. A presidente do Instituto GEA, Ana Maria Domingues Luz, completa: “Atualmente, quando os catadores recebem um microcomputador, a peça é considerada como sucata, pois eles não têm o conhecimento necessário para separar as peças com valor agregado.”

Ana Maria informa que o projeto vai capacitar aqueles catadores de materiais recicláveis que trabalham em locais apropriados, e fazem parte de alguma cooperativa ou de algum grupo organizado. A previsão é que os treinamentos tenham duração de 30 dias para cada turma, sendo a parte teórica realizada no LASSU, em cerca de cinco dias, e o restante no Cedir, aproveitando a estrutura do lugar. A ideia é treinar 10 catadores por vez e também abrir a possibilidade de vagas como ouvintes para representantes de ONGs ou associações, no treinamento teórico.

Haverá 18 turmas com o objetivo de atender o maior número possível de cooperativas da capital e outros municípios vizinhos. O projeto prevê a concessão de auxilio refeição e transporte para o deslocamento dos catadores até a Cidade Universitária. 

Troca de experiências

“Este projeto vai possibilitar uma troca de experiências muito interessante para ambos os lados. Em um extremo, teremos os catadores de recicláveis, pessoas de um estrato social mais baixo, com pouca escolaridade, sendo que muitos deles são analfabetos. No outro extremo, teremos a USP, uma referência em conhecimento científico”, comenta Ana Maria.
 
O projeto terá duração de 2 anos e espera-se treinar, durante este período, 180 pessoas. “Após o treinamento, esses profissionais irão levar o conhecimento adquirido para núcleos distribuídos pelos municípios da região metropolitana, ampliando o alcance da iniciativa. A perspectiva é criar 18 núcleos até o final do projeto e, com isso, estender os benefícios para cerca de 2 mil catadores”, destaca a presidente da ONG.

Segundo Ana Maria, esses núcleos serão equipados com bancadas apropriadas e ferramentas adequadas para a desmontagem correta das máquinas. “É um trabalho muito mais complexo do que reciclar latinhas”, aponta. Após a separação das peças com valor agregado, elas serão vendidas e o dinheiro será dividido entre os integrantes da cooperativa. Também está previsto o acompanhamento do trabalho dos catadores por meio de visitas técnicas a esses núcleos.

O próximo passo do projeto é definir, juntamente com os professores do LASSU/Cedir, qual será o programa de aula e a metodologia de ensino. A professora Tereza Cristina lembra que a maioria dos catadores tem baixa escolaridade. “Essa condição vai exigir o uso de recursos alternativos, como imagens, para explicar conceitos básicos de eletrônica”. Ana Maria conta que vai se reunir com as entidades representativas de catadores e com cooperativas para definir a lista de participantes dos cursos.

Segundo Tereza Cristina e Ana Maria, o contrato deverá ser assinado com a Petrobras no próximo mês de dezembro. A ideia é que as aulas comecem em abril de 2011. Os recursos destinados ao projeto são de cerca de R$ 800 mil, para um período de dois anos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Edital conjunto FAPERJ-FAPESP tem R$ 5 milhões para estudos de mudanças climáticas globais

A FAPERJ e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) se unem com o objetivo comum de anunciar, simultaneamente, o lançamento de chamada inédita para receber projetos na área de Mudanças Climáticas Globais. Esta é a primeira iniciativa conjunta das duas agências de fomento. Com um investimento total de R$ 5 milhões, R$ 2,5 milhões de cada agência, a chamada Mudanças Climáticas Globais, elaborada a partir de convênio de cooperação científica entre a FAPESP e a FAPERJ, selecionará 30 projetos a serem desenvolvidos cooperativamente por grupos de pesquisadores vinculados a instituições de ensino e pesquisa sediadas nos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Os recursos financeiros serão destinados exclusivamente aos projetos de pesquisa colaborativa que forem selecionadas por ambas as agências e serão desembolsados de acordo com o cronograma de desembolso aprovado em cada proposta selecionada. Serão selecionados até 30 (trinta) projetos de pesquisa e, no total das concessões, 50% (cinquenta por cento) dos recursos serão aportados pela FAPESP e 50% (cinquenta por cento) pela FAPERJ.

As propostas selecionadas serão cofinanciadas pela FAPESP e pela FAPERJ. Para as propostas apresentadas por pesquisadores vinculados a instituições sediadas no Estado de São Paulo, aplicam-se as normas da FAPESP; e para as propostas apresentadas por pesquisadores vinculados a instituições sediadas no Estado do Rio de Janeiro, as normas da FAPERJ.

