quarta-feira, 6 de março de 2013

Editor-chefe da Nature fala sobre a abertura da ciência


Philip Campbell,
editor chefe da revista Nature
Por Frances Jones, da   Agência FAPESP 

Quando se trata de abertura da ciência, é fácil defender o livre acesso aos artigos científicos e dados de pesquisas. Mais difícil é colocar isso em prática. Em linhas gerais, essa foi a posição dos três palestrantes que participaram da conferência “Science as an open enterprise: open data for open science”, realizada na sede da FAPESP, em São Paulo, reunindo o editor-chefe da revista Nature, Philip Campbell, o químico Martyn Poliakoff, secretário de Relações Exteriores da Royal Society (a academia de ciências britânica), e o diretor científico da FAPESP, Carlos Henrique de Brito Cruz.

“É muito fácil falar em ciência aberta”, afirmou Campbell, o sétimo editor da história da influente revista científica britânica, criada em 1869. “Mas é preciso pensar também nos custos, no crescimento do número de dados e publicações, na manutenção desses dados e em como melhorar a confiança na ciência”, complementou o editor.


Campbell é um dos integrantes do grupo de trabalho que preparou o relatório Science as an open enterprise: open data for open science, um documento de 105 páginas da Royal Society, lançado em junho de 2012, analisando os desafios e as oportunidades trazidas pelas novas formas de reunir, armazenar, manipular e transmitir os dados e informações sobre pesquisas científicas.

O relatório aborda como os cientistas precisam se adaptar às mudanças nos cenários tecnológico, social e político e reúne recomendações a pesquisadores, universidades e institutos de pesquisa, agências de fomento, governo, editoras de revistas científicas, associações e organismos profissionais.

Para Campbell, que é graduado em engenharia aeronáutica pela Universidade de Bristol, com mestrado em astrofísica e doutorado em física atmosférica, não basta apenas deixar os dados disponíveis para todos na internet. É preciso torná-los acessíveis, inteligíveis e reutilizáveis. E isso tem custo.

Ele citou, entre outros, o exemplo do Worldwide Protein Databank, repositório mundial com informações sobre as estruturas em três dimensões das grandes moléculas biológicas, incluindo proteínas e ácidos nucleicos, cujo projeto tem um custo total de cerca de US$ 12 milhões por ano e emprega 69 funcionários.

A própria Nature não tem todo o conteúdo aberto e para ler os seus artigos é preciso ser assinante – Campbell contou que o número de assinantes caiu do pico de 72 mil para cerca de 50 mil e aponta que no futuro a versão impressa provavelmente deixará de existir.

A revista adota o chamado padrão de acesso “verde”, nas quais as versões finais dos autores dos artigos ficam disponíveis (para os autores publicarem em qualquer outro lugar, incluindo em blogs próprios) apenas depois de um determinado prazo após a publicação original na revista. Em geral, segundo Campbell, o prazo exigido pelas publicações é de 12 meses. A Nature pede seis meses.

Há também o chamado acesso “ouro”, segundo o qual a versão final de um artigo fica totalmente disponível a todos a partir do momento da publicação e não há barreiras de assinaturas – pode ser reusável por qualquer pessoa em qualquer circunstância.

“Existe ainda o modelo híbrido, que são as revistas que combinam as assinaturas com uma opção de acesso ouro aos autores que pagam para deixar o acesso livre ao seu artigo, como ocorre na Nature Communications, afirmou Campbell. Segundo ele, o preço cobrado ao autor era de US$ 5 mil em 2012.

O editor indica que a tendência das revistas do grupo Nature é se tornarem híbridas. “Os editores querem isso, mas estão sujeitos à viabilidade financeira”, disse.

A conferência contou com a presença do presidente da FAPESP, Celso Lafer, e de José Arana Varela, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fundação. Varela e Poliakoff foram os moderadores do evento.

Artigos de pesquisas apoiadas

Brito Cruz comentou que várias iniciativas no Brasil têm avançado no sentido da abertura dos dados do mundo da ciência, mencionando os bancos de dados brasileiros já disponíveis gratuitamente na internet. “Acesso aberto não é algo completamente novo para nós aqui”, afirmou.

O diretor científico da FAPESP citou as informações abertas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do currículo Lattes, da Biblioteca Virtual e do programa SciELO (FAPESP/Bireme), “um dos maiores repositórios de publicações científicas do mundo”.

“Não há muitos países com esses tipos de dados completamente abertos para qualquer um em qualquer parte do mundo. Nós, no Brasil, pensamos que é a norma, mas não é”, disse.

Brito Cruz também falou sobre a política de acesso aberto já aprovada pelo Conselho Superior da FAPESP, que estabeleceu a criação de um repositório para a publicação de todos os artigos de pesquisas que receberam apoio da FAPESP.

“Os resultados de auxílios e bolsas financiados pela FAPESP terão de estar lá, seguindo as normas de cada revista científica onde o artigo foi publicado originalmente. Se o artigo tiver sido publicado na Nature, por exemplo, terá de aguardar seis meses”, disse. Segundo ele, o repositório deverá ficar pronto no segundo semestre de 2013.

Vídeos de química

Martyn Poliakoff, da Royal Society, destacou que a investigação aberta é cada vez mais importante dentro da ciência e que a “explosão de dados” que vem com a tecnologia precisa ser organizada e classificada. Além disso, a população estaria cada vez mais preocupada com temas como mudanças climáticas e quer mais dados para saber se a ciência está sendo feita de modo apropriado.

“Os dados que coletamos hoje podem ser usados no futuro de forma que ainda não conseguimos imaginar. Os exploradores de antigamente que coletavam espécimes de plantas e animais não sabiam nada sobre DNA e hoje as amostras são submetidas a esse tipo de investigação. Quando você coleta os seus dados, reúne informações que, no futuro, poderão ser analisadas de formas muito diferentes. São coisas que terão um valor enorme para cientistas que ainda nem nasceram”, disse.

Poliakoff, professor da University of Nottingham, é conhecido por um site (www.periodicvideos.com) no qual apresenta vídeos com experiências com os 118 elementos da tabela periódica de química. Parte desses vídeos agora também tem legendas em português.

Em 2010, FAPESP e Royal Society promoveram o UK-Brazil Frontiers of Science Symposium, em Itatiba (SP). O evento faz parte do programa Fronteiras da Ciência, uma série de encontros promovidos periodicamente pela Royal Society, em diversos países, com o objetivo de estimular os participantes a refletir sobre os novos rumos de seus campos de atuação, assim como de outras áreas do saber.

Em setembro de 2013, FAPESP e Royal Society voltam a atuar conjuntamente em novo evento, que será realizado em Londres e reunirá pesquisadores de diferentes instituições do Brasil, Reino Unido e outros países europeus.

Por dentro da Nature

Na plateia da conferência realizada no Auditório da FAPESP completamente lotado, Tel Amiel, pesquisador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), gostou de conhecer a posição da Nature com relação ao tema “open science”.

“Acho que a maioria do público aqui e das pessoas minimamente envolvidas com ciência veem a Nature como bastião, como alvo. Mesmo que ela não publique artigos em todas as áreas, tem uma perspectiva de vanguarda e é muito realista. Acho que a perspectiva britânica também é pragmática, com uma noção muito clara do que é e do que não é possível”, disse.

Para Amiel, o Brasil está na vanguarda com relação a esse tema. “Não foi uma conversa em que viemos ouvir o pessoal de fora para saber o que está ocorrendo. Viemos para tentar entender o que eles estão fazendo, para falar o que nós estamos fazendo e descobrir caminhos para fazer isso funcionar, de uma forma que seja viável, que mantenha a qualidade e abra novos caminhos para a produção científica”, disse.

