quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Testes de microbicida anti-HIV brasileiro começam este ano

Bel Levy

A iniciativa brasileira para o desenvolvimento de um microbicida anti-HIV - uma parceria entre o Instituto Oswaldo Cruz (IOC) da Fiocruz, a Universidade Federal Fluminense (UFF), a Fundação Ataulpho de Paiva (FAP) e o centro inglês Saint George's Medical School - iniciará em 2007 a testagem de substâncias com potencial atividade anti-HIV em animais de experimentação, em células humanas e em tecido humano. O objetivo é desenvolver um microbicida, um produto de uso tópico na área genital que possa prevenir a transmissão do vírus. A primeira substância a ser testada é um composto químico extraído de algas marinhas de origem nacional. "Esse projeto é resultado da convergência de diferentes interesses científicos na investigação de um produto nacional que possa combater o vírus da Aids. O desenvolvimento de um microbicida anti-HIV significará uma grande economia para o país, que gasta quase R$ 1 bilhão por ano com a compra e fabricação de medicamentos que foram desenvolvidos no exterior", apresenta o chefe do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC, Luiz Roberto Castello Branco, também coordenador do projeto interdisciplinar, que integra pesquisadores dos laboratórios de Imunologia Clínica, de Imunoparasitologia e de Pesquisa em Auto-imunidade e Imuno-regulação do IOC.

A primeira substância a ser testada, extraída a partir de uma determinada espécie de algas marinhas, mostrou-se bastante eficiente para o controle da replicação do HIV-1 em testes in vitro. "A substância, caracterizada como um dolabelano diterpeno, inibiu em até 95% a replicação do vírus em linfócitos e macrófagos, células envolvidas na resposta imunológica do organismo", confirma o pesquisador do Laboratório de Imunologia Clínica do IOC Dumith Chequer Bou-Habib, que coordenou os estudos responsáveis por avaliar a ação do dolabelano diterpeno na inibição da replicação do HIV-1, realizados em parceria com a UFF. O estudo do efeito da substância em animais de experimentação terá início em fevereiro deste ano. "O estudo pré-clínico em animais é indispensável para a testagem em humanos. Já temos a autorização da Comissão de Ética no Uso de Animais da Fiocruz para realizar testes em camundongos", afirma a pesquisadora do Laboratório de Imunoparasitologia do IOC Fátima Conceição-Silva, que coordenará essa fase do estudo. "O teste consistirá na avaliação da segurança do produto em camundongos fêmeas, através da aplicação tópica da substância, para avaliar possíveis alterações locais na área genital e alterações sistêmicas, isto é, em outros órgãos e no sangue", descreve a pesquisadora.
Em paralelo, serão feitos testes em fragmentos de tecido humano do cérvix uterino, retirados por biópsia e mantidos vivos em cultura em laboratório. Essa técnica, denominada explante, é disponível somente na Inglaterra e por isso essa etapa da pesquisa será realizada no Centro de Testagem de Microbicidas da Divisão de Doenças Infecciosas do Saint George's Medical School. "Mais um ponto positivo deste projeto é a transferência da tecnologia de explantes para o Brasil, por meio de cooperação internacional. O objetivo é trazer a tecnologia para o país, para a realização de futuros testes em território nacional, o que já foi acordado com o diretor do centro e idealizador dos testes, Robin Shattock", diz Castello Branco.

Além do avanço científico-tecnológico que representa e da economia financeira que poderá gerar, um microbicida eficiente contra o HIV significará a independência feminina na prevenção da Aids - até hoje, o único método preventivo eficaz contra a doença é o uso de preservativo, muitas vezes rejeitado por homens casados que mantêm relações extraconjugais e por culturas repressoras quanto ao papel da mulher. "Esse é um projeto ambicioso, mas factível e necessário, e nós temos todas as condições para concretizá-lo através da abordagem abrangente de uma equipe interdisciplinar", avalia Fátima. A chefe do Laboratório de Pesquisa em Auto-imunidade e Imuno-regulação do IOC, Joseli Lannes, concorda: "É essa riqueza de abordagens, que inclui considerações da área da patologia e da imunologia, estudos pré-clínicos, experimentação animal, entre outros aspectos, que torna possível a realização do projeto". Castello Branco acrescenta, abrindo as portas para novas parcerias: "Recebemos importante apoio do Programa Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis e Aids do Ministério da Saúde, mas estamos abertos a novas colaborações", afirma.

Fonte: Fiocruz

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