Dentre os principais objetivos da parceria, estão a criação de conhecimento científico e a formação de competências e de alianças estratégicas na área, contribuindo para o desenvolvimento científico e tecnológico dos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro. Também se almeja que os projetos de pesquisa incentivem a difusão do conhecimento e a implementação de projetos inovadores de pesquisa científica ou tecnológica, envolvendo estudantes de nível superior, e que seus resultados gerem publicações de artigos científicos e propriedade intelectual.

Os temas de interesse incluem: consequências das mudanças climáticas globais no funcionamento dos ecossistemas, com ênfase em biodiversidade e nos ciclos de água, carbono e nitrogênio; balanço de radiação na atmosfera, aerossóis, gases-traço e mudanças dos usos da terra; mudanças climáticas globais e agricultura e pecuária; energia e gases de efeito estufa – emissões e mitigação; mudanças climáticas e efeitos na saúde humana; e dimensões humanas das mudanças climáticas globais: impactos, vulnerabilidades e respostas econômicas e sociais, incluindo adaptação às mudanças climáticas. Pesquisas com foco em mudanças climáticas globais, mas desenvolvidas em outras áreas relacionadas ao tema somente poderão ser submetidas se a sua conexão com o programa e seus objetivos forem devidamente justificadas.

São considerados pesquisadores elegíveis, no âmbito dessa Chamada: (a) para submissão de propostas à FAPESP: pesquisadores com grau de doutor ou equivalente, vinculados a Instituições de Ensino Superior ou Pesquisa, públicas ou privadas, sediadas no Estado de São Paulo e que preencham os demais requisitos para apresentação de Auxílios Regulares à Pesquisa; e (b) para submissão de propostas à FAPERJ: pesquisadores com grau de doutor ou equivalente, vinculados a Instituições de Ensino Superior ou Pesquisa, públicas ou privadas, sediadas no Estado do Rio de Janeiro.

Cada proposta terá dois pesquisadores responsáveis: um pelo lado do Estado de São Paulo, que deverá ser vinculado a uma instituição de ensino superior e de pesquisa no Estado de São Paulo; e um pelo lado do Estado do Rio de Janeiro, que deverá ser vinculado a uma instituição de ensino superior e de pesquisa no Estado do Rio de Janeiro.

Por parte da FAPERJ, são financiáveis itens dos grupos de custeio e de capital, indispensáveis à realização do projeto, de acordo com o classificador de receita e despesa do Estado do Rio de Janeiro (disponível no site www.planejamento.rj.gov.br), compreendendo: aquisição de materiais permanentes e equipamentos; serviços de terceiros (pessoas físicas e jurídicas) com caráter eventual, para manutenção de equipamentos e de material permanente, e para a realização de pequenos reparos e adaptações de bens imóveis; diárias e passagens para missões de pesquisadores e estudantes, seminários, oficinas e visitas institucionais a outras instituições, especificamente nos dois Estados parceiros deste programa e no âmbito das propostas apresentadas (não serão permitidas diárias e passagens para participação em reuniões científicas fora do âmbito das propostas); material de consumo, componentes e/ou peças de reposição de equipamentos; despesas acessórias para importação (até o máximo de 18% do valor do bem importado).

Todos os itens solicitados deverão ser plenamente justificados na proposta apresentada. As atividades de cada uma das partes, estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, serão financiadas pela respectiva agência: em São Paulo, como Auxílio Regular à Pesquisa, à FAPESP; e no Rio de Janeiro, como propostas submetidas a este programa (FAPERJ-FAPESP "Mudanças Climáticas Globais – 2010". A duração das pesquisas deve ser de até 24 meses.

Quanto às despesas para mobilidade: a FAPERJ apoiará, nas solicitações selecionadas, passagens aéreas e diárias de pesquisadores e estudantes do Estado do Rio de Janeiro em missões ao Estado de São Paulo; a FAPESP apoiará, nas solicitações selecionadas, recursos para passagens aéreas e diárias de pesquisadores e estudantes do Estado de São Paulo em missões ao Estado do Rio de Janeiro. As despesas de intercâmbio estão limitadas à duração máxima de 60 dias a cada ano de pesquisa, divididos segundo a conveniência dos pesquisadores envolvidos, desde que previstas e devidamente justificadas no projeto apresentado.