Segundo Campbell, anualmente a Nature recebe 11 mil submissões de artigos científicos para publicação. Sessenta e cinco por cento são descartados em até uma semana por questões científicas. O restante é submetido ao parecer de dois ou três revisores. Ao final do processo, apenas 8% do total inicial de artigos é aprovado e publicado na revista.

Para o editor-chefe, os revisores da Nature agregam valor ao texto inicial apresentado pelo pesquisador de várias maneiras. Uma delas é fazendo uma seleção rigorosa dos artigos, de acordo com a validade, a qualidade, o impacto e o significado científico no longo prazo. Outra é pela edição, buscando acurácia técnica e melhorar a linguagem.

“Há em média seis autores por artigo. E uma medida tomada há alguns anos pela revista foi solicitar, de maneira informal, aos autores que especifiquem a contribuição de cada autor ao trabalho”, disse.

Na opinião de Campbell, a área por excelência que mais se beneficia com o acesso livre é a das ciências que estudam as mudanças climáticas no planeta. “Há muitos grupos diferentes interessados nas mudanças climáticas, sejam eles pesquisadores, agências do governo, empresas privadas ou cidadãos, todos querem descobrir coisas sobre todo e qualquer aspecto do clima”, disse à Agência FAPESP.

“A literatura é publicada em muitas revistas científicas diferentes e, se elas estiverem fechadas, fica impossível para qualquer pesquisador encontrá-la com facilidade. Como precisamos de pessoas de todas as disciplinas e de vários lugares trabalhando na mudança climática, parece-me muito razoável tornar os dados abertos”, disse.

Há uma situação paralela, segundo ele, na área da saúde, embora o conhecimento seja especializado e haja temores pelos riscos associados à interpretação errada do público sobre os dados de saúde. “Mas acho que devemos assumir que é melhor ter conhecimento demais do que de menos”, disse. 

Contaminação de igarapés tem grande impacto em Manaus



Com a maioria dos igarapés  de Manaus poluídos pelo processo de urbanização da cidade, a população acabou perdendo interesse por esses riachos que cortam a floresta amazônica e serpenteiam pelo meio urbano.

A começar pelo nome, de origem tupi-guarani, que significa ‘caminho de canoa’, outros fatos também são desconhecidos pela maioria, como a importância climática no cenário urbano e a biodiversidade que habita esses riachos.

O  pesquisador Jansen Zuanon  apresentou dados do Projeto Igarapés, que tem sede no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e surgiu em 2001 para preencher uma lacuna nos estudos biológicos das águas da Região Amazônica.
“Como vivemos em uma paisagem de grandes rios e a maioria da população depende deles, a maior parte dos estudos biológicos foi direcionada nesta área. A ideia surgiu, principalmente, por um interesse científico de estudar os igarapés”, explicou.

Nos 13 anos em que o Igarapés atua, os pesquisadores concluíram que esses riachos apresentam uma fauna diversificada como também variação de volume em certos períodos do ano e sensibilidade ante a impactos ambientais. “O desmatamento e os detritos jogados contribuem rapidamente para a contaminação das águas do igarapé e as consequências são extensas”, destacou.

Segundo o doutor em Ecologia, o calor produzido pela poluição das águas, causado pelas bactérias e a matéria orgânica, afeta o meio ambiente ao redor. “Quando essas águas afloram nas nascentes, a temperatura é de 22 Cº. Com a falta da mata para proteger do sol e com a fermentação da decomposição da matéria orgânica, a temperatura pode atingir 29 Cº”, explica. “Estamos trocando a função de ar-condicionado e qualidade de vida por um esgoto cheio de doenças”.

Outra consequência apontada pelo pesquisador são as enchentes, resultado direto da obstrução da passagem da água e do aterramento dos igarapés. Para Zuanon, projetos como o Prosamim são de importante cunho social, porém, não atentam para o procedimento correto no tratamento dos córregos da cidade. “Quando se aterra um igarapé, a água da chuva não tem para onde escoar, pois não há terra para absorvê-la nem canal para jogá-la nos rios e ela acaba acumulando na superfície”, revelou.

Conforme Zuanon, o correto seria a implantação de estações para tratar a água e a desobstrução dos córregos, que se tornam alternativas mais caras e sem atenção de governos. “É perfeitamente possível despoluir os igarapés de Manaus e termos água de boa qualidade. Mas, primeiro, temos que educar ambientalmente as pessoas para que não poluam as águas. É um costume de muitos anos e temos que lidar com isso”, alerta ele.

Reserva é um testemunho da cidade antes da urbanização

A reserva Adolpho Ducke, localizada a 25 quilômetros de Manaus, é o principal campo de pesquisas do Projeto Igarapés. Doada pelo governo em 1962, em uma solicitação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), a floresta tem 10.000 hectares e mais de 40 nascentes preservadas.

“É como ter um testemunho da Manaus antes da urbanização, a maioria dos estudos é feita por lá, mas também temos postos em vários pontos da região”, disse o dr. e pesquisador do Inpa Jansen Zuanon.

O acesso à reserva Adolpho Ducke ocorre pela rodovia AM-010 (Manaus/Itacoatiara), onde também podem ser encontrados o Jardim Botânico e o Museu Amazônico (Musa). A ideia, segundo Zuanon, é aproximar a população do meio ambiente e incentivar a preservação. “Não podemos ter a população como inimiga, ela precisa estar em contato com a natureza para aprender a valorizar e preservar a natureza”, acrescenta ele.   

A reserva possui um centro administrativo, biblioteca, lanchonete, estacionamento e trilhas que permitem o acesso dos visitantes aos diferentes ecossistemas da região.

Fonte: Fapeam

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Meta de limpeza em debate



O governo da capital argentina promete superar a crise do lixo, enquanto ambientalistas e opositores apontam para o lixo amontoado que se reproduz nas esquinas.

Por Sebastián Lacunza, do Terramérica.

O lixo espalhado por muitas ruas e avenidas da capital argentina em parte do dia reflete, segundo organizações sociais e opositores, a ineficiência de um sistema de coleta e tratamento que, paradoxalmente, cada vez custa mais à população. A crise do lixo na cidade de Buenos Aires se deve à saturação dos aterros sanitários, diante do aumento do consumo na última década, e ao deficiente serviço de coleta, com caminhões compactadores que costumam deixar à sua passagem restos espalhados, especialmente no centro da cidade.

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Resíduos domiciliares convivem com transeuntes na esquina das avenidas de Mayo e 9 de julho, no centro de Buenos Aires. Foto: Photostock/IPS

A geração de lixo sólido, como plásticos, têxteis, borrachas, couro e alimentos, cresceu entre 24% e 35% entre 2001 e 2011. Assim, as toneladas de lixo de Buenos Aires com destino à “disposição final” passaram de 1,4 milhão para 2,2 milhões, entre 2002 e 2010, sem que houvesse uma variação significativa na quantidade de habitantes, segundo dados do opositor partido Projeto Sul. Os depósitos ficam em localidades da área metropolitana de Buenos Aires, como José León Suárez, González Catán e Punta Lara, todas na jurisdição da vizinha província de mesmo nome.

A proximidade desses populosos municípios representa um enorme risco sanitário. Foram criados em depressões do terreno que são cobertas com uma membrana sobre a qual se deposita o lixo e, teoricamente, a ele são aplicados sistemas de coleta de gases e dissolventes para separar partes solúveis dos líquidos, para depois cobrir a superfície. A administração desses locais está a cargo da empresa Coordenação Ecológica Área Metropolitana Sociedade do Estado, resultado de acordo entre os dois distritos.

