Considerado um dos cultivos comerciais com maior uso de pesticidas do mundo, uma ameaça ao ambiente e à saúde humana nos países produtores e à viabilidade econômica das indústrias, a cultura da banana poderá ganhar sustentabilidade. É possível que em uma década o uso de fungicidas e nematicidas nos bananais seja reduzido em até 50%. Para chegar a esse resultado cientistas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e da Universidade de Wageningen (Holanda) desenvolvem o Programa de Redução de Pesticidas em Banana (PRPB).
O foco do PRPB é o controle da Sigatoka Negra (Mycosphaerella fijiensis), principal doença que atinge a bananicultura, e do nematóide Radopholus similis. O escopo do programa conta com nove grupos de trabalho. Destes, três compõem o MusaForever – que é uma plataforma de transferencia tecnológica e de capacitação de recursos humanos. A idéia é obter mais conhecimento científico e ferramentas biotecnológicas necessárias para otimizar o controle genético da Sigatoka Negra. “Uma conquista garantida é o seqüenciamento do genoma do fungo Mycosphaerella fijiensis, recentemente concluído”, comemora o pesquisador Manoel Teixeira Souza Júnior, do Laboratório Virtual da Embrapa no Exterior (Labex Europa), sediado em Wageningen, na Holanda. Teixeira, um dos pesquisadores da parceria Labex e Universidade de Wageningen para o PRPB diz que o estudo é um desafio à comunidade científica – considerando a importância econômica e social da bananicultura, com produção em mais de cem países tropicais e subtropicais e alimento básico para mais de 400 milhões de pessoas.
Embora existam variedades resistentes à Sigatoka Negra, amplamente utilizadas no Brasil, muitas delas desenvolvidas pela Embrapa Mandioca e Fruticultura Tropical (Cruz das Almas-BA), estas são restritas a um grupo conhecido como “banana prata”. Para outras variedades, como as do subgrupo Cavendish (banana d’água, também conhecida como ‘nanica’ ou ‘nanicão’), que representam 30% da produção brasileira, a única solução do ponto de vista do controle genético é a produção de mutantes ou a produção de bananeiras geneticamente modificadas.
Hoje, para os produtores de bananeiras do grupo Cavendish – que domina o mercado internacional - o controle utilizado é o químico. Em alguns países da Américas do Sul e Central, a produção de bananas desse grupo só é possível com 50-70 pulverizações por ano com fungicidas.
Bananais sustentáveis
Se a Sigatoka Negra é um desafio às instituições envolvidas no PRPB (confira abaixo os participantes do programa), reduzir o uso de nematicidas para o controle do nematóide Radopholus similis não é menos importante. A quantidade de fungicidas e nematicidas aplicados nos bananais é inaceitável do ponto de vista ambiental, na avaliação de Manoel Teixeira. Especialista em fitopatologia e biologia molecular de plantas, ele diz que a seguir o ritmo das pesquisas é possível que os produtores brasileiros e de outras partes do mundo possam, num prazo de 10 anos, reduzir pela metade as aplicações dos produtos químicos. Isso ocorrerá mediante a oferta de alternativas de controle aplicadas de uma forma integrada. Ou seja: a combinação de sistemas de controles genético, biológico e químico, sendo que este último será definido (intervalo e número de aplicações) mediante um monitoramento constante e preciso da quantidade de doença presente no campo. Apesar de a necessidade do controle químico na bananicultura brasileira ser menor do que em outros países, pois grande parte das variedades nacionais são resistentes às doenças como Sigatoka Negra, Mal-do-Panamá e Sigatoka Amarela, há sempre risco de quebra de resistência. “Além disso, por conta do alto custo de produção, reduzir as aplicações de pesticidas na cultura da banana pode ser considerado um caminho sem volta.
Até porque, alimentos “limpos” ou livres de produtos químicos é uma exigência do mercado. Se o produtor não se adaptar a essa realidade perde mercado”, assegura Manoel Teixeira.
Por isso, os principais centros produtores da fruta (como Colômbia e Equador) têm interesse na proposta do PRPB. A coordenação do programa organiza, para novembro, na Costa Rica, uma reunião com grupos integrantes das cadeias produtivas de banana de diferentes partes do mundo para avaliar o programa. Em dezembro o PRPB terá uma proposta final que será apresentada às agências financiadoras de pesquisa e desenvolvimento.
Fonte: Embrapa
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