As propostas poderão ser submetidas, às duas agências, até o dia 27 de janeiro de 2011. Para os pesquisadores vinculados a instituições sediadas no Estado do Rio de Janeiro, além da submissão on-line, uma cópia impressa dos documentos deverá ser apresentada no Setor de Protocolo da FAPERJ, até o dia 04 de fevereiro de 2011. Os resultados estão previstos para serem divulgados a partir de 28 de abril de 2011, nos web sites das duas fundações.

O diretor científico da FAPERJ, Jerson Lima, comemora a iniciativa: "há muito vimos trabalhando na perspectiva do lançamento de um edital conjunto das duas agências, o que se tornou possível após a assinatura desse Acordo de Cooperação Científica. A área escolhida diz, por si, da importância deste edital. Ambos os Estados têm pesquisadores de excelência na área e que, certamente, em um trabalho conjunto, contribuirão para o desenvolvimento científico e tecnológico, e também para a formação de recursos humanos qualificados".

Para o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, "o acordo FAPERJ-FAPESP cria mais uma oportunidade para que pesquisadores nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro desenvolvam projetos de pesquisa conjuntamente. Desta forma esperamos criar sinergias e aumentar a capacidade nacional para a criação de conhecimento científico sobre Mudanças Climáticas Globais, levando a um aumento do impacto da ciência brasileira neste tema tão importante".

Confira a íntegra do edital FAPERJ-FAPESP de Apoio às Mudanças Climáticas Globais - 2010

Unesp oferece curso de difusão científica

Da Agência FAPESP 

O Instituto de Biociências (IB) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Botucatu, oferece o curso “Unesp Difundindo e Popularizando a Ciência”, voltado a professores do ensino básico e alunos do ensino médio.

O curso – ministrado durante as férias escolares de janeiro – oferece aulas gratuitas com o objetivo de promover a popularização da ciência por meio da difusão de avanços recentes em biologia, ciências e tecnologias.

O projeto, realizado desde 2007, pretende promover a atualização em conteúdos específicos da grade curricular e em recentes avanços de ciências, por meio de atividades que desenvolvam a curiosidade e a criatividade.

As aulas ocorrerão de 24 a 29 de janeiro de 2011, das 8h30 às 17h30. A Unesp oferecerá auxílio para alimentação e transporte aos participantes.

Serão oferecidas oficinas para os alunos, com os temas “Experimentando genética”, “Investigando a vida das plantas” e “Reprodução de A a Z”. Para os professores do ensino básico (ensinos infantil, fundamental e médio) o tema será “Experimentando a genética”.

Haverá uma seleção que privilegiará alunos de escolas públicas e levará em conta o interesse demonstrado pelos temas das aulas.

Os interessados devem preencher um formulário disponível no site do projeto e enviá-lo para o e-mailawasko@ibb.unesp.br . Também é possível se inscrever pessoalmente, no Departamento de Genética do IB.

Estudo questiona validade da chuva artificial


Cientistas israelenses analisam dados de 50 anos e concluem que pulverização de nuvens com produtos químicos não aumenta a precipitação (reprodução)

Da Agência FAPESP 

Um novo estudo indica que a pulverização de nuvens para a produção “forçada” de chuva não funciona tão bem como se imaginava.

Em muitas áreas do mundo, como o sertão nordestino, a chuva é um recurso raro e precioso. Para estimular a precipitação, há décadas tem se experimentado semear as nuvens com produtos químicos, como iodeto de prata ou dióxido de carbono congelado (gelo seco).

Há muitos defensores do método, que já teve usos famosos, como em 2008 nos Jogos Olímpicos de Pequim, quando grande quantidade de partículas foi pulverizada em nuvens para que chovesse antes – e não durante – as provas esportivas.

Mas, de acordo com a nova pesquisa, feita por cientistas do Departamento de Geofísica da Universidade de Tel Aviv, em Israel, o mecanismo não é eficiente. Os resultados foram publicados na revista Atmospheric Research.

O estudo analisou dados sobre pulverização de nuvens nos últimos 50 anos, detendo-se particularmente nos efeitos da atividade em uma área no norte de Israel.

O grupo comparou estatísticas de períodos sem pulverização e com pulverização, bem como a precipitação em áreas adjacentes e em que não houve tentativas de produção de chuvas.

“Ao comparar as estatísticas de chuva com períodos de pulverização, conseguimos ver que os aumentos na precipitação ocorreram ao acaso. Os aumentos foram devidos a mudanças de padrões climáticos e não à semeadura de nuvens”, disse Pinhas Alpert, um dos autores do trabalho.