No entanto, a coleta é feita por cinco empresas privadas, que dividem áreas vizinhas, e uma sexta, propriedade do governo local, embora uma iminente licitação preveja um redesenho para sete áreas. Além da questão sanitária, o colapso do sistema também repercute no plano econômico. O gasto destinado ao setor de limpeza da cidade passou de 641 milhões de pesos (US$ 128 milhões) para 2,517 bilhões (US$ 503 milhões) desde 2008, primeiro ano do conservador Mauricio Macri, um dos principais opositores da presidente da Argentina, Cristina Fernández.

Com quase 2,9 milhões de habitantes, a cidade de Buenos Aires terá, assim, um gasto anual por pessoa de US$ 176 quando for aprovado o projeto do orçamento deste ano. Desde maio de 2007 vigora na cidade a Lei do Lixo Zero, aprovada no ano anterior, pelo qual o governo local está comprometido a reduzir drasticamente a quantidade de lixo com destino à “disposição final”. O cronograma estabelecia reduções graduais de resíduos de 30% em 2010, 50% em 2012 e 75% em 2017. Finalmente, fixava como meta para 2020 a proibição total de depósitos de lixo recicláveis.

Nos fatos, o lixo enviado para os aterros sanitários deveriam diminuir até 748.828 toneladas no ano passado, mas foi o triplo, com média diária superior a seis mil toneladas. “Não há um governo que tenha avançado tanto como o nosso no cumprimento da lei de Lixo Zero”, disse o ministro do Meio Ambiente e Espaço Público da Cidade, Diego Santilli. Embora admitam dificuldades no começo para cumprir a meta, garantem que a tendência será revertida graças aos acordos selados com o governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, do mesmo Partido Justicialista (peronista) que a presidente, embora de tendência centrista.

Porém, organizações sociais e dirigentes políticos opositores apontaram a falta de vontade do governo de Macri para implantar a Lei de Lixo Zero. Rafael Gentili, deputado pelo centro-esquerdista Projeto Sul na legislatura local, disse ao Terramérica que a política de Macri é “péssima, já que não cumpriu nenhum dos parâmetros que a norma estabelece. A cidade está hoje mais suja do que há cinco anos”, afirmou. Além dos objetivos citados, a Lei de Lixo Zero proíbe a incineração e estabelece a promoção da separação do lixo nos domicílios, um ponto crucial e que gera as maiores reclamações.

Por sua vez, Consuelo Bilbao, encarregada da campanha de tóxicos da organização ambientalista Greenpeace, apontou ao Terramérica “uma defasagem e um desequilíbrio enorme entre o sistema para coletar e enterrar e o dinheiro destinado a reciclagem, de 200 milhões de pesos (US$ 40 milhões). A crise que em 2001 devastou a economia argentina disparou um sistema de reciclagem informal, ao colocar milhares de famílias nas ruas para coletar vidro, papel, metal e papelão (cartones, daí o nome dados a eles de cartoneros). A melhoria nos indicadores econômicos e sociais a partir de 2005 reduziu o trânsito dos cartoneros. Há dois anos, o governo local implantou um sistema que dotou de certa formalidade a tarefa que realizam.

Os prédios com mais de 19 andares, centros comerciais, repartições públicas e escolas estão obrigadas a separar material reciclável, e este é entregue a cooperativas de cartoneros registradas junto à administração. Bilbao e Gentili concordam que isto permitiu recuperar 15% do lixo gerado na cidade, o que não exclui que se continue fazendo uma coleta e reciclagem artesanais. O foco das críticas do Greenpeace e de outros está no fato de que, segundo afirmam, o governo local resiste em avançar na separação de material reciclável na origem, isto é, nos domicílios, o que elevaria a reutilização do lixo em até 40% das toneladas produzidas.

“A Macri não interessa reduzir os níveis de produção de lixo, pelo contrário, quer que haja muito para que o negócio seja mais lucrativo”, afirmou Gentili. E argumentou que os contratados do Estado encarregados de processar o lixo para transformá-lo em biogás, adubo ou fertilizante cobram em função do volume e que por isto há um interesse econômico de que não diminua a quantidade de lixo na origem. Gentili denuncia que algumas empresas, como o Grupo Roggio, um dos mais importantes do país, participam das duas pontas da cadeia: coleta e tratamento, causando um conflito de interesses.

Por sua vez, Bilbao concorda que a política do governo de Buenos Aires tem como “objetivo o tratamento, não as fases prévias que consideramos cruciais, ou para políticas claras que apontem para uma medida de longo prazo”. Para a ecologista, é esclarecedor o fato de “se pagar às plantas de tratamento e aos cartoneros dar um subsídio e não um salário, com o qual ficam à mercê do valor do mercado. Assim, o que existe é uma desigualdade total”, ressaltou. 

Fonte: Envolverde/Terramérica

Ministério do Meio Ambiente vai mapear florestas brasileiras


por Carolina Gonçalves, da Agência Brasil

Equipes de técnicos e especialistas começam a ser deslocadas este ano para a Amazônia, onde terão que mapear as florestas da região em detalhes. Atualmente, apesar de o Brasil ser coberto por 60% de florestas nativas, os dados sobre estas áreas limitam-se a imagens da cobertura vegetal, por satélites, por exemplo. O objetivo do governo é detalhar aspectos como a qualidade dos solos, as espécies existentes em cada área e o potencial de captura e emissão de gás carbônico pelas florestas.

Os investimentos para o levantamento somam, pelo menos, R$ 65 milhões. Os recursos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) foram contratados na quinta-feira (24) pelo Ministério do Meio Ambiente. A proposta é que as equipes coletem em campo as informações sobre as áreas e analisem todo o material que vai compor o Inventário Florestal Nacional (IFN), que começou a ser construído em 2010.
“Em debates internacionais sobre mudanças de clima, por exemplo, saberemos que  florestas são estas que temos, qual a qualidade de nossas florestas, teremos descoberta de espécies, conhecimento sobre espécies em extinção, além das informações sobre a distribuição desses territórios e do potencial de uso econômico das florestas”, explicou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

O inventário também reunirá informações sobre florestas situadas em outros biomas, como o Cerrado e a Caatinga. Desde que o projeto foi aprovado, o governo mapeou florestas em Santa Catarina e no Distrito Federal, em uma fase experimental. Para o levantamento no Cerrado, o Banco Interamericano de Desenvolvimento disponibilizou US$ 10 milhões e, em Santa Catarina, os técnicos descobriram florestas que estão sendo regeneradas naturalmente, sem que os especialistas soubessem que o processo estava ocorrendo.

Ao todo serão mapeados quase 22 mil pontos em todo o território nacional. Em toda Amazônia, haverá em torno de 7 mil pontos. Apenas no Arco do Desmatamento, formado por Rondônia, centro e norte do Mato Grosso e leste do Pará e onde será iniciado o levantamento da região, serão levantadas informações de cerca de 3 mil pontos amostrais, distantes 20 quilômetros um do outro.

As informações detalhadas sobres as florestas brasileiras também devem balizar as políticas do governo para conservação da biodiversidade no território nacional e as novas concessões florestais. “O Brasil só fez um levantamento como este uma vez, que foi publicado nos anos 1980, com dados dos anos 1970 e não foi um levantamento nacional. Este é o primeiro ‘censo’ florestal e será o trabalho de maior envergadura de todo o planeta”, disse Izabella Teixeira.
“Normalmente vemos as florestas do ponto de vista de perda [desmatamento e queimadas]. Com o inventário vamos conhecer a floresta por dentro. Vamos obter vários resultados. A ideia é que, de 5 em 5 anos, façamos novas medições”, acrescentou Antônio Carlos Hummel, diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), que está conduzindo o levantamento.

