quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Ennio Candotti aponta “mudança na história” como tarefa para divulgadores de ciência

A missão de um divulgador científico assume características próprias na América Latina. Diferentemente da realidade de países mais desenvolvidos, nesta região os museus de ciência necessitam suprir a carência de laboratórios nas escolas de ensino fundamental, e as ciências, como um todo, carecem de memória.

Essa foi a tônica do discurso do físico Ennio Candotti, nesta segunda-feira (15), ao ministrar a aula magna do Curso de Aperfeiçoamento para Profissionais de Divulgação de Ciência e Tecnologia no Contexto da América Latina e Caribe. Aludindo ao encontro de presidentes sul-americanos, que negociou este ano a criação do Grande Gasoduto do Sul, Candotti ressaltou a importância prioritária da criação de um “cerebroduto”, ou seja: o intercâmbio mais intenso de estudantes e pesquisas científicas entre os países da América Latina em detrimento do modelo que privilegia a colaboração com países com outros interesses e memórias. “A história só vai se modificar quando mudarmos este pensamento, e isso é tarefa do divulgador científico”, sintetizou o presidente de honra da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

A cerimônia de abertura do curso OEA/Mast aconteceu às 17h30, no Salão Nobre do Museu de Astronomia e Ciências Afins (Mast/MCT), no Rio de Janeiro. Participaram da mesa inicial o subsecretário de Coordenação das Unidades de Pesquisa do Ministério da Ciência e Tecnologia (Scup/MCT), Luiz Fernando Schettino, o diretor do Departamento de Popularização e Difusão da Ciência e Tecnologia do MCT, Ildeu de Castro Moreira, o diretor do Mast, Alfredo Tolmasquim, e a coordenadora do curso, Moema Vergara. Lembrando o sucesso recente da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, Luiz Schettino ressaltou a importância da integração de experiências e conhecimentos para a divulgação da ciência. Organizador da Semana, Ildeu de Castro defendeu a cooperação e organização dos divulgadores para criar uma perspectiva continental deste tipo de ação. Moema Vergara lembrou os objetivos do curso, que visa não somente o municiamento dos profissionais com reflexões históricas e filosóficas sobre a ciência, como a formação efetiva de redes de divulgação.

O diretor do Mast, Alfredo Tolmasquim, deu boas vindas a todos, desejando que o sucesso do curso se consolide, garantindo a continuidade e intensificação da experiência. Ministrando a aula magna em espanhol, o físico Ennio Candotti brindou os visitantes com sua vasta experiência em interações anteriores entre os países da América Latina e Caribe visando à divulgação científica. Ele destacou que o histórico da cooperação já ultrapassa os 100 anos, referenciando a primeira conferência entre cientistas brasileiros e argentinos, em 1906, e momentos de intensificação dos intercâmbios no continente em meados do século passado. Lembrou que essa história foi interrompida pelas ditaduras militares que se impuseram a vários destes países, no período seguinte, e que deixaram uma lacuna de mais de 30 anos em muitas iniciativas para disseminação da ciência. “A contrapartida foram alguns colegas exilados, que migraram de um país para outro”, pondera o físico, que participou ainda em 1986 da criação da revista “Ciência Hoy”, lançada na Agentina. No panorama atual ele destaca também o atraso – já de 20 anos – da entrada da Ciência e Tecnologia na pauta do Mercosul, defendendo a criação paralela de um espaço cultural e científico latino-americano para suprir essa demanda.

Candotti citou a Amazônia como exemplo de área de interesse comum destes países, que, somados ao Brasil, respondem atualmente por apenas 30% dos estudos ali desenvolvidos. A mudança dessa perspectiva, segundo o físico, só será possível com um trabalho intenso dos divulgadores. Enquanto a possibilidade de entender ciência superior for restrita a menos de 20% da população – como acontece hoje no Brasil – é muito difícil entender a importância estratégica disso. O desafio maior do divulgador é, então, explicar ciência para esse público: “precisamos cuidar para não fazermos da ciência apenas uma mágica mal explicada”, formula Candotti.

Fonte: Mast

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