segunda-feira, 17 de março de 2008

Pesquisa analisa a febre amarela silvestre na Floresta Nacional de Caxiuanã

Considerando o clima da região, estudo analisa a distribuição dos mosquitos vetores da doença
"As pessoas que vivem e trabalham na região da Floresta Nacional de Caxiuanã, no Pará, têm que ser vacinadas contra a febre amarela". A afirmação é de Bento Mascarenhas, pesquisador da Coordenação de Zoologia do Museu Paraense Emilio Goeldi (MPEG), em Belém (PA), e co-orientador da dissertação de mestrado de Claudeth de Souza Pinto, intitulada "Ecologia de Culicídeos Vetores de Febre Amarela Silvestre em relação ao Microclima na Floresta Nacional de Caxiuanâ – Melgaço (PA)".

A pesquisa foi desenvolvida no âmbito da Pós-Graduação em Zoologia, mantida pelo Museu Goeldi em parceria com a Universidade Federal do Pará (UFPA). O estudo integra também o sub-projeto "Estratificação Vertical de Culicídeos em relação ao Microclima em Floresta de Terra Firme", realizado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Museu Goeldi e Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), financiado pelo Instituto Interamericano de Pesquisas em Mudanças Ambientais Globais (IAI). O trabalho visa a analisar de que forma as condições climáticas, tais quais temperatura, umidade e intensidade de chuva, interferem na distribuição dos mosquitos vetores de febre amarela silvestre na Floresta Nacional de Caxiuanã, no município de Melgaço, próximo ao arquipélago do Marajó. Para tanto, o local escolhido para coletar os mosquitos foi a torre de medição micro-meteorológica de Caxiuanã, que tem cerca de 50 metros.
Ao longo da torre, foram coletados mosquitos na região do solo e na altura de 8, 16 e 30 metros.

Ao fim do período de coleta, compreendido entre julho de 2005 e abril de 2006, Claudeth Pinto capturou 25.498 mosquitos. Desses, 1.530 são vetores em potencial da febre amarela silvestre, sendo 1.028 pertencentes ao gênero Haemagogus e 502 do gênero Sabethes. "Os mosquitos vetores de febre amarela silvestre só ocorrem de dia, das 8h às 18h, e a temperatura e umidade do ar influenciam diretamente na ecologia (interação desses mosquitos com o ambiente físico em que se encontram) e no hábito alimentar desses insetos", explica Mascarenhas.

Segundo ele, os mosquitos vetores podem chegar ao solo em horários diferentes do dia, dependendo das condições climáticas, o que facilita a interação desses insetos com o homem, podendo haver a transmissão da febre amarela silvestre. "Verificamos também que, quanto mais intenso é o período de chuva, maior é a presença desses vetores", diz o pesquisador. Mascarenhas afirma também que, dos mosquitos vetores encontrados na região de Caxiuanã, os mais perigosos são os da espécie Haemagogus leucocelaenus, pois vivem na altura compreendida entre o solo até 8 metros de altura. Macacos, morcegos e roedores são reservatórios da febre amarela silvestre, ou seja, podem conter o vírus da doença, mas não podem transmiti-la ao homem, pois há necessidade do vetor silvestre, que é o mosquito. Dentre os 1.530 vetores da doença encontrados na Floresta de Caxiuanã, está o Haemagogus leucocelaenus, espécie que vive nas regiões mais baixas. O pesquisador ressalta a necessidade de realizar um trabalho preventivo na região de Caxiuanã, com palestras para a comunidade, a fim de evitar a disseminação da doença, visto que a Floresta abriga animais que funcionam como reservatórios e mosquitos vetores da febre amarela silvestre.

Febre amarela

A febre amarela é uma zoonose (doença de animais) transmissível ao homem. Causada por um vírus, ela é freqüente entre os macacos, sendo adquirida acidentalmente pelo homem, que é um hospedeiro pouco importante no ciclo da doença. Existe em duas formas, a febre amarela silvestre e a febre amarela urbana, que diferem apenas no mecanismo de transmissão. A erradicação da febre silvestre é impossível porque o vírus existe naturalmente nas matas, entre os vetores silvestres e alguns animais vertebrados, como os macacos. A febre amarela urbana está erradicada no Brasil desde 1942.

Mascarenhas explica que a diferença entre as duas febres está no vetor e no reservatório, visto que os sintomas são os mesmos para ambas. No caso da urbana, o reservatório é o homem e o vetor é o mosquito Aedes aegypti, o mesmo que transmite a dengue. O pesquisador frisa que, enquanto os mosquitos vetores da febre amarela silvestre deslocam-se, em média, até dois quilômetros de distância, o Aedes aegypti voa, no máximo, por 200 metros. Isso interfere diretamente na disseminação das doenças e torna ainda mais preocupante uma epidemia na região silvestre.

Fonte: Agência Museu Goeldi

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