Além de dados sobre espécies arbóreas e sobre o solo, Hummel destacou que a população que vive no entorno das florestas também será questionada. Segundo ele, serão aplicados quatro diferentes questionários para saber como estas comunidades convivem nestes territórios.

Os dados serão divulgados parcialmente todos os anos, mas a conclusão de todo o levantamento só sairá em 2016.

Imazon: desmatamento na Amazônia volta a subir


Por Fernanda B. Mûller, do CarbonoBrasil


a41 300x242 Imazon: desmatamento na Amazônia volta a subir
Análises de imagens de satélite indicam que 82 quilômetros quadrados foram desmatados em dezembro de 2012, um aumento de 107% em relação ao mesmo período de 2011.

O Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) divulgou seu mais recente Boletim de Desmatamento com dados até dezembro de 2012 e a tendência dos últimos meses é no mínimo preocupante.

O desmatamento acumulado no período de agosto a dezembro de 2012 totalizou 1.288 quilômetros quadrados, um aumento de 127% em relação ao mesmo período do ano anterior. Isto significa que cerca de 66,5 milhões de toneladas de CO2e foram liberadas apenas nestes meses.

Os resultados das análises para dezembro de 2012, mostram que, apesar da grande cobertura de nuvens na região (56%), o que na realidade pode resultar em dados “subestimados”, segundo o Imazon, foram detectados 82 quilômetros quadrados de desmatamento na Amazônia Legal.

Isso representou um aumento de 107% em relação a dezembro de 2011 quando o desmatamento somou 40 quilômetros quadrados para uma cobertura de nuvens de 76%.

Grande parte deste desmatamento, 71%, ocorreu em áreas privadas ou sob diversos estágios de posse, o restante foi registrado em Unidades de Conservação (2%), Assentamento de Reforma Agrária (10%) e Terra Indígena (17%).

Nestas últimas, as áreas mais afetadas foram as Terras Maraiwatsede (MT), localizada entre os municípios de São Félix do Araguaia e Alto da Boa Vista, norte do Mato Grosso. O território abriga conflitos extremos devido à reivindicação de posse pelo povo Xavante, cujos 165 mil hectares foram invadidos por fazendeiros, posseiros e assentados de programa de reforma agrária.

A taxa de degradação registrada em dezembro de 2012 (261 Km2) é ainda mais marcante, subindo 178% ao se comparar com o mesmo mês em 2011. Entre agosto e dezembro de 2012, a degradação florestal somou 972 Km2, uma redução acumulada de 71% em relação a este período no ano anterior.

Tendências

Em longo prazo os números ainda indicam que o desmatamento na Amazônia tem caído.

Estimativas divulgadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) no final de dezembro mostram que a emissão de dióxido de carbono por desmatamento na Amazônia no ano de 2012 caiu 16% em relação a 2011. Foram liberados 352 MtonCO2/ano (milhões de toneladas de dióxido de carbono).

Os dados foram calculados a partir dos resultados do PRODES 2012, sistema baseado no monitoramento de satélites do próprio INPE, que estimou 4.665 km2 de corte raso na Amazônia Legal no último ano.

Porém, assim como o Imazon, dados preliminares do INPE também sugerem um aumento no desmatamento entre agosto e outubro, último mês com dados divulgados.

“Consideramos que um aumento de 127% é preocupante e serve de alerta à sociedade. Como representa a primeira metade do calendário do monitoramento, ainda é possível evitar uma reversão da tendência de queda observada nos últimos anos”, comentou Heron Martins, pesquisador do Imazon, ao Portal CarbonoBrasil.

“É provável que nos próximos meses (janeiro a abril) ocorra uma diminuição natural da detecção devido ao período de chuvas na Amazônia que dificulta tanto o monitoramento quanto o processo de desmatamento. Entretanto, pode ocorrer um novo aumento ao final desse período, que coincide com final do atual calendário de monitoramento e inicio do próximo”, alertou Martins.

Retrocesso

Embora ainda seja preciso uma análise contínua para confirmar a retomada do desmatamento na Amazônia Legal, o que seria um duro golpe para toda a propaganda que o governo tem feito sobre a queda na derrubada de florestas, é impossível não fazer a conexão entre os dados e a aprovação das mudanças no Código Florestal.

“Não possuímos informações concretas que liguem o aumento do desmatamento ao novo Código Florestal, mas é uma hipótese a ser estudada”, disse Martins.

Aprovado no Senado em setembro de 2012 e sancionado em outubro pela Presidente Dilma, o novo Código Florestal traz consigo diversas polêmicas e faz parte de uma série de políticas e projetos conduzidos pelo governo federal extremamente criticados por especialistas da área socioambiental.

“É importante lembrar que o desmatamento vem se concentrando em áreas específicas, como, por exemplo, a região da BR-163 e em Rondônia, que passam por investimentos de infraestrutura como asfaltamento de rodovias e a construções de hidrelétricas. Além disso, essas áreas tiveram várias reduções nos limites de unidades de conservação devido aos projetos de infraestrutura e a ocupação humana. Todo esse contexto em conjunto com o novo código florestal pode ajudar a entender esse aumento do desmatamento nos últimos 4 meses”, ressaltou o pesquisador do IMAZON.

A nova legislação é foco de críticas não apenas de ambientalistas. Até mesmo da Procuradoria Geral da República encaminhou ao Supremo Tribunal Federal (STF) em 21 de janeiro três ações diretas de inconstitucionalidade (ADIs) que questionam dispositivos da Lei 12.651/2012.

O lado azul da economia verde



Inventário mundial de atividades de preservação dos recursos hídricos mostra grande crescimento no setor nos últimos quatro anos e investimento de quase R$ 20 bilhões só em 2011. China lidera lista, mas investimentos também crescem na América Latina.


Por Marcelo Garcia, da Ciência Online

Rio poluído
Para os autores do relatório, a escassez de água limpa será o primeiro efeito sensível da poluição e do aquecimento global. (foto: Flickr/ mckaysavage – CC BY 2.0)


Se pensarmos na economia verde como um prédio sustentável, capaz de abrigar seus moradores de forma mais racional e respeitar a natureza ao seu redor, o relatório publicado recentemente pela organização não governamental Forest Trends funcionaria como um mapa de seus encanamentos e reservatórios de água limpa.
O documento é um inventário de ações globais voltadas à preservação das bacias hidrográficas e dos ambientes onde se encontram. O levantamento apontou um crescimento de 100% na quantidade de projetos na área, e um investimento cerca de 2 bilhões de dólares maior do que o apontado no último mapeamento, em 2008.

As iniciativas catalogadas abrangem desde a proteção de ecossistemas rurais, como pântanos e florestas, até projetos urbanos, em geral relacionados à utilização de águas pluviais poluídas. No total, o estudo identificou 205 programas ativos em 30 países, além de 73 em desenvolvimento. Os maiores investidores na área foram governos e organizações sem fins lucrativos, com uma menor participação do setor privado. O valor total investido nesse tipo de programa superou os 8 bilhões de dólares registrados em 2011.

O relatório vem em boa hora. Cerca de 80% do mundo enfrenta ameaças ao abastecimento de água e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) aponta o risco da ‘falência’ de reservatórios de água em todo o globo e a redução de 50% dos pântanos e áreas alagadas no último século.
“As consequências da poluição e das mudanças climáticas estão evidentes na disponibilidade de recursos hídricos”, acredita Genevieve Bennett, analista do Forest Trends e uma das autoras do relatório. “Além de evitar a escassez, os projetos listados ajudam a preservar a biodiversidade e a controlar outros problemas ecológicos como o efeito estufa, além de gerarem renda para comunidades locais que protejam esses ecossistemas.”