O mais destacado foi um período de seis anos de aumento na precipitação, que se acreditava ter sido um bem-sucedido resultado da chuva artificial. Pinhas e colegas verificaram que a elevação correspondeu à manifestação de um tipo específico de ciclone, consistente com o aumento de chuvas sobre as regiões montanhosas em Israel que foram pulverizadas.

Os pesquisadores observaram que no período também houve um aumento nas chuvas sobre os montes da Jureia, área na qual não foi feita a semeadura de nuvens.

Apesar de ser um método caro, há atualmente mais de 80 projetos de pulverização de nuvens em andamento no mundo, de acordo com a Organização Meteorológica Mundial.

Apesar das iniciativas, segundo Pinhas não há, até o momento, provas de que o método realmente funciona. A exceção, ressalta o cientista, é se a semeadura for feita em nuvens orográficas, que são formadas sobre montanhas e duram pouco.

O artigo Reassessment of rain enhancement experiments and operations in Israel including synoptic considerations (doi:10.1016/j.atmosres.2010.06.011), de Pinhas Alpert e outros, pode ser lido por assinantes da Atmospheric Research em http://dx.doi.org/10.1016/j.atmosres.2010.06.011.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Políticas públicas para mudanças climáticas

Por Fabio Reynol, da Agência FAPESP

Se o Estado de São Paulo fosse um país estaria em 39º no ranking das nações que mais emitem dióxido de carbono (CO2) na atmosfera. Em 2003, foram 83 milhões de toneladas do gás, praticamente um quarto do montante brasileiro.

Esses números lançam ao estado um enorme desafio para reduzir as emissões e já estimularam a implantação de várias políticas públicas, entre as quais a ativação do Conselho Estadual de Mudanças Climáticas, ocorrida na sexta-feira (15/10).

O tema foi tratado em mesa durante o fórum “Mudanças Climáticas Globais – Desafios e oportunidades de pesquisa”, realizado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) nos dias 14 e 15 de outubro. A mesa teve a participação do diretor-presidente da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), Fernando Rei, do diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz, e do diretor do Instituto de Estudos Avançados da Faculdade de Economia e Administração da USP, Jacques Marcovitch.

“As emissões de CO2 em São Paulo são tímidas em relação aos países desenvolvidos, mas, ao se considerar o índice de ocupação do solo, são emissões superiores à média nacional”, disse Rei.

O executivo fez um histórico das políticas públicas paulistas desde o Programa Estadual de Mudanças Climáticas do Estado de São Paulo (Proclima), lançado em 1995, e destacou a participação paulista em organizações internacionais de estados subnacionais, que englobam regiões internas de países como estados e províncias. “São Paulo é copresidente pela segunda vez da rede de Governos Regionais para o Desenvolvimento Sustentável”, destacou.

O Conselho Estadual de Mudanças Climáticas estava previsto na Lei Estadual 13.798, assinada em novembro de 2009, e possui uma estrutura tripartite: um terço de representantes do governo estadual, um terço vindo de governos municipais e um terço de membros da sociedade civil.

São Paulo também iniciou o Registro Público de Emissões a fim de identificar, por setores e por empresas, os maiores emissores de gases de efeito estufa. Todas essas medidas têm como objetivo tentar alcançar uma redução de 20% do CO2 emitido até o ano de 2020 em relação aos valores de 2005, meta que o Estado se comprometeu a cumprir.

“Trata-se de um objetivo extremamente difícil e que exigirá a participação da sociedade civil”, salientou Rei. No ano de 2005, São Paulo lançou na atmosfera 122 milhões de toneladas de CO2, o que significa que em 2020 poderia lançar até 98 milhões de toneladas, de acordo com a meta.

A tarefa é ainda mais complexa ao considerar que São Paulo já substituiu quase a metade das fontes energéticas de origem fóssil para fontes renováveis na última década, como ressaltou Brito Cruz. “Cerca de 60% do consumo de energia do estado era de origem fóssil e hoje esse índice é de apenas 33%”, disse.

O diretor científico da FAPESP focou na contribuição que a ciência deu ao longo da história à questão do clima, desde o matemático francês Jean Jacques Baptiste Fourier, que em 1827 publicou um artigo no qual concebeu o conceito de efeito estufa, até as experiências do norte-americano Charles Kelling, que de 1957 a 1972 escalou periodicamente o vulcão inativo Mauna Loa, no Havaí, para coletar amostras de ar e medir o teor de carbono da atmosfera.

