segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Bactérias associadas às raízes de plantas podem remover óleo de derramamentos

Por Débora Motta, da Agência Faperj

Um dos maiores vazamentos de óleo da história, que ocorreu recentemente no Golfo do México, no poço danificado da petrolífera britânica British Petroleum (BP), deixou no mar um desastroso legado de 4,9 milhões de barris, segundo dados do governo americano. Frente ao desafio de despoluir o meio ambiente em situações extremas como essa, uma alternativa natural aponta para o que pode vir a ser um aliado na limpeza de mares e vegetações costeiras. Um trabalho realizado no Laboratório de Microbiologia Marinha da Universidade Federal Fluminense (UFF), sob orientação da pesquisadora Mirian Crapez, com participação da graduanda Luciana Chequer, bolsista de Iniciação Científica da FAPERJ, avaliou a possibilidade de recuperar áreas de manguezais poluídas com óleo, utilizando a capacidade biodegradante de bactérias que vivem associadas, em simbiose, às raízes de planta


O projeto comprovou que bactérias associadas às raízes das
plantas podem ajudar a recuperar áreas poluídas com óleo

Trocando em miúdos, essas bactérias são capazes de “comer” o petróleo, transformando as moléculas de hidrocarboneto em outras bem mais simples e menos tóxicas ao meio ambiente (álcoois, ácidos, dióxido de carbono e água) e aproveitando-as em seu metabolismo como fonte de energia vital. “A utilização de micro-organismos associados às raízes de vegetais para ajudar a recuperar ambientes impactados por petróleo é conhecida como fitobiorremediação”, explica Luciana. Essa técnica ainda é pouco estudada no Brasi


A preocupação de se estudar, especificamente nos manguezais, esse mecanismo de limpeza para minimizar os efeitos da poluição por óleo justifica-se pelo fato de a maioria das refinarias de petróleo do país estar localizada na região costeira, onde esse tipo de ecossistema, altamente sensível aos impactos dos vazamentos, está localizado. “Os manguezais fornecem habitat para uma grande variedade de plantas, animais e micro-organismos e são de grande importância na proteção de regiões litorâneas”, diz ela, lembrando que eles funcionam como uma espécie de filtro das impurezas presentes no mar, o que os torna mais suscetíveis em casos de vazamentos de óleo.

Para testar o papel despoluente das bactérias em plantas atingidas por óleo diesel, foram escolhidas três espécies comuns no manguezal brasileiro: Rizophora mangle, Avicennia shauerianna e Laguncularia racemosa. As mudas (200 exemplares de cada uma dessas espécies) foram germinadas em viveiro e receberam a adição de consórcios bacterianos (10 milhões de células por cm³) capazes de usar os hidrocarbonetos de petróleo como fonte de carbono e energia, ou seja, de se alimentar deles.

As bactérias utilizadas no experimento foram isoladas do solo de manguezais localizados na Área de Proteção Ambiental de Guapimirim, na Baía de Guanabara. Depois, elas passaram por um processo de bioamplificação no laboratório, para aumentar sua concentração e facilitar o estudo dos efeitos bacterianos. Posteriormente, as mudas sofreram o impacto da poluição devido à adição de 0,5% de óleo diesel às suas raízes. A atividade do consórcio de bactérias e o desenvolvimento das mudas foram observados ao longo de 30 dias. “O objetivo era ver como as plantas reagiam ao impacto do poluente e se as bactérias realmente usavam o petróleo como fonte de alimento ”, conta.

Para isso, foram verificados aspectos do crescimento das plantas antes e depois da adição do poluente (tamanho do caule e número de folhas), as taxas de mortalidade das mudas e a massa orgânica (biomassa) das bactérias associadas às raízes. Entre os resultados, a pesquisa revelou que o processo de fitobiorremediação dos solos contaminados por óleo pode ter resultados diferentes de acordo com fatores ambientais. “Observamos que diferentes tipos de solo, teor de matéria orgânica, quantidade de água, disponibilidade de oxigênio e nutrientes, radiação solar e salinidade são variáveis que influenciam na eficácia da fitobiorremediação”, afirma.

A biomassa do consórcio bacteriano não variou durante o experimento. “Isso pode significar que as bactérias se alimentaram do hidrocarboneto ou utilizaram a matéria orgânica do ambiente”, diz Luciana. “Os parâmetros monitorados na biometria não apresentaram muitas diferenças no tratamento com óleo nas espécies de Rhizophora mangle. Porém, para as espécies de Laguncularia racemosa e Avicenia schaueriana, ocorreu uma redução no tamanho das plantas depois do tratamento com óleo”, completa.

A boa notícia é que parte do composto do óleo diesel foi “digerida” pelas bactérias e utilizada como fonte de energia. Testes realizados no Laboratório de Química Analítica da UFF constataram que alguns hidrocarbonetos tiveram redução em sua concentração. A despoluição, no entanto, está longe de ser um milagre. “Alguns hidrocarbonetos foram degradados, mas outros não”, ressalta, apontando a necessidade da realização de outras pesquisas para desenvolver a técnica e viabilizar a sua implementação no meio ambiente, além do laboratório. “É possível transportar esse estudo para os manguezais afetados, mas é um trabalho a longo prazo e que deve levar em conta os fatores ambientais”.

Em relação às técnicas de remoção de petróleo por meios mecânicos (barreira de contenção) e pela aplicação de produtos químicos, a fitobiorremediação apresenta vantagens econômicas e ecológicas. “A técnica é barata e dispensa a aplicação de tecnologias de ponta”, diz a pesquisadora. E prossegue: “Por utilizar bactérias do próprio ecossistema, ela preserva as características ambientais. Além disso, a remoção dos poluentes pela fitobiorremediação pode ocorrer tanto na superfície quanto em áreas mais profundas do solo, o que não ocorre com as outras técnicas, que são aplicadas na superfície da água, permitindo que os poluentes se alojem no fundo dos mares.”

Um comentário:

gisely disse...

Olá. Trabalho com biorremediação em ecossistema de restinga e achei interessantíssimo o trabalho da Débora. Gostaria se possível do e-mail para contato. desde já agradeço.
Meu e-mail é giselyictio@yahoo.com.br
abraços fraternos!