Negócios da China – e da América
De acordo com o inventário, só em 2011 programas desse tipo preservaram 117 milhões de hectares de terra (área semelhante à África do Sul) e permitiram a economia de 138 mil megalitros de água dos reservatórios naturais – com mais de 4,6 milhões de megalitros preservados nos últimos anos.

Os países em desenvolvimento são os que mais se destacam nessa empreitada: “Com menos recursos, eles apostam na proteção das ‘infraestruturas verdes’, os sistemas naturais que realizam funções semelhantes as das caras soluções de engenharia ‘cinza’, como filtrar a poluição e evitar inundações”, afirma a autora.

Com 61 projetos (dois a menos que os Estados Unidos, mas com investimento superior), a China desponta como líder na área. Considerado um dos maiores poluidores do mundo, o país tem a menor proporção de água limpa per capita entre as maiores nações do mundo e as medidas para combater a escassez dos recursos hídricos já custam mais de 2% do seu produto interno bruto anual. “A insegurança em relação aos seus recursos hídricos provavelmente é o maior risco para o contínuo crescimento econômico da China”, afirma Bennett. “O lado pouco contado dessa história, como mostra a pesquisa, é que o governo chinês está em busca de modelos econômicos mais sustentáveis.”

Mesmo longe dos números chineses, a América Latina também merece destaque. Apesar de uma ligeira queda nos investimentos regionais na área em 2011, dados preliminares sugerem uma retomada em 2012, com a criação e expansão de programas. Uma tendência especialmente observada no continente foi a oferta de compensações não financeiras às comunidades locais pela proteção dos ecossistemas.
“Muitas vezes, treinamentos e incentivos agrícolas ajudam a promover a segurança alimentar e modos de subsistência alternativos mais do que dinheiro”, defende Bennett. “O financiamento direto também gera desconforto por parecer uma privatização da natureza. Por isso muitos ficam mais à vontade com compensações em forma de bens, como colmeias e mudas de árvores, que ainda podem ser trocados na comunidade.”

O Brasil e as notícias ruins
Sobre o Brasil, o relatório destaca a importância do ICMS ecológico para a proteção de áreas de conservação ambiental e a inclinação pouco comum das nossas empresas para investir na área. Porém, o exemplo brasileiro também deixa clara uma importante limitação do inventário: a dificuldade na obtenção de dados sobre os projetos. “Apesar do relatório listar quatro iniciativas no Brasil, existem mais de 30 ações em andamento no país, o que faz dele um participante muito ativo nesse campo”, revela Marta Echavarria, especialista em financiamento inovativo para conservação da Forest Trends.

Bennett justifica essa subnotificação: “Identificamos os programas, mas não é possível avaliar a ordem do investimento, pois alguns são muito pequenos e muitas vezes é difícil obter dados que comprovem os pagamentos realizados, sem contar a barreira linguística e a extensão territorial do país”, pondera. “Mas obter resultados mais precisos sobre o Brasil é prioridade, pois a participação do país vem crescendo muito.”

Independentemente das limitações, o relatório traz alguns resultados preocupantes. Desde 2008, muitos programas deixaram de existir, por inadequação a especificidades locais ou dificuldade de financiamento, e a participação do capital privado foi pequena – só foram constatados em 53 projetos, em especial oriundos de fabricantes de cerveja, que dependem de água limpa. “As empresas parecem inseguras em investir ou acreditam que a água diz respeito apenas ao poder público”, sugere Bennett. “Talvez possamos aproximá-las dos mercados ambientais existentes, como o de carbono, para criar ferramentas que ajudem o setor privado a entender os ganhos e riscos dessas atividades.”

Segundo a Florest Trends, mesmo com o crescente investimento na área, estimativas mostram que seria necessário um trilhão de dólares por ano para atender a demanda de água e de saneamento do mundo até 2025. No entanto, direcionar parte dessa verba para soluções verdes pode gerar grande impacto social e quem sabe permitir  que se alcance esse patamar. “Agir agora para preservar nossa água é absolutamente necessário, mas precisamos descobrir como pagar os custos”, pondera Bennett. “Os programas apresentados no relatório são promissores porque reconhecem os recursos naturais enquanto ativos valiosos finitos e por buscarem soluções criativas de investimento.”

Conferência em Berlim debaterá mudanças no uso da terra


Da Agência FAPESP 
A segunda conferência internacional do Global Land Project (GLP), um projeto internacional financiado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), reunirá em março de 2014, em Berlim, cientistas e pesquisadores para discutir sobre as mudanças de uso e cobertura da terra em todo o planeta.
O prazo final para a submissão de propostas para as sessões do evento termina no próximo dia 31 de janeiro. Os temas de trabalhos propostos são: Rethinking land change transitions; Local land users in a tele-connected world; Impacts and responses; Land governance.
Os pesquisadores podem apresentar seus trabalhos sob diversos formatos, como mesas-redondas, palestras e workshops.
Entre os objetivos do evento, está discutir o sistema da terra “como uma plataforma para as interações entre o homem e o ambiente, conectando as decisões locais sobre o uso da terra aos impactos globais”.
Mais informações e inscrições em www.glp-osm2014.org

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Frente parlamentar defende medidas em benefício de povos tradicionais



Por Idhelene Macedo, da Rádio Câmara

Comunidades tradicionais, como as formadas por indígenas, agricultores familiares e quilombolas, têm sofrido com os efeitos negativos de conflitos ambientais. Estudo recente da Fundação Oswaldo Cruz aponta 343 conflitos que tiveram impacto na saúde coletiva dessas populações, gerando piora em sua qualidade de vida e favorecendo a disseminação de doenças.
Para reverter o impacto desses conflitos, o presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa das Populações Extrativistas e dos Povos e Comunidades Tradicionais, deputado Afonso Florence (PT-BA), defende a adoção de algumas medidas. Entre elas, o aperfeiçoamento da legislação sobre as políticas públicas na área.

Afonso Florence afirma que essas populações precisam ter mais facilidade de acesso a programas sociais e serviços públicos.

Ele lembra que o governo já conta com iniciativas para ajudar essas populações, como os benefícios do programa Brasil Carinhoso, por meio do cartão do Bolsa Família; e também o Bolsa Estiagem e o Bolsa Verde, que beneficiam famílias comprometidas com a preservação do patrimônio ambiental ou que sofrem os efeitos dos períodos prolongados de seca, especialmente no Nordeste.

Segundo o estudo da Fundação Oswaldo Cruz, os conflitos ambientais ocorrem principalmente nas áreas rurais, com registro de mais de 60% dos casos. O estudo, intitulado Mapa da Injustiça Ambiental e Saúde, revela que a principal consequência do impacto ambiental sofrido pelas populações é a piora em sua qualidade de vida (79,8%).

Em segundo lugar, aparece a violência, nas formas de ameaça, coação física, lesão corporal e assassinato. Outros problemas enfrentados pelas comunidades em decorrência do impacto ambiental são doenças não transmissíveis e insegurança alimentar.

Desenvolvimento sustentável
Os números do estudo reforçam a necessidade de se promover o desenvolvimento sem desprezar os direitos humanos. Esse é o objetivo de um projeto de lei (PL 7447/10), em tramitação na Câmara, que estabelece diretrizes para o desenvolvimento sustentável de povos e comunidades tradicionais. Apresentada pelo deputado Luiz Alberto (PT-BA), a proposta já foi aprovada na Comissão de Educação e Cultura e agora aguarda análise de mais duas comissões.