“Foram pesquisas que pareciam inúteis em suas épocas e que hoje se mostram extremamente pertinentes em relação aos problemas que estamos enfrentando”, disse, destacando que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) foi criado pela Organização das Nações Unidas para que as lideranças políticas pudessem entender a produção científica a respeito do clima.

Brito Cruz também apresentou os principais pontos abordados pelo Programa FAPESP de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), que tem procurado intensificar a produção científica nacional no clima e conta com projetos em andamento em áreas como agronomia, química, geociências, demografia e economia.

"Não queremos apenas aumentar a quantidade dos trabalhos científicos, mas também a sua qualidade para que ganhem visibilidade internacional”, disse. Nesse sentido, a FAPESP financiou a compra de um supercomputador em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) do Ministério da Ciência e Tecnologia.

A máquina está sendo instalada no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) em Cachoeira Paulista (SP) e será dedicada a processar modelos de simulação do clima.

O supercomputador deverá colocar o Brasil entre os maiores do mundo em investigação do clima e poderá processar modelos que contemplem os sistemas climáticos nacionais, como a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica e o Cerrado.

Além do computador, Brito Cruz anunciou que a FAPESP também está financiando a compra de um barco e de um navio oceanográfico que deverão auxiliar pesquisas sobre a temperatura, acidificação e nível dos oceanos, entre outras pesquisas.

Aprimorar incentivos e aumentar sanções
Marcovitch falou sobre os impactos econômicos e a participação do setor empresarial no esforço para mitigar as mudanças climáticas. O professor, que foi reitor da USP entre 1997 e 2001, afirmou que é preciso respeitar o tempo de ação de cada ator social para que o esforço conjunto funcione.

“As pautas de cada um são diferentes: membros do governo enfatizam o poder, cientistas se pautam na busca pela verdade, empresas focam no resultado e a sociedade civil trabalha com valores. É preciso enxergar isso para haver o diálogo e avançar”, disse.

No caso do setor empresarial, Marcovitch defende políticas públicas que promovam incentivos mais eficientes para as companhias que participarem e, ao mesmo tempo, sanções mais rigorosas para aquelas que não quiserem colaborar.

Por fim, o pesquisador apresentou partes do Estudo Econômico das Mudanças Climáticas no Brasil, que coordenou junto a 11 instituições.

O trabalho procurou identificar as vulnerabilidades que a economia e a sociedade brasileira possuem em relação às alterações do clima. “Os países que promoveram os maiores saltos da civilização foram os mais ousados e que enfrentaram grandes desafios, a área do clima é um deles”, disse.

Mais vida no mar

Censo internacional amplia conhecimento sobre a biodiversidade

Por Carlos Fioravanti, da Revista Fapesp



O Censo bate no fundo do mar: estrela-do-mar entre corais e outros invertebrados


No dia 4 de outubro, na Royal Society de Londres, um grupo de biólogos apresentou os resultados finais do Censo da Vida Marinha, o mais abrangente programa de pesquisa sobre a vida nos mares. Durante 10 anos, 2.700 pesquisadores de 80 países realizaram 568 expedições, encontraram pelo menos 1.200 espécies desconhecidas e agora estimaram em 230 mil o número de espécies de plantas, invertebrados, peixes e outros vertebrados marinhos. Desse total, 33 mil vivem nos mares da Austrália e outras 33 mil na costa do Japão, os mais ricos em diversidade biológica.

O Brasil, um dos líderes em biodiversidade terrestre, com cerca de 20% das formas de vida encontradas no planeta, aparece nesse levantamento em uma posição modesta, com 9.101 espécies de organismos marinhos, o equivalente a 4% do total. Esta é a primeira vez que se tem uma visão de conjunto – provavelmente incompleta – da biodiversidade marinha brasileira, antes avaliada apenas por meio de estudos esparsos, concentrados nas regiões Sul e Sudeste, e limitados a poucos grupos de animais encontrados na praia ou no mar raso.

A maioria das espécies marinhas encontradas no litoral brasileiro vive também no mar do Caribe, cuja biodiversidade é uma das mais altas do mundo, com 12 mil espécies. “Por ser um dos extremos do mar de Tétis, o Caribe tem mais espécies que o Atlântico Sul ocidental”, diz Tavares. No outro extremo de Tétis, esse oceano primitivo que separava os continentes há 280 milhões de anos, estão a Austrália e a Nova Caledônia, regiões ricas em diversidade marinha.