Relator na Comissão de Direitos Humanos e Minorias, a próxima a examinar o projeto, o deputado Domingos Dutra (PT-MA) diz que as políticas públicas e a liberação de recursos são essenciais, mas ressalta que há obstáculos a serem vencidos.

"A burocracia enterra esses programas, [os recursos] não chegam. É preciso desburocratizar. Em segundo lugar, é preciso que haja prefeitos comprometidos e decentes. Porque o governo federal não tem braços suficientes para ele mesmo levar as políticas aos lugares mais distantes."

Íntegra da proposta:

PL-7447/2010

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Igarapés da Reserva Adolpho Ducke sofrem pressão da urbanização


Por Luís Mansuêto, da Agência FAPEAM

As águas dos igarapés do Sabiá, Sabiá 2 e Aliança com Deus, localizados na Reserva Adolpho Ducke, têm sofrido forte pressão da expansão urbana da cidade de Manaus, uma vez que as águas que entram na Reserva já estão poluídas pela ação do homem. Foi o que apontou o artigo 'Efeito da pressão antrópica sobre igarapés na Reserva Florestal Adolpho Ducke, área de floresta na Amazônia Central'
Os resultados da pesquisa foram publicados na revista científica Acta Amazonica, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), publicada no mês de setembro. O trabalho foi escrito pelos pesquisadores do Inpa, Sávio José Filgueiras Ferreira, Sebastião Átila Fonseca Miranda, Ari de Oliveira Marques Filho, e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Cláudia Cândida Silva. 

Durante o projeto, foram investigadas variáveis físico-químicas e químicas dos igarapés, em área de floresta primária de terra firme, próximo à área urbana. O objetivo foi verificar contaminações decorrentes das atividades domésticas, uma vez que a falta de estrutura de saneamento faz com que os igarapés funcionem como receptores dos dejetos gerados nas residências.

Os pesquisadores relataram que foi possível observar diferenças significativas nas médias da concentração de íons de hidrogênio, na condutividade elétrica e na quantidade de material em suspensão, entre os igarapés estudados. “Os resultados mostraram que o igarapé que drena a área de floresta mantém suas características naturais, por estar protegido das atividades humanas, como é o caso do Igarapé do Bolívia. Todavia, os que têm origem em área urbana estão impactados”, pontuaram.  

Nos igarapés cuja nascente encontra-se dentro da reserva, os valores médios correspondentes ao pH, condutividade elétrica e material em suspensão estão normais. Os valores mais elevados foram registrados nos impactados. Nos igarapés Sabiá, Sabiá 2 e Aliança com Deus, o pH foi, respectivamente, 6,70; 6,84 e 6,50. Isso significa que dentro da Reserva Ducke os recursos hídricos já se encontram afetados pela ação do homem. Eles explicaram que se esperava que todos os igarapés no interior da Reserva apresentassem pH de ambiente natural, o que não ocorreu. 

“Em áreas protegidas os valores do pH, geralmente, são menores do que 5,0. Ao adentrar em área urbana os valores tendem a aumentar, chegando a serem maiores do que 6. A expansão da urbanização, a consequente retirada da matéria orgânica, a exposição do solo e o lançamento de esgotos sem tratamento, favoreceram o aumento do pH das águas superficiais”, esclareceram.

Os igarapés investigados que adentram a Reserva são fortemente influenciados pela urbanização na parte superior de suas bacias, de acordo com os pesquisadores, o que faz com que suas águas cheguem em condições já deterioradas naquele ecossistema. Por exemplo, o Igarapé do Bolívia, antes de receber o Sabiá, dentro da Reserva, drena uma área integralmente com floresta nativa, portanto, mantém sua água em condições naturais. Entretanto, após recebê-lo, ainda dentro da reserva, a qualidade de suas águas é alterada, sendo talvez o único igarapé que sai da reserva com as águas já com pH acima do normal. 

Segundo os pesquisadores, percebeu-se também a melhoria na qualidade da água no Igarapé do Sabiá, já que ele entra na reserva com uma carga de poluição e, em seguida, recebe a contribuição do Igarapé Aliança com Deus (mais impactado), porém, pouco antes de desaguar no Bolívia, esta carga está reduzida. “A melhoria se deve, em parte, à entrada de pequenos tributários não impactados que ajudam a diluir a carga poluidora”, destacaram.

Influência humana

A influência humana exerce grande influência sobre os igarapés, segundos os pesquisadores, pois as alterações deixam de ser regulares, ainda que o sistema consiga absorver certo grau de perturbação. Isso se deve porque o homem raramente causa perturbações limitadas que permitam que o ambiente se recupere. Um exemplo de pressão excessiva sobre o meio ambiente é a ocupação desordenada das bacias hidrográficas, principalmente quando um grande contingente se estabelece sem o menor planejamento e sem o devido acompanhamento de infraestrutura e saneamento básico.

Importância da Reserva Ducke

Reserva Adolpho Ducke (Foto: Ricardo Oliveira)

Com uma área de 100 quilômetros quadrados, o que equivale a aproximadamente 11 campos de futebol, a Reserva Florestal Adolpho Ducke está situada na periferia da cidade de Manaus e, ao longo dos anos, ela vem sendo pressionada pelo avanço da urbanização, que já chegou a ocupar alguns setores de suas bordas. Para tentar frear a expansão urbana e evitar o avanço sobre a Reserva Florestal, no ano 2000, foi criado o Jardim Botânico de Manaus, que é administrado por meio de uma parceria entre o Inpa, a Prefeitura de Manaus e o Museu da Amazônia (Musa). 

“A criação do Jardim Botânico talvez tenha sido a atitude mais eficiente até o momento para evitar o avanço da urbanização. A eficiência reside não apenas na barreira física, mas principalmente nas atividades desenvolvidas naquele local, tornando as crianças mais propícias a conviver bem com a natureza”, pontuaram.


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cientistas apontam problemas da cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas

Por Fábio de Castro, da Agência FAPESP
Na avaliação de especialistas reunidos em São Paulo para discutir a gestão de riscos dos extremos climáticos e desastres, para que seja possível gerenciar de forma adequada os impactos desses eventos, é fundamental informar a sociedade – incluindo os formuladores de políticas públicas – sobre as descobertas das ciências climáticas.
No entanto, pesquisadores estão preocupados com as dificuldades encontradas na comunicação com a sociedade. A complexidade dos estudos climáticos tende a gerar distorções na cobertura jornalística do tema e o resultado pode ser uma ameaça à confiança do público em relação à ciência.
A avaliação foi feita por participantes do workshop “Gestão dos riscos dos extremos climáticos e desastres na América Central e na América do Sul – o que podemos aprender com o Relatório Especial do IPCC sobre extremos?”, realizado na semana passada na capital paulista.
O evento teve o objetivo de debater as conclusões do Relatório Especial sobre Gestão dos Riscos de Extremos Climáticos e Desastres (SREX, na sigla em inglês) – elaborado e recentemente publicado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) – e discutir opções para gerenciamento dos impactos dos extremos climáticos, especialmente nas Américas do Sul e Central.
O workshop foi realizado pela FAPESP e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em parceria com o IPCC, o Overseas Development Institute (ODI) e a Climate and Development Knowledge (CKDN), ambos do Reino Unido, e apoio da Agência de Clima e Poluição do Ministério de Relações Exteriores da Noruega.
Durante o evento, o tema da comunicação foi debatido por autores do IPCC-SREX, especialistas em extremos climáticos, gestores e líderes de instituições de prevenção de desastres.
De acordo com Vicente Barros, do Centro de Investigação do Mar e da Atmosfera da Universidade de Buenos Aires, o IPCC, do qual é membro, entrou há três anos em um processo de reestruturação que compreende uma mudança na estratégia de comunicação.
“A partir de 2009, o IPCC passou a ser atacado violentamente e não estávamos preparados para isso, porque nossa função era divulgar o conhecimento adquirido, mas não traduzi-lo para a imprensa. Temos agora um grupo de jornalistas que procura fazer essa mediação, mas não podemos diluir demais as informações e a última palavra na formulação da comunicação é sempre do comitê executivo, porque o peso político do que é expresso pelo painel é muito grande”, disse Barros.
A linguagem é um grande problema, segundo Barros. Se for muito complexa, não atinge o público. Se for muito simplificada, tende a distorcer as conclusões e disseminar visões que não correspondem à realidade.
“O IPCC trata de problemas muito complexos e admitimos que não podemos fazer uma divulgação que chegue a todos. Isso é um problema. Acredito que a comunicação deve permanecer nas mãos dos jornalistas, mas talvez seja preciso investir em iniciativas de treinamento desses profissionais”, disse.
Fábio Feldman, do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas, manifestou preocupação com as dificuldades de comunicação dos cientistas com o público, que, segundo ele, possibilitam que os pesquisadores “céticos” – isto é, que negam a influência humana nos eventos de mudanças climáticas – ganhem cada vez mais espaço na mídia e no debate público.
“Vejo com preocupação um avanço do espaço dado aos negacionistas no debate público. A imprensa acha que é preciso usar necessariamente o princípio do contraditório, dando espaço e importância equânimes para as diferentes posições no debate”, disse.
De acordo com Feldman, os cientistas – especialmente aqueles ligados ao IPCC – deveriam ter uma atitude mais pró-ativa no sentido de se contrapor aos “céticos” no debate público.
Posições diferentes
Para Reynaldo Luiz Victoria, da Coordenação do Programa FAPESP de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, é importante que a imprensa trate as diferentes posições de modo mais equitativo.
“Há casos específicos em que a imprensa trata questões de maneira pouco equitativa – e eventualmente sensacionalista –, mas acho que nós, como pesquisadores, não temos obrigação de reagir. A imprensa deveria nos procurar para fazer o contraponto e esclarecer o público”, disse Victoria à Agência FAPESP.
Victoria, no entanto, destacou a importância de que os “céticos” também sejam ouvidos. “Alguns são cientistas sérios e merecem um tratamento equitativo. Certamente que não se pode ignorá-los, mas, quando fazem afirmações passíveis de contestação, a imprensa deve procurar alguém que possa dar um contraponto. Os jornalistas precisam nos procurar e não o contrário”, disse.
De modo geral, a cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas é satisfatória, segundo Victoria. “Os bons jornais publicam artigos corretos e há jornalistas muito sérios produzindo material de alta qualidade”, destacou.
Para Luci Hidalgo Nunes, professora do Departamento de Geografia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os negacionistas ganham espaço porque muitas vezes o discurso polêmico tem mais apelo midiático do que a complexidade do conhecimento científico.
“O cientista pode ter um discurso bem fundamentado, mas que é considerado enfadonho pelo público. Enquanto isso, um pesquisador com argumentos pouco estruturados pode fazer um discurso simplificado, portanto atraente para o público, e polêmico, o que rende manchetes”, disse à Agência FAPESP.
Apesar de a boa ciência ter, em relação ao debate público, uma desvantagem inerente à sua complexidade, Nunes acredita ser importante que a imprensa continue pluralista. A pesquisadora publicou um estudo no qual analisa a cobertura do jornal O Estado de S. Paulo sobre mudanças climáticas durante um ano. Segundo Nunes, um dos principais pontos positivos observados consistiu em dar voz às diferentes posições.
“Sou favorável a que a imprensa cumpra seu papel e dê todos os parâmetros, para que haja um debate democrático. Acho que isso está sendo bem feito e a própria imprensa está aberta para nos dar mais espaço. Mas precisamos nos manifestar para criar essas oportunidades”, disse.
Nunes também considera que a cobertura da imprensa sobre mudanças climáticas, de modo geral, tem sido satisfatória, ainda que irregular. “O tema ganha vulto em determinados momentos, mas não se mantém na pauta do noticiário de forma permanente”, disse.
Segundo ela, o assunto sobressaiu especialmente em 2007, com a publicação do primeiro relatório do IPCC, e em 2012 durante a RIO+20.
“Em 2007, a cobertura foi intensa, mas a popularização do tema também deu margem a distorções e exageros. O sensacionalismo é ruim para a ciência, porque faz o tema ganhar as manchetes rapidamente por algum tempo, mas no médio prazo o efeito é inverso: as pessoas percebem os exageros e passam a olhar com descrédito os resultados científicos de modo geral”, disse. 

Morre pioneiro da divulgação científica

Por Heitor Shimizu, da Agência FAPESP 
 O jornalista espanhol Manuel Calvo Hernando, conhecido pelo trabalho pioneiro com divulgação científica, morreu aos 88 anos no dia 16 de agosto, em Madri.
Espanhol Manuel Calvo Hernando foi fundador da Associação Ibero-Americana de Jornalismo Científico e seu curso na ECA-USP, em 1972, estimulou a criação da Associação Brasileira de Jornalismo Científico(manuelcalvohernando.es)
Dedicou-se ao jornalismo científico desde a década de 1950. Foi um dos fundadores da Associação Ibero-Americana de Jornalismo Científico, em 1969, da qual foi secretário-geral, e da Asociación Española de Periodismo Científico, em 1971, da qual foi presidente de honra – a entidade é atualmente conhecida como Asociación Española de Comunicación Científica.
Nascido em Fresnedillas de la Oliva, nos arredores de Madri, Calvo Hernando começou sua carreira como redator do jornal Ya, no qual chegou a redator-chefe e subdiretor. Foi o responsável pela comunicação no Instituto de Cultura Hispánica. Em 1999, aos 75 anos, doutorou-se em Jornalismo Científico.
Autor de mais de 30 livros e centenas de artigos sobre jornalismo científico, foi vice-presidente da Asociación de la Prensa de Madrid e professor na Universidad CEU San Pablo, em Madri. Em 2008, foi homenageado pelo Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha pelo trabalho com a divulgação da ciência.
“Se queremos realmente uma sociedade democrática, é preciso que todos entendam a ciência”, disse Calvo Hernando em entrevista à revista Ciência e Cultura em 2005.
A respeito da formação dos jornalistas científicos, disse: “Como os campos científicos são muito específicos, não me parece adequado que os jornalistas sejam formados em cursos de ciência. Mas os jornalistas deveriam fazer uma disciplina de história da ciência e metodologia científica e, depois, fazer como fiz: escolher quatro ou cinco disciplinas – como física, latim, filosofia ou matemática – que, mais tarde, possam servir de base para todo o resto. A partir do momento em que os comunicadores entenderem e souberem o que é a ciência e o método científico, poderão se especializar na área de seu interesse”.
Repercussão no Brasil
“A morte de Manuel Calvo Hernando representa uma lacuna significativa no campo da divulgação científica, pelo papel de incentivador e animador que ele vinha exercendo, desde 1955, quando se destaca como jornalista devotado à cobertura da ciência e da tecnologia”, disse José Marques de Melo, professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e diretor da Cátedra Unesco de Comunicação na USP, à Agência FAPESP.
“Tive o privilégio de ser um dos seus alunos de pós-graduação, no curso que frequentei em 1965, no Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina, sediado pela Universidade Central do Equador. Suas lições foram basilares para a aprendizagem e o exercício crítico do jornalismo científico”, disse.
“Convidei-o a conhecer o Brasil, quando o visitei em Madri, em 1970, ocasião em que manifestou o seu respeito e admiração por José Reis. Nesse mesmo ano veio a São Paulo e, na Escola de Comunicações Culturais da USP, ministrou um curso pioneiro sobre Jornalismo Científico, frequentado pela vanguarda desse setor em nosso país. Retornou em várias outras ocasiões, sempre entusiasmado com a formação das novas gerações”, disse Marques de Melo.
“Foi por inspiração de Calvo Hernando que se fundou, em 1977, a Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC), reunindo profissionais e acadêmicos, bem como ajudando a integrá-la na comunidade internacional. Seus livros sobre jornalismo científico constituem fontes indispensáveis aos jovens que se iniciam nesse ambiente”, disse.
O médico e jornalista Julio Abramczyk, também importante divulgador da ciência, é outro que conheceu bem Calvo Hernando. "Para ele não era suficiente usar adequadamente o idioma na divulgação científica. Era necessário empregar também uma linguagem jornalística, isto é, clara, breve, concisa e simples”, disse o colunista de a Folha de S.Paulo.
“Calvo Hernando se destacou por incentivar em vários países da América Latina, por meio de quase uma centena de cursos e palestras, o desenvolvimento e a criação de associações de jornalismo científico”, disse Abramczyk.
“Graças ao seu empenho, São Paulo foi a sede, em 1982, do 4º Congresso Ibero-Americano de Jornalismo Científico, realizado concomitantemente com o 1º Congresso da ABJC, cuja repercussão resultou, na década de 1980, na criação de editorias de Ciência e Tecnologia nos principais jornais do país”, destacou.