O mar brasileiro pode estar guardando muita riqueza ainda desconhecida. “Nossa biodiversidade marinha é no mínimo inadequadamente avaliada e muito subestimada”, afirma o zoólogo Marcos Tavares, pesquisador e vice-diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). Sua conclusão se apoia na ramificação de espécies que está ajudando a criar em apenas um dos grupos dos crustáceos, com 2.500 espécies nas Américas e 700 no Brasil. Em levantamentos anteriores, os especialistas contavam apenas com amostras de crustáceos do Atlântico Sul que viviam em praias e mangues, subdimensionando a diversidade biológica dos 8 mil quilômetros da costa brasileira.

A luz da genética – Agora, exames mais detalhados estão mostrando que espécies antes vistas como únicas são na verdade várias. “Antes havia só uma espécie Chaceon quinquidens, o caranguejo-vermelho, de mais de meio metro com as pernas estendidas, encontrado desde o Canadá até a Argentina. Hoje são cinco espécies diferentes, porque aquela antes considerada única foi mais bem estudada e exemplares de regiões diferentes mais bem examinados”, diz Tavares, que participou da reclassificação, ao lado de pesquisadores do Instituto Smithsonian, Estados Unidos. Um dos frascos sobre suas mesas contém um caranguejo amarelado de garras pretas, encontrado no litoral do Rio Grande do Sul. “Pensávamos que fosse mais uma espécie em comum com o Caribe, mas hoje sabemos que é exclusiva do Brasil”, diz ele.

Em um workshop sobre biodiversidade marinha realizado na FAPESP em setembro, Antonio Solé-Cava, pesquisador do Instituto de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), contou que sua equipe tem avançado bastante na diferenciação de espécies complementando as tradicionais descrições morfológicas com análises genéticas. Como resultado, verificaram que o cação-anjo, bastante pescado no Rio Grande do Sul, eram na verdade três espécies, e não uma só. A lagosta comercialmente mais importante no Caribe e no Brasil são na verdade duas espécies, uma em cada região.

Duas espécies de esponjas do gênero Placospongia agora são oito, das quais quatro ainda precisam ser nomeadas e descritas. Dimensionar a diversidade de formas de vida nos oceanos é essencial, entre outras razões, para impulsionar a busca de medicamentos inspirados em compostos extraídos de organismos marinhos: seres antes tão semelhantes a ponto de serem vistos como sendo da mesma espécie podem fornecer substâncias diferentes da desejada.

O número de espécies marinhas ainda pode aumentar, embora fazer ciência no mar seja difícil e caro. “É muito mais fácil organizar uma expedição aos confins da Amazônia do que para o mar”, afirma Tavares. “A coleta em praia arenosa é bem mais simples, precisamos apenas de equipamentos como pá, saco plástico, peneira e balde, e mesmo assim nossas praias são pouco estudadas”, diz Cecília Amaral, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Em alto-mar, além de precisarmos de embarcação e grandes equipes, a coleta é bem mais difícil, demorada e de alto custo.” Outra dificuldade é que os ambientes marinhos podem mudar rapidamente, em consequência dos ventos fortes ou da ação humana.

As coletas do programa Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva Brasileira (Revizee), o mais amplo levantamento nacional já realizado sobre a diversidade marinha, chegaram a 1,5 mil metros de profundidade em alguns pontos do litoral brasileiro. Agora as coletas estão ganhando profundidade: em setembro e outubro do ano passado, quatro pesquisadores brasileiros participaram de uma das expedições do Mar-Eco: Atlântico Sul e trouxeram 976 exemplares de crustáceos, moluscos, vermes e corais que vivem a até 4 mil metros abaixo da superfície.

Integrado ao Censo da Vida Ma­rinha, o Mar-Eco: Atlântico Sul reuniu equipes de nove instituições de pesquisa nacionais e sete estrangeiras interessadas em saber como a cordilheira Meso-Oceânica, cadeia montanhosa de 14 mil quilômetros de extensão que se eleva a 2 mil metros de altura do assoalho oceânico, separa as espécies marinhas a leste e oeste do Atlântico. Segundo José Angel Alvarez Perez, pesquisador da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) e coordenador da equipe da América Latina, as conclusões sobre a riqueza no mar profundo e o efeito da cordilheira devem estar prontas no início em 2011, quando partirá outra expedição.

WWF alerta cúpula de biodiversidade : valorizar

Da WWF Brasil

As nações reunidas que estão se reunindo em Nagoia (Japão) para encontro mais crucial da década, a Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (COP 10/CDB), precisam não somente estabelecer novas metas para estancar as perdas de biodiversidade como, também, estabelecer mecanismos e prover fundos para alcançá-las.