Mais informações: www.manuelcalvohernando.es

quinta-feira, 2 de agosto de 2012



Cooperativa de agricultores japoneses implementa com sucesso um sistema agroflorestal na Amazônia que pode servir como modelo para a geração de renda e o desenvolvimento da região.

Por Marcelo Garcia, da Ciência Hoje Online


O que japoneses, floresta amazônica, pimenta-do-reino, pequenos produtores e agroindústria têm em comum? Essa combinação inusitada está fazendo sucesso no pequeno município de Tomé-Açu, no Pará, onde uma cooperativa de produtores rurais descendentes de japoneses tem utilizado sistemas agroflorestais como forma de cultivo sustentável e lucrativa. A metodologia, que permite a criação de produtos mais saudáveis e renda o ano inteiro, pode ser replicada em outras áreas da Amazônia.

Agricultura variada e sustentável
Na Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu, no Pará, produtores realizam plantio integrado de diferentes espécies vegetais, de tamanho variado, juntas em uma mesma área. Na foto, plantações de pimenta-do-reino, cupuaçu, açaí e paricá. (foto: Camta)

A ideia básica de um sistema agroflorestal é realizar o plantio integrado de diferentes espécies vegetais, de tamanho variado, juntas em uma mesma área, formando diversos 'andares' – o processo recebe justamente o nome de agricultura em andares.

Apesar de não haver um limite pré-definido de combinações, a maioria dos sistemas costuma integrar entre duas e quatro culturas. O conjunto cria uma vegetação densa que protege o solo e oferece sombra às espécies menores. A ideia não é nova – alguns grupos indígenas da Amazônia já a praticavam –, mas a discussão sobre sua utilização como alternativa para a agricultura da região é bastante atual.

Em Tomé-Açu, a instalação desse tipo de plantio começou após o declínio da monocultura da pimenta-do-reino na região, conforme contou o produtor rural Michinori Konagano, um dos diretores da Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta), em mesa-redonda realizada na última quinta-feira (26/7), na Reunião Anual da SBPC em São Luís (MA).


Os imigrantes japoneses que chegaram ao município no fim da década de 1920 trabalharam até os anos 1970 no plantio da especiaria, quando a queda dos preços e epidemias nos pimentais abriram espaço para a entrada dos sistemas agroflorestais na região.

De lá para cá, o sistema foi aperfeiçoado na base da tentativa e do erro para a escolha das melhores combinações de espécies. Hoje, Tomé-Açu é referência nesse tipo de plantio e a cooperativa acumula diversos prêmios relacionados a empreendedorismo e sustentabilidade.

Em suas florestas-plantações, os cerca de 300 membros do grupo dedicam-se ao cultivo do cacau e da pimenta-do-reino, combinado com o de diversas outras espécies, como cupuaçu, mamão, açaí, coco, maracujá, castanha-do-pará, borracha natural e paricá.

Além disso, a Camta promove e orienta a adoção dos sistemas agroflorestais para agricultura familiar em municípios vizinhos e realiza a comercialização dessa produção, um projeto que atende cerca de mil famílias da região.


Segredo oriental?
O sistema agroflorestal oferece uma série de vantagens: como existe muita matéria orgânica no solo, há menos necessidade de adubos e agrotóxicos, o que gera alimentos mais saudáveis. “A cobertura vegetal abundante também retém a umidade da terra, protege as plantações do Sol e proporciona um ambiente mais agradável para o trabalho no campo”, listou Konagano. “Além disso, o plantio de diversas culturas ao mesmo tempo permite a produção continuada e gera renda durante o ano todo.”


O produtor rural explicou, no entanto, que o sucesso da Camta não pode ser explicado apenas pela forma de plantio. Ele aponta o desenvolvimento da agroindústria como essencial para a consolidação do sistema no município – a primeira fábrica do projeto foi estabelecida na década de 1980, com apoio do governo japonês. Hoje a cooperativa exporta artigos como óleos, geleias e polpas de fruta, o que agrega valor ao produto natural. Além disso, reutiliza os restos orgânicos como adubo para a plantação.

Apesar das vantagens do sistema agroflorestal e de existirem outros grupos que realizam esse tipo de cultura na região, ele está longe de ser o mais usual. Para Konagano, o maior gargalo é o escoamento da produção. “Uma iniciativa que pretenda incentivar o sistema deve se preocupar em conquistar acesso aos mercados consumidores”, avaliou. “Se o produtor não puder vender sua produção, passa a se dedicar a outras atividades que destroem a floresta, como a extração de madeira e a pecuária.”

Aspectos culturais e questões econômicas também dificultam a popularização do sistema. “Quando implementada, essa forma de agricultura pode demorar um pouco a dar lucro, pois algumas espécies precisam de mais tempo até a primeira colheita”, alertou. “Além disso, há certa resistência do produtor em abandonar a tradição da monocultura e é mais difícil obter recursos, devido à falta de conhecimento técnico nas instâncias financiadoras para avaliar o negócio”, ponderou.


Para contornar essas dificuldades, Konagano ressaltou a necessidade de se observar a realidade dos agricultores. “É difícil modificar algo tradicional com muita rapidez; uma boa alternativa é compor o sistema agroflorestal com culturas já plantadas na região”, cogitou. “Mas é importante também estar atento ao mercado consumidor e às oportunidades. Por exemplo, hoje o Brasil importa cacau e borracha, então esses podem ser produtos mais lucrativos.”

O produtor ressaltou ainda a importância da formação de mão-de-obra especializada na área. “Temos orgulho de poder formar nosso próprio pessoal em Tomé-Açu e estamos abertos a receber interessados em aprender sobre a metodologia para aplicá-la em outras localidades”, disse. “Há pouco tempo recebemos produtores da Bolívia e do Amazonas, que passaram alguns dias no município e já começaram a implementar o sistema em suas comunidades. Estão todos convidados a fazer o mesmo.”