“O que o mundo espera de Nagoia, em primeiro lugar, é uma serie de acordos capaz de por fim às perdas dramáticas e contínuas do patrimônio natural do mundo e degradação constante dos sistemas que dão suporte às nossas vidas,” declarou o Diretor Geral da Rede WWF International, Jim Leape.

“Em primeiro lugar, precisamos garantir que o imenso valor representado por ecossistemas saudáveis, diversos e em pleno funcionamento, seja incluído como fator importante nas decisões econômicas. Precisamos especificar o valor dos serviços prestados pela Natureza no fornecimento de ar puro e água limpa para nossas cidades, solos saudáveis e recursos pesqueiros para nossa alimentação e recursos genéticos e medicamentos para nossa saúde.”

Por isso, o WWF vai pressionar fortemente na CDB a adoção de uma meta que inclua a incorporação do valor da biodiversidade na contabilidade das nações, nas suas estratégias de desenvolvimento e redução de pobreza e nos processos de planejamento.

No início desta semana o WWF documentou, no relatório Planeta Vivo, a dimensão das demandas que a humanidade faz da Terra e seus impactos sobre a biodiversidade. Estamos usando recursos equivalentes aos recursos de um Planeta e meio, enquanto o índice Planeta Vivo – um indicador do estado de saúde do planeta muito respeitado e de longa data – tem caido em mais de 30% desde 1970, sendo que nos países tropicais essa queda foi de mais de 60%.

“O Relatório Planeta Vivo é um histórico da saúde do planeta e um meio de aferir as pressões que ele sofre. O estudo está nos mostrando que nas regiões tropicais existe uma verdadeira crise de biodiversidade, minando as perspectivas de desenvolvimento dos países mais pobres”, afirmou Jim Leape.

Em 2002, os 193 países signatários da CDB – praticamente todas as nações do mundo – concordaram em “reduzir significativamente” o índice de perda de biodiversidade até o ano 2010 por meio da proteção de 10% dos habitats mais significativos nas esferas nacionais. No entanto, até maio de 2010, a Secretaria da CBD constatou que 21 das metas globais de proteção da biodiversidade não tinham sido alcançadas. Não foram protegidos os habitats de nem uma quinta parte de todas as espécies ameaçadas e menos de um por cento de proteção dos oceanos abertos.

“Nossa prosperidade, até mesmo nossa própria sobrevivência, depende da existência de ecossistemas saudáveis,” disse Jim Leape. “As florestas, oceanos e rios da Terra formam o alicerce da nossa sociedade e economia. Mesmo em termos estritamente econômicos a relação custo/benefício de se conservar ou restaurar os ecossistemas é de longe muito mais efetiva do que ter que prover artificialmente esses serviços naturais que até o momento sempre desfrutamos sem dar conta do fato.”

“Os governos poderiam ter ganhos imensos se eles simplesmente cortassem os subsídios que hoje impulsionam o uso excessivo dos recursos naturais.”

Por exemplo, a capacidade da frota pesqueira mundial é duas vezes maior de que os oceanos e zonas costeiras são capazes de sustentar e o Banco Mundial está estimando uma perda de rentabilidade da atividade pesqueira de $50 bilhões por ano; a provável extinção de 27 milhões de empregos; e mais de um bilhão de pessoas prejudicadas.

De acordo com o Programa para o Meio Ambiente das Nações Unidas, um investimento em torno de $8 bilhões por ano na reconstrução dos estoques e “esverdeamento” da pesca globalmente, poderia elevar as cotas de captura, melhorar a segurança alimentar e aumentar a renda de centenas de milhões de pessoas. A redução paulativa e a eliminação dos subsídios para a atividade pesqueira, que totalizam talvez três vezes o valor do investimento sugerido, ajudariam a reduzir a pesca predatória e, ao mesmo tempo, liberar fundos para investimento na proteção e restauração das áreas pesqueiras.

O WWF está promovendo uma meta de “20 por cento até 2020” para áreas protegidas as quais, na esfera nacional, assegurariam a sobrevivência e a riqueza de todos os ecossistemas terrestres e costeiras e incluiriam acordos multinacionais para que uma porcentagem de proteção semelhante fosse estendida para áreas de oceano aberto, biologicamente ricas, mas fora de jurisdições nacionais.

Concomitantemente com o apelo para que as considerações sobre a biodiversidade sejam destacadas nos processos de tomadas de decisão e planejamento, o WWF está pressionando especificamente, para que haja o estabelecimento de limites definidos para a extração de água, mantendo-a em níveis compatíveis com a capacidade de sustentação dos rios e da água subterrânea. Todos os subsídios “perversos” que ameaçam a biodiversidade precisam ser radicalmente cortados e um esforço internacional precisa ser envidado para tornar a pesca mundial sustentável.

“As mudanças climáticas constituem um fator chave entre aqueles que contribuem para a perda de biodiversidade. São justamente os ecossistemas mais saudáveis e diversos que demonstram maior resiliência face aos impactos das mudanças climáticas,” frisa Jim Leape. “Este encontro tem uma oportunidade de construir as pontes para sobrepor os abismos que separam as agendas internacionais de desenvolvimento, biodiversidade e clima - e da forma mais clara e imediata, por meio do seu apoio à meta de saldo zero de desmatamento até 2020.”

Os Programas para a Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação florestal (REDD) – que já se encontram na agenda de discussões sobre o clima - poderiam ter um papel importante no enfrentamento das perdas atuais de florestas, hoje em torno de 36 campos de futebol por minuto, nas regiões tropicais.

“As iniciativas REDD oferecem uma oportunidade única para financiar um dos serviços mais importantes prestados pelas plantas tropicais – o sequestro de carbono. As nações presentes em Nagoia têm a oportunidade de criar as salvaguardas necessárias para garantir que os programas projetados para reduzir as emissões de carbono produzidos pelo desmatamento sirvam também para proteger a biodiversidade extraordinária das florestas e os interesses das comunidades que delas dependam,” disse Jim Leape.

O WWF estará demandando progresso em relação aos 3 objetivos originais da CDB, estabelendo um critério justo para regular o compartilhamento dos benefícios oriundos dos recursos genéticos. Em 2008 o encontro da CDB estabeleceu uma diretriz ordenando que o encontro de Nagoia estabelecesse um Protocolo de Acesso e Compartilhamento de Benefícios (ABS na sigla em inglês).

“Estamos devendo, há muito tempo, um Protocolo ABS que reconheça os interesses dos países ricos em biodiversidade e garanta os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais sobre os recursos genéticos e conhecimentos tradicionais,” disse Jim Leape.

Para maiores informaçãoes:
Natalia Reiter nreiter@wwfint.org +41 79 873 8099
Sarah Bladen sbladen@wwfint.org +41 79 415 0220

WWF-Brasil

Maristela Pessoa – maristela@wwf.org.br 61-3364-7464

WWF CBD Media Centre: www.panda.org/CBD/media
WWF Living Planet Report Media Centre: www.panda.org/lpr/media

Projeto autoriza desconto no IR de gastos com reflorestamento

Por Marúcia Lima, da Agência Câmara

A Câmara analisa o Projeto de Lei 7224/10 do deputado Homero Pereira (PR-MT), que autoriza pessoas físicas e jurídicas a deduzirem, do imposto de renda, gastos com projetos de reflorestamento e de preservação do meio ambiente. De acordo com a proposta, a dedução será de até 10% do imposto devido.

O deputado Homero Pereira considera que “além de promover a preservação ambiental, a iniciativa vai fomentar a geração de empregos e renda”. O desconto não exclui e nem reduz outros benefícios, abatimentos e benefícios em vigor hoje.

Conforme o projeto, o direito à dedução deverá ser previamente reconhecido pela Delegacia da Receita Federal da jurisdição do contribuinte. A Receita ficará encarregada de fiscalizar a aplicação do incentivo fiscal.

O contribuinte que efetuar as deduções será responsável por irregularidades resultantes dos projetos executados. Na hipótese de fraude ou desvio de recursos, o projeto estabelece que será aplicada multa ao contribuinte, correspondente ao dobro do valor da vantagem recebida.

Tramitação
O PL 7224/10 está apensado ao PL 5974/05, que já foi aprovado nas comissões de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. A proposta, que tramita em urgênciaRegime de tramitação que dispensa prazos e formalidades regimentais, para que a proposição seja votada rapidamente. Nesse regime, os projetos tramitam simultaneamente nas comissões - e não em uma cada de vez, como na tramitação normal. Para tramitar nesse regime é preciso a aprovação, pelo Plenário, de requerimento apresentado por: 1/3 dos deputados; líderes que representem esse número ou 2/3 dos integrantes de uma das comissões que avaliarão a proposta. Alguns projetos já tramitam automaticamente em regime de urgência, como os que tratam de acordos internacionais., agora será analisada pelo Plenário.

Íntegra